Inaugurado em 1967, na gestão do então governador Paulo Pimentel, o Aeroporto Municipal de Marechal Cândido Rondon não tinha o atual nome de Ruben Berta, empresário brasileiro que ocupou a presidência da extinta companhia aérea Varig. O título somente foi dado 14 anos depois, durante a inauguração do recape asfáltico da pista.
O local ficou conhecido em razão de casos inusitados e já foi cenário de acontecimentos cômicos. Ganhou até mesmo o noticiário policial da imprensa nacional.
TROLAGEM À MODA ANTIGA
Um dos episódios mais pitorescos aconteceu em 1981, durante a inauguração do asfaltamento da pista do aeroporto, com a presença do então governador do Estado, Ney Braga.
Para inaugurar o asfalto, a prefeitura organizou uma cerimônia com queima de fogos para receber o voo que trazia de Curitiba o governador.
Mas, o que o prefeito da época, Verno Scherer, seu grupo político e a população que se reuniu no aeroporto para esperar a chegada da comitiva estadual não esperavam é que um grupo de políticos da oposição pregaria uma peça em todos.
Idealizado por Rui Pires e Matias Seyboth, o plano era que os políticos se deslocassem até Cascavel na casa de um amigo e proprietário de uma aeronave, com a intenção de pedir para ele realizar um voo até Marechal Rondon.
E assim eles fizeram. Após combinar o valor cobrado pelo transporte aéreo, o avião decolou levando o grupo rumo ao Aeroporto Municipal, onde a população esperava a chegada do governador.
Momentos antes do avião do governador chegar no aeroporto, a aeronave trazendo os políticos da oposição começou a fazer os procedimentos de pouso.
Segundos antes da porta da aeronave se abrir, começou a queima de fogos, mas quando as primeiras pessoas começaram a sair do avião, o burburinho tomou conta do público e a situação criou grande embaraço. Virou até notícia nacional.
BAGULHO BOLIVIANO
Outro acontecimento marcou negativamente a história do aeroporto e virou notícia nacional nos principais veículos de comunicação do país.
O fato ocorreu em 2007, quando, por acaso, um agente da Polícia Federal (PF) ouviu a conversa de um homem em um telefone público próximo ao hotel onde ele e outros policiais estavam hospedados, enquanto participavam de uma operação na região de fronteira.
A conversa se desenrolava em tom bastante alto e o policial ouviu o indivíduo se queixar porque alguém não teria acendido as lamparinas e, por conta disso, ele não teria conseguido pousar na pista. O policial ouviu também o homem dizer que estava preocupado, pois estava com o “bagulho” no avião.
Com os indícios de tráfico de drogas, os policiais federais se deslocaram ao aeroporto, onde identificaram uma aeronave que havia pousado naquele dia e estava guardada em um hangar.
Dentro da aeronave os policias encontraram um grande volume de pasta-base de cocaína, que somou 174 quilos da droga.
Com a intenção de prender os responsáveis em flagrante, os policiais armaram uma tocaia que durou a noite toda.
Na manhã do dia seguinte, perceberam a chegada de dois homens, que abasteceram a aeronave e retiraram-na do hangar. Assim que o piloto acionou o motor, os policiais efetuaram a abordagem e a dupla foi presa em flagrante por tráfico internacional de drogas.
Com o administrador do aeroporto a polícia encontrou um revólver sem registro e o homem foi preso por porte ilegal de arma de fogo.
De acordo com a polícia, a aeronave decolou de Marechal Rondon em direção ao interior da Bolívia, onde carregou a cocaína. A droga, segundo o piloto, que também era o dono do avião, seria transportada então até o interior do Paraguai. Porém, como ele não encontrou a pista onde deveria pousar e com o combustível acabando, resolveu voltar ao Oeste paranaense, onde a dupla acabou presa.
A cocaína apreendida, com alto grau de pureza, foi avaliada em cerca de R$ 9 milhões.

AVIAÇÃO NO SANGUE
Além de ser palco de contos curiosos como esse, o aeroporto rondonense ajudou a formar personagens marcantes, com muitas histórias que sempre são lembradas nas conversas em rodas de amigos.
Nascido no município catarinense de Agrolândia, o empresário e piloto nas horas vagas Uli Siegel tem um estreito vínculo de carinho e cumplicidade com o aeroporto rondonense, afinal, foi aqui que ele começou a alçar os primeiros voos em solo paranaense.
Uli conta que a paixão por aeronaves começou na infância, mas foi aos 18 anos que o desejo de pilotar se tornou realidade, quando ele e sua família ainda moravam no Estado de Santa Catarina. “Iniciei na aviação fazendo o curso de voo à vela (sem motor), ou seja, de planador, na cidade de Rio do Sul”, recorda.
O empresário relata que na época a família decidiu vir morar em Marechal Rondon, justamente por conta da cidade já possuir aeroporto. “Além das riquezas naturais, um dos fatores que mais pesou foi o aeroporto, devido à rapidez e à facilidade no deslocamento”, revela.
Hoje, ao 62 anos e com aproximadamente 4,5 mil horas de voo, Uli diz que a sensação que sente quando está voando é a mesma de quando ainda era iniciante. “Não pretendo parar nunca. Enquanto puder, vou continuar voando”, afirma.

VOO POLÊMICO
Uma dos acontecimentos inusitados, ocorrido há algumas dezenas de anos, tirou o sono, literalmente, dos moradores e gerou muita polêmica no município.
Uli lembra que nesse período era praticante de voos noturnos, apesar de a prática ser considerada irregular pela legislação brasileira, por oferecer certo grau de risco. Mas, segundo ele, nunca aconteceram acidentes, mesmo com todas as peripécias noturnas sobre a cidade que dormia tranquila. “Imagina a paz e a tranquilidade da madrugada ser quebrada com o barulho de um avião sobrevoando a cidade. O resultado foi muitas pessoas se aglomerando em frente ao aeroporto para saber o que estava acontecendo, mas era apenas a gente se divertindo”, relembra, sorrindo.
Ele relata que muitas das pessoas que saíram da cama para ir ao aeroporto acharam divertida a situação, no entanto, teve a ala dos incomodados que acabou com a diversão noturna. “Tivemos que correr longe para não sofrer as devidas sansões”, brinca o empresário.
RECRUTA ZERO
Outra situação inusitada, porém nada divertida, aconteceu durante um voo de retorno da cidade de Cascavel para Marechal Rondon.
Uli comenta que, como de praxe, fez o plano de voo e, assim que decolou, acionou o piloto automático da aeronave porque queria ler uma edição nova do gibi do Recruta Zero, que ainda não havia lido. “Decolei e coloquei os equipamentos na rota que eu deveria ir, peguei o gibi e comecei a ler”, lembra.
Mas o que ele não sabia é que havia cometido um erro ao informar os instrumentos e o que era para ser um voo rápido e tranquilo se tornou o pouso de emergência mais tenso da sua vida. “Quando o sinal sonoro avisou que o meu destino estava próximo, olhei para baixo e percebi que não estava em Marechal Rondon”, expõe.
Ao notar o erro, já no cair da noite, Uli percebeu que sobrevoava a cidade de Assis Chateaubriand, entretanto, não tinha combustível suficiente para alternar o voo. “Minha única alternativa foi pousar em uma avenida, mas foi um pouso excelente, considerando o risco de enroscar nos fios de luz e as falhas apresentadas pelo motor devido ao pouco combustível”, frisa.
Ele menciona que assim que pousou algumas viaturas da polícia e muitos curiosos se aproximaram da aeronave, afinal, nunca um avião havia pousado na avenida da cidade. “Fui detido pela polícia e tive que contar muitas historinhas para os policiais abrirem a cela para eu fazer um telefonema”, salienta.
Logo, o pouso de emergência foi explicado para as autoridades policiais pelo advogado da família e Uli foi solto no mesmo dia.
O empresário conta que no dia seguinte o delegado montou um esquema que interditou metade das ruas da cidade para ele conseguir decolar com o avião em direção a Marechal Rondon. “Vim de carro a Marechal, peguei combustível e consegui decolar de uma outra avenida, pois não tinha condições de decolar de onde pousei, porque foi um pouso extremamente curto”, pontua Uli.


O Presente