O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que atualmente é conduzido por Damares Alves, lançou uma polêmica campanha nas redes sociais, a qual começa a partir desta segunda-feira (03). A intenção da iniciativa é combater a gravidez precoce na adolescência, bem como as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), com uma ação: orientar os jovens a não praticarem sexo.
Na última semana a ministra disse que o governo continuará dispondo dos métodos contraceptivos tradicionais, mas também lembrará os jovens da possibilidade de retardar o início da vida sexual, através da abstinência.
No texto do projeto da ação, o Ministério aponta que “a proposta é oferecer informações integrais aos adolescentes para que possam avaliar com responsabilidade as consequências sociais, econômicas e psicológicas de suas escolhas para o seu projeto de vida. Portanto, não ofende em qualquer nível o direito à liberdade do indivíduo. O intuito da iniciativa é exatamente o contrário: ampliar os direitos de crianças e adolescentes com enfoque na valorização da pessoa humana, no fortalecimento da saúde emocional e na conscientização sobre os impactos decorrentes da vida sexual”.
A reportagem de O Presente procurou profissionais de áreas distintas de Marechal Cândido Rondon que falaram um pouco de suas experiências em relação ao assunto abordado.
O QUE DIZ A SAÚDE PÚBLICA
A enfermeira Renate Saatkamp Hensel atua na Clínica da Mulher e da Criança, que atende gestantes das mais variadas faixas etárias. Ela relata que hoje o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diversos tipos de métodos contraceptivos para as adolescentes.
Dentre esses, destaque para a pílula anticoncepcional e também o anticoncepcional injetável, que pode ser administrado de forma mensal ou trimestral. Há também o dispositivo intrauterino (DIU) que, inclusive, seu procedimento de colocação também é feito pelo SUS. Além disso, Renate ressalta que há os contraceptivos de barreira, que são os mais utilizados, sendo eles a camisinha masculina e feminina.
“As adolescentes têm o amparo do sistema público de saúde. No caso da pílula e do DIU precisa de uma consulta médica. O ideal é que todas as meninas e moças que iniciarem sua vida sexual de forma ativa, procurem um médico para a indicação do contraceptivo que melhor se adéqua a ela. A pílula é o medicamento ideal. Por isso da importância da consulta, da conversa”, aponta a enfermeira.
Em todos os postos de saúde de Marechal Rondon as adolescentes conseguem consultas a estes profissionais, seja ele um ginecologista ou o clínico geral.

Enfermeira na Clínica da Mulher e da Criança, Renate Saatkamp Hensel: “O ideal é que todas as meninas e moças que iniciarem sua vida sexual de forma ativa procurem um médico para a indicação do contraceptivo que melhor se adéqua a ela” (Foto: O Presente)
O QUE DIZ A ESCOLA
A diretora auxiliar do Colégio Estadual Eron Domingues, Lisane Rheinheimer, e a pedagoga Mirna Zenker Wissmann contam que a escola tem o papel de educar os adolescentes em relação às questões sexuais, envolvendo a gravidez na adolescência e as doenças sexualmente transmissíveis.
Lisane expõe que no Eron Domingues os jovens são orientados sobre como evitar a gravidez e DSTs através de palestras e projetos, que buscam mostrar aos adolescentes sobre as consequências que os atos podem trazer para eles.
A pedagoga Mirna reforça: “Tivemos situações de alunas que deixaram de estudar por causa de gravidez. As ações da escola são voltadas a não mostrar apenas a prevenção, mas a questão da maturidade e da responsabilidade, com o próprio corpo, do psicológico e da condição de ter esse ser humano que ela irá gerar”, afirma.
Para a diretora auxiliar, as famílias estão perdendo o controle com a permissividade que estão dando aos filhos. “Estamos em uma geração que tudo é permissível, tudo é possível e se dá um jeito. É uma geração que não sabe lidar muito com os limites”, opina.

Diretora auxiliar do Colégio Estadual Eron Domingues, Lisane Rheinhemer: “Estamos em uma geração que tudo é permissível, tudo é possível e se dá um jeito. É uma geração que não sabe lidar muito com os limites” (Foto: O Presente)
O QUE DIZ A IGREJA
Segundo o padre André Boffo Mendes, da Paróquia Maria Mãe da Igreja, a Igreja Católica estruturou seu pensamento ao longo dos séculos baseado na Sagrada Escritura e dá a sua orientação para diversos assuntos, muitos deles voltados à esfera moral.
“A Igreja Católica diz que os entes, aqueles que são os fiéis, que são catequizados dentro da doutrina cristã católica, devem sempre considerar seu corpo como um templo. Então, sendo o seu corpo um templo, esse templo só pode ser explorado por alguém que vá te preencher por completo. Por isso, a Igreja defende que uma vez escolhida uma pessoa para ser sua companhia, ela vai, com a bênção de Deus, te acompanhar até o final de sua vida. É com essa pessoa que você deve estreitar o laço sexual. A Igreja orienta os seus jovens, aqueles que são solteiros, a ter uma vida casta. O que é uma vida casta? É uma vida preservando seu próprio corpo e entregando a sua intimidade apenas àquele que é de verdade ou deverá ser o seu companheiro de vida”, pontua o padre.
Segundo ele, a doutrina cristã tem muito a ensinar, através do princípio de castidade, de respeito pelo próprio corpo e até de manter a sua intimidade. “Quanto mais se falar sobre sexualidade com as crianças e com os adolescentes e tratar da sexualidade como uma coisa boa, tratar o seu corpo como algo que precise ser preservado, mais teremos adultos, adolescentes e jovens conscientes, mais cheios de sentido”, observa, acrescentando: “Penso que a iniciativa em si, em tese, é boa, mas ela não pode ser colocada como um ‘pacotaço’ para vir e substituir tudo o que nós temos, não distribuir mais preservativos, não falar mais sobre contracepção e esses assuntos. Isso não resolve. Acho que todo tipo de extremismo é errado e traz efeitos danosos”, expõe o pároco.
Boffo pondera também que a fé cristã católica tem um doutrinário que é para os seus cristãos católicos, não é para a sociedade inteira. “A sociedade pode beber dessa fonte como também não pode. O que é importante preservar nesse momento é que realmente precisa se conversar sobre esse assunto. Precisamos cada vez mais incrementar para que a gravidez na adolescência e a contaminação de doenças sexualmente transmissíveis não cresçam. Então, acho que o diálogo é importante e precisa ser feito”, defende.

Padre André Boffo Mendes, da Paróquia Maria Mãe da Igreja: “Precisamos cada vez mais incrementar para que a gravidez na adolescência e a contaminação de doenças sexualmente transmissíveis não cresçam. Então acho que o diálogo é importante e precisa ser feito” (Foto: O Presente)
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