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Marechal

Abandono de animais lota abrigo da Arca de Noé

Seja acorrentados no portão da entidade ou encontrados em sacos e caixas em terrenos baldios, animais trazidos até de outros municípios bateram o “recorde” de cães abrigados pela ONG rondonense


calendar_month 17 de abril de 2018
7 min de leitura

Debaixo de sol, sem água, sem comida, amarrado com correntes de ferro ao pescoço e, principalmente, sem carinho e amor. É assim que Zulu foi encontrado em frente ao portão da sede da ONG Arca de Noé há cerca de três semanas.

Ele foi o último a ser deixado no local, mas não foi o único e nem será o derradeiro. Desde 2006, quando foi fundado em Marechal Cândido Rondon, o Grupo de Amparo e Proteção Animal (Gapa) depara-se com diversas situações de abandono, maus-tratos e sofrimento de animais domésticos e domesticados.

Recentemente, no entanto, as situações de despejo de cães em frente ao abrigo da entidade têm sido mais frequentes e o que mais chama a atenção dos voluntários é que os animais são oriundos de outros municípios da região. “Temos observado e pessoas já nos comunicaram que viram carros com placas de outras cidades que param e literalmente jogam fora os animais”, denuncia a presidente da Arca de Noé, Suely Hey.

A explicação para que o ato de covardia tenha ocorrido, segundo ela, é devido ao alcance do trabalho da ONG não apenas em Marechal Rondon, mas também em cidades da região. “Moradores literalmente desovam os pobres animais que não querem mais em suas casas para nós darmos a assistência”, pressupõe.

Zulu foi deixado acorrentado a porta da entidade há cerca de três semanas (Foto: Divulgação)

Suely destaca que nem sempre apenas um animal é deixado no local. Às vezes, assim como aconteceu com Zulu, o cachorro é amarrado a uma árvore. Em outras situações, três, até quatro animais são deixados em frente ao portão. “E isso também acontece na casa de alguns voluntários e também em clínicas veterinárias”, lembra ela.

 

Superpopulação

Nos 12 anos em que a ONG tem atuado no município, Suely avalia que o número de animais abrigados tanto no espaço da Arca de Noé quanto em lares temporários nunca foi tão alto. “Sem dúvida, esse é o maior número de cachorros que já recolhemos”, garante.

Hoje, são cerca de 180 animais na sede da entidade, sendo aproximadamente 25 filhotes. “Este número de filhotes também é o maior que já tivemos e ocorre pelo abandono frequente que temos observado de ninhadas inteiras em vários pontos da cidade, especialmente em terrenos baldios”, observa, ressaltando que, somando os animais que estão em lares temporários, a Arca de Noé conta hoje com cerca de 50 filhotes.

Suely diz que o abandono de ninhadas, além de ser um ato de covardia, coloca em risco tanto a mãe quanto os filhotes. Para a cachorra, ter o leite e não poder amamentar causa riscos à saúde, iniciando com febre e podendo levar a infecções. “E os filhotes, tão pequenos, muitas vezes não conseguem nem ser ouvidos para serem socorridos”, diz. “Tive uma experiência com seis cachorros que tinham seis dias de vida e a orientação da médica veterinária era de que a cada duas horas eles deveriam ser amamentados, inclusive à noite, caso contrário eles iriam morrer. Dois deles não conseguimos salvar, mas os demais hoje estão bem e em lares, bem cuidados”, expõe.

De acordo com a presidente da entidade, a situação de abandono em frente à sede da Arca de Noé não era frequente porque o endereço do local não era divulgado, entretanto, com o passar do tempo o espaço acabou ficando bastante conhecido, abrindo espaço para os atos de maus-tratos aos animais. “Já ocorreram situações piores do que deixar os animais amarrados, quando jogaram um cachorro por cima do muro da sede, e como temos cachorros que ficam soltos, eles acabaram matando, porque veem como um intruso, um animal desconhecido”, relembra. “Todas essas atitudes são atos de muita covardia, falta de amor, uma falta de cidadania terrível”, enfatiza.

Entre ninhadas inteiras encontradas em diversos pontos da cidade, animais também são encontrados em situações de maus-tratos, como este, achado dentro de um saco plástico preto (Foto: Divulgação)

 

Falta de recurso

Frente à superpopulação de cães, que leva a ocorrência de brigas entre os animais, problemas como pulgas, carrapatos e doenças de pele, o anseio da entidade é de ampliar o espaço. Porém, o que falta é recurso. “Nossa despesa com medicação é muito alta devido a esses problemas, assim como com veterinários e com ração, que passa de uma tonelada ao mês”, salienta.

Atualmente, o custeio da ração é possibilitado pelos valores arrecadados com o programa Nota Paraná, que até março deste ano acumulou para a entidade R$ 64.480,65 em mais de 50 pontos de coleta da ONG. Para ajudar, o consumidor deve doar às instituições as notas fiscais pedidas no momento da compra sem solicitar o registro do CPF no documento. “Eles são alimentados somente uma vez ao dia. Temos apenas um funcionário, que fica cinco horas por dia no abrigo, mas o ideal seria ter uma pessoa pela manhã para alimentá-los e fazer a limpeza e outro na parte da tarde para concluir a limpeza e alimentá-los novamente. Contudo não temos condições de custear”, pontua.

A área em que está localizado o abrigo da Arca de Noé foi cedida pelo município de Marechal Rondon para cessão de uso por 30 anos. A construção, no entanto, é oriunda da arrecadação de fundos da entidade por meio de bazares da Receita Federal e doações esporádicas de pessoas físicas e jurídicas. “Quando o cão é adulto, a adoção é sempre mais difícil, por outro lado, é mais fácil de lidar com um cachorro adulto do que com um filhote. Essa situação de abandono em alta escala, especialmente de ninhadas, está nos trazendo um problema maior com os filhotes, porque eles choram mais, requerem mais atenção e é isso que motiva também as feiras para adoção”, ressalta.

No último sábado (14), uma dessas feiras foi organizada no Supermercado Copagril II e 14 animais foram adotados. “É um resultado muito bom. Mas ao passo em que muitos são adotados, outras ninhadas são encontradas”, contrapõe.

Para fazer a adoção, os interessados devem ter mais de 18 anos, ou estarem acompanhados de um responsável, apresentar um comprovante de endereço e pagar uma taxa de R$ 40, que é referente à vacinação do animal. “Temos como principal projeto a castração de cães e gatos, pois somente desta forma a população desses animais poderá ser controlada, mas ainda assim temos nos deparado com essas situações de abandono de ninhadas inteiras”, destaca Suely.

 

Denuncie!

Com a sanção da lei complementar nº 111 em dezembro de 2015, foram estabelecidas no município rondonense penalidades administrativas para aqueles que praticarem maus-tratos e crueldade contra animais.

Conforme a normativa, qualquer pessoa, física ou jurídica, está passível das penalizações estabelecidas na lei caso pratiquem ações como abandono em vias públicas ou residências fechadas ou inabitadas e agressões diretas ou indiretas, como espancamento, uso de instrumentos cortantes ou contundentes e uso de substâncias químicas, tóxicas ou fogo. Além disso, a privação de alimentação adequada à espécie e água e confinamento inadequado, coação, abuso, tortura, castigo físico ou mental podem resultar em advertência, multa e sansões restritivas de direito. “As denúncias de abandono e maus-tratos não podem ser deixadas de lado. Quem ver qualquer situação deve denunciar. Em caso de abandono, é essencial que seja anotada a placa do veículo”, enfatiza a primeira tesoureira da entidade, Rosemari Lamberti.

As denúncias devem ser feitas à Secretaria de Agricultura e Política Ambiental da prefeitura por meio do telefone (45) 3284-8843.

 

A reportagem completa pode ser lida na edição desta terça-feira (17) do jornal O Presente. 

 
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