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Marechal

A perda do espírito gaúcho

 

Joni Lang/OP
Apesar de atuantes na região, Centros de Tradições Gaúchas têm perdido a participação de crianças e jovens nas atividades tradicionalistas artísticas e esportivas

 

Não é apenas no Estado do Rio Grande do Sul que as prendas e os peões mantêm a tradição do conhecimento, da arte, das crenças, das leis, da moral e dos costumes, hábitos e aptidões do povo gaúcho. Somente no Paraná são mais de 45 mil pessoas filiadas ao Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), que conta com 17 regiões tradicionalistas, 37 piquetes e 315 Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) espalhados pelo Estado.

Em Marechal Cândido Rondon, há 32 anos o CTG Tertúlia do Paraná, oriundo do extinto grupo Relembrando o Pago criado na década de 1960, mantém viva a chama do gauchismo entre crianças, jovens, adultos e idosos – que não precisam, necessariamente, terem nascido no Rio Grande do Sul ou terem uma ligação familiar direta com o Estado para serem tradicionalistas – para ser gaúcho e tradicionalista basta o amor à arte e à tradição gaúcha. Não é algo só pra fazer churrasco e dançar. O CTG envolve toda uma questão histórica. Existem estudos que embasam as atividades desenvolvidas dentro dos grupos que dizem respeito à origem e à história da tradição gaúcha que dão rumo a uma verdadeira identidade desse povo, explicando do porquê da bota, da bombacha, do lenço, do vestido da prenda, e isso que é apaixonante, diz o vice-coordenador da 10ª Região Tradicionalista – a qual o CTG rondonense integra, Christian Guenther.

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Há dez anos no meio tradicionalista, Guenther conta que começou a participar do grupo por conta da esposa, que foi criada em meio ao CTG. Depois que conheci entrei de corpo e alma porque é algo realmente apaixonante. É uma grande família que cultua a tradição gaúcha, enaltece.

Apesar da notabilidade do CTG em Marechal Rondon, que em 2015 conquistou o Campeonato Paranaense de Danças Tradicionais com a invernada adulta pela primeira vez na história do município, aos poucos, o espírito gaúcho tem se perdido, especialmente entre os mais jovens. A nossa invernada artística juvenil era bastante atuante, porém percebemos que na mudança da sede do CTG, muitos dos guris e prendas deixaram de participar. Hoje trabalhamos para que esses jovens voltem para o tradicionalismo, para as atividades artísticas, de dança, como a chula, em que já conquistamos prêmios importantes anteriormente, diz o atual patrão do CTG Tertúlia do Paraná, Ademar Beal. O que mais atrai os jovens é a questão campeira, quando se lida com os cavalos. A parte artística não brilha mais os olhos deles como antigamente, lamenta.

Atualmente, o grupo tem cerca de 80 a 100 membros, mas apenas 40 participam ativamente do CTG – que conta com invernadas artísticas adulta e veterana, que ensaiam e se apresentam juntas, e a mirim, que ensaia semanalmente. Aos poucos estamos voltando às origens, tentando recuperar a participação das crianças e dos jovens, que serão os adultos no futuro, no tradicionalismo, destaca. Quando assumi como patrão, pensava que era mais fácil cultuar o tradicionalismo, mas hoje vejo que está se perdendo muito o gosto pelo gauchismo, complementa Beal.

 

Tradição

No CTG Sepé Tiaraju, fundado em Pato Bragado antes mesmo de o município ser emancipado de Marechal Cândido Rondon, a situação vista pelo patrão Adejandre Bolsoni é a mesma: a cada ano que passa o espírito do gaúcho vem sendo esquecido pelos jovens. Eu vejo que vou conseguir fazer a minha parte como patrão apenas se conseguir resgatar o tradicionalismo entre as crianças e jovens e trazê-los novamente para o grupo, pois se um CTG não tem a artística, o esporte e os hábitos gaúchos vivos, não tem motivo para existir, ressalta.

Na microrregião, o Sepé Tiaraju, fundado em 1985 e integrante da 12ª Região Tradicionalista, é um dos que mais se destacam. Até mesmo a Festa do Cupim Assado de Pato Bragado, que celebra o aniversário do município, nasceu em meio ao grupo tradicionalista, sendo realizado pela primeira vez em 1988 pelo CTG. Talvez nos diferenciamos porque temos um grupo de pessoas que realmente gosta do tradicionalismo e abraça a causa há anos, tentando sempre seguir uma linha para manter a força do gauchismo, mas ainda assim, a cada ano, sentimos uma perda de envolvimento, comenta Bolsoni.

De acordo com o patrão, durante alguns anos, a dificuldade era manter um professor que se dedicasse a ensinar as danças e as histórias do Rio Grande do Sul para as crianças com seriedade. Já hoje, mesmo com a manutenção de uma professora com o apoio do Poder Público local, faltam as crianças para dançar. Temos apenas dez casais e tínhamos que ter de 20 a 30 pelo menos, diz.

A história do CTG Sepé Tiaraju também foi marcada pelos Telles, grupo de chula que nasceu no município e conquistou prêmios estaduais, nacionais e até internacionais na categoria. Mas por conta de desentendimentos políticos, os Telles acabaram indo embora de Pato Bragado e hoje continuam participando das competições de chula pelo CTG Estância Colorada, de Cascavel, conta. Eles têm uma história importante para Pato Bragado, para o Sepé Tiaraju, mas que não é exposta porque foi muito relacionado à política, ressalta Bolsoni.

No entendimento dos veteranos do tradicionalismo, manter as crianças e os jovens no âmbito dos CTGs os mantém também longe das drogas e do descaminho, além de estimular a convivência e a determinação. Temos uma série de determinações de vestimentas, de que não se pode usar roupa curta, precisa ter o respeito, as meninas devem ser prendadas, entre outros costumes que são repassados aos mais jovens, explica. A minha filha mais velha, por exemplo, dedica-se por vontade própria a fazer o chimarrão, a aprender a bordar e desde os sete anos é cavaleira e hoje faz a prova dos tambores, conta, mencionando que a influência da família no tradicionalismo já chegou até a filha mais nova, de seis anos, que quer aprender a montar em cavalos.

Esses são exemplos que eu felizmente tenho em casa, pois os jovens vêm se desinteressando cada vez mais pela parte artística. Cada um tem seu gosto musical, mas a maioria só pensa em balada e a própria mídia não valoriza o tradicionalismo e os jovens vão junto. Os pais também têm um tempo cada vez mais limitado e é mais fácil ver ele buscar o filho na balada do que vê-lo levando no CTG, critica Bolsoni. Isso é muito preocupante porque se os jovens não participarem, depois que os veteranos se forem, quem vai dar continuidade ao tradicionalismo? De cada dez jovens que faziam parte do CTG, dois ou três trazem seus filhos depois que casam de volta ao grupo, pontua.

 

Comércio

Bolsoni vê que alguns aspectos do tradicionalismo acabaram ganhando apelo comercial, que deixam de cultuar apenas o objetivo principal das invernadas: o de manter as tradições e danças gauchescas. No Festival Paranaense de Arte e Tradição (Fepart) deste ano fiquei até um pouco decepcionado. Lá em Pato Branco estavam grupos do Paraná inteiro, mas as competições se resumiam a Londrina, Curitiba e Pato Branco, porque a disputa para ganhar um troféu na artística é avassaladora, relata. O nível de investimento de alguns CTGs maiores faz com que os grupos do interior não tenham condições de competir, desde a estrutura para apresentação, os trajes, chegam até a contratar pessoas de outros Estados para se apresentarem. É lindo de se ver, mas virou um comércio, lamenta.

Mesmo que no âmbito dos grupos tradicionalistas existam vertentes voltadas para a artística, a cultura e o esporte, o patrão do CTG Sepé Tiaraju avalia que 90% dos grupos migraram para o laço e deixaram as outras atividades de lado. Aqui em Pato, há cerca de 20 ou 30 cavaleiros jovens que treinam semanalmente, mas também virou um comércio porque há as cavalgadas amadoras na região, menciona.

 

Não é só chimarrão e churrasco

Para um grupo ser considerado um CTG é necessário cumprir uma série de requisitos estabelecidos pelos regulamentos e estatutos sociais do MTG-PR, que faz parte da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha (CBTG). Todos os membros devem ter uma carteirinha para apresentar nos eventos, que traz a regularidade perante o sistema do MTG, ou seja, se não está regularizado não pode participar das competições, explica Guenther.

A falta de engajamento não acontece pela ausência nas atividades dos CTGs. Em Pato Bragado, Bolsoni ressalta que o Sepé Tiaraju abre todos os dias, com jogos e outras atividades, além do bar para a convivência dos gaúchos. No segundo sábado de cada mês também promovemos o almoço à base de ovelha e temos um grupo de veteranos que faz apresentações, expõe.

Uma das atividades que mais chama a atenção é a cavalgada, realizada durante a Semana Farroupilha pelos integrantes da 12ª Região, quando os tradicionalistas percorrem entre 250 e 280 quilômetros pelas fazendas e estradas dos municípios montados no lombo do cavalo. Neste ano, a saída será em Pato Bragado em direção a Foz do Iguaçu. O percurso todo dura cerca de sete dias e toda a família participa como forma de celebrarmos o Dia do Gaúcho. Em cada CTG que paramos para pernoitar, o grupo daquela cidade é responsável por dar o apoio aos cavalos e aos cavaleiros, explica. Bolsoni estima que cerca de 50 cavaleiros participam de todo o percurso, porém durante os sete dias, mais tradicionalistas se envolvem na atividade em dias específicos. No caminho, vamos contando a história da Semana Farroupilha, da Guerra dos Farrapos, que é algo muito bonito, enfatiza.

No próximo dia 28, como acontece todos os anos, o CTG Sepé Tiaraju comemora seu aniversário com um fandango, que neste ano traz novamente o grupo Os Monarcas para a região. É um baile muito prestigiado, que se vende praticamente sozinho, declara.

Na Semana Farroupilha também é realizada a costela na vala após a cavalgada, além do concurso da prenda e do peão mirim, que acontecerá no próximo ano. Neste ano participamos do Fepart e um casal do nosso CTG foi campeão da canastra e em julho participará da final do brasileiro, comenta.

Em Marechal Cândido Rondon, as atividades igualmente não param: todos os meses também acontece o almoço à base de carne de ovelha na sede do CTG Tertúlia do Paraná. Já temos marcado para o dia 09 de junho o baile com os Mirins e para o dia 16 de setembro um baile que integrará a programação da Semana Farroupilha e do Dia do Gaúcho, que ainda será definida, informa Beal.

O objetivo do patrão do grupo rondonense é também realizar um Sarau de Prendas de 15 anos, que aprendem, além das normas tradicionalistas, a fazer cada prato em uma panela determinada, chimarrão, entre outras atividades domésticas. Demanda de uma professora que fica de dois a três meses ensinando as prendas para o sarau, mas hoje faltam as prendas para realizar esta atividade, constata.

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