O Presente
Marechal

Álcool e maconha são as drogas mais consumidas entre os jovens atendidos pelo CAPs em Marechal Rondon

calendar_month 26 de junho de 2021
10 min de leitura

O Jornal O Presente elaborou uma matéria sobre evasão escolar na rede pública de ensino. A reportagem aborda, entre outros pontos, os principais motivos para os alunos desistirem dos estudos.

Aqui, abordaremos uma das causas mais preocupantes relacionados à evasão escolar: o consumo de drogas entre os adolescentes, que, além prejudicar diretamente o aprendizado dos jovens, representa um sério problema social para toda a comunidade.

 

Consumo de drogas entre adolescentes

É na adolescência que acontecem as transformações hormonais, físicas, psíquicas e sociais que formam o caráter e acompanham o indivíduo pelo resto da vida. É uma fase marcada pela mudança comportamental e quando uma infinidade de possibilidades são testadas e, em muitos casos, os jovens se afastam naturalmente da família para buscar a “tribo” que mais se identifica com suas vontades e expectativas.

É um momento importante para a pessoa descobrir prazeres e sensações saudáveis e que fazem parte da vida, mas, também, é neste período que muitos adolescentes têm contato com substâncias psicoativas que poderão marcar sua trajetória para sempre. A dependência em álcool, tabaco e outros tipos de drogas é mais devastadora quando acontece neste momento de amadurecimento pessoal e físico do indivíduo.

O Relatório Mundial sobre Drogas 2020 divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) revela que cerca de 269 milhões de pessoas usaram drogas no mundo em 2018 – aumento de 30% em comparação com 2009. Além disso, mais de 35 milhões de pessoas sofrem de transtornos associados ao uso de drogas.

Ainda segundo o relatório, os jovens representam a maior parcela daqueles que usam drogas e os que mais consomem tais substâncias em excesso, constatação que também preocupa, uma vez que constituem o grupo populacional mais vulnerável aos efeitos das drogas, que são mais prejudiciais aos cérebros ainda em desenvolvimento.

 

Evasão escolar e as drogas

Quando os educadores percebem a ausência constante do aluno em sala de aula, ou em outros meios de aprendizagem não presencial, e são esgotadas todas as tentativas junto à família para reverter a situação, a escola tem o dever de informar à Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente.

Além das escolas, também fazem parte da rede de proteção as áreas da saúde, da assistência social e da segurança pública, que, por meio de seus atores, articulam ações para tentar sanar o problema. Um dos órgãos responsável pela demanda é o Conselho Tutelar, que faz o acompanhamento de acordo com a problemática de cada situação.

 

Papel do Conselho Tutelar

O Conselho Tutelar de Marechal Cândido Rondon realiza diariamente cerca de cinco a dez atendimentos e, muitos deles, relacionados à evasão escolar. A coordenadora do Conselho, Adriana Paula Heep Cichock, não soube precisar a quantidade exata de casos de evasão escolar, porém, segundo ela, houve um número considerável de casos registrados este ano pelo órgão. “Quando a evasão escolar está associada ao uso de drogas o papel do Conselho Tutelar é aconselhar os pais e encaminhar o adolescente para inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio e orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos”, expõe.

Adriana explica que além do encaminhamento para o Centro de Atenção Psicossocial (CAPs), durante o atendimento dos pais ou responsáveis e do adolescente é verificado se existe a necessidade da aplicação de mais alguma medida de proteção. “Que podem incluir o encaminhamento para inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, apoio e promoção da família, da criança e do adolescente”, relata.

Coordenadora do Conselho Tutelar, Adriana Cichock: “Quando necessário, aplicamos uma advertência aos pais ou responsáveis diante de sua negligência para com os direitos violados dos adolescentes” (Foto: Divulgação)

 

Atendimento específico

Os Centros de Atenção Psicossocial atendem pessoas de todas as faixas etárias que apresentam prioritariamente intenso sofrimento psíquico decorrente de transtornos mentais graves e persistentes, incluindo aqueles relacionados ao uso de substâncias psicoativas, e outras situações clínicas que impossibilitem estabelecer laços sociais e realizar projetos de vida.

O Centro de Atenção Psicossocial Laços de Amor – CAPs I, de Marechal Rondon, realizou 4.476 atendimentos entre janeiro de 2020 e abril deste ano. As intervenções são para crianças a partir de sete anos de idade, adolescentes, adultos e idosos, de ambos os gêneros. Recentemente, o CAPs I atendeu seis casos de adolescentes relacionados ao uso de álcool, 13 por uso de maconha e 15 jovens com envolvimento com cocaína.

De acordo com a coordenadora do CAPs, Lilian Raquel Werner, as drogas mais consumidas entre os jovens atendidos pelo órgão são álcool e maconha. “Nestes casos vemos que os agravos ocorrem quando eles têm aumento do uso e experimentação a múltiplas drogas, como a cocaína, podendo se instalar o quadro de dependência química”, salienta.

Conforme ela, há relatos diversos de adolescentes a respeito do uso de outros tipos de drogas, principalmente em festas de música eletrônica, como êxtase e alucinógenos como o LSD. “Ainda é raro o relato de uso de crack entre adolescentes. Observamos este uso no público adulto”, comenta.

Coordenadora do CAPs I, Lilian Raquel Werner: “A família precisa incentivar os filhos terem autonomia em suas atividades, preparando-os para identificar os caminhos para uma vida mais saudável, facilitando assim a comunicação e a interação familiar, com amor e muita cumplicidade” (Foto: Divulgação)

 

Causas

O uso de drogas entre jovens, sejam elas lícitas ou ilícitas, se deve a causas multifatoriais, entre elas o sentimento de indestrutibilidade e a falta de autoconhecimento. Porém, segundo a coordenadora do CAPs, há indicadores de vulnerabilidades que facilitam o uso e a instalação de dependências químicas de drogas. “A exposição facilitada às substâncias em seus contextos de vida; falta de monitoria das famílias em decorrência de fragilidades de vínculos e de responsabilidades dos pais para com os filhos; precariedade de referências sócio-emocionais dos jovens para lidar com frustrações, visualizado nos efeitos das drogadições alívios imediatos; exposição a contextos culturais e cotidianos de exaltação do uso de bebidas alcoólicas e outras drogas, dentre outros indicadores”, relaciona Lilian.

 

Família

A estrutura familiar é fundamental para minimizar o risco de envolvimento com drogas na adolescência. Além disso, a forma de repressão feita pelos pais ou responsáveis geralmente é encarada pelo jovem como algo punitivo e pode ter efeito inverso.

De acordo com a coordenadora do CAPs, é preciso resgatar formas assertivas de abordar os jovens em uso de drogas para estabelecer vínculos de confiança e direcioná-los às formas de tratamentos indicados, observando fatores de saúde, de desenvolvimento e os aspectos de vulnerabilidade sociais e emocionais aos quais os jovens usuários estão expostos. “É possível, mediante o vínculo, ter ações de advertência, responsabilidade e exigências de compromissos dos jovens usuários com tratamentos e com o que foi combinado entre eles e seus familiares, mas para tal, os elos de confiança devem ser estabelecidos como fontes de referência possíveis a cada caso”, ressalta.

Lilian diz que a família precisa ser orientada sobre a sua importância na formação e desenvolvimento da criança e/ou adolescente, uma vez que repercutem os seus estilos de vida e modelam os seus comportamentos a partir do que extraem do convívio familiar.

Ela salienta que a família precisa reconhecer o seu papel na educação dos filhos, sendo fundamental assumir as responsabilidades cotidianas e intensivamente orientar, monitorar e intervir com os jovens. “A autoridade parental precisa ser conquistada e trabalhada, criando uma dinâmica familiar organizada e um ambiente respeitoso, onde os pais e/ou responsáveis tenham condições de serem ouvidos pelos seus filhos e os filhos tenham os seus direitos e deveres compreendidos e garantidos, com alguns limites bem esclarecidos”, pontua.

Centro de Atenção Psicossocial Laços de Amor (CAPs I), de Marechal Rondon, realiza consultas com médico especialista em psiquiatria, psicólogos, enfermeira, assistente social, pedagoga, internamentos em hospital psiquiátrico e em comunidades terapêuticas, visitas domiciliares e escuta inicial (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

Ajuda

Ainda de acordo com a coordenadora do CAPs é importante ressaltar que as portas de entrada aos cuidados às crianças e adolescentes pela rede, do Sistema Único de Saúde (SUS), pautado nos princípios de integralidade da atenção, equidade e garantia de direitos humanos e de cidadania, pode ser buscado através do posto de saúde do bairro onde a pessoa reside. “Se for identificada a necessidade de encaminhamentos, o médico pediatra ou clínico geral, através da estratificação de risco, poderá fazê-lo e orientar a família para um tratamento adequado”, menciona Lilian.

 

Prevenção

As campanhas e orientações pedagógicas sobre os problemas decorrentes do abuso de bebidas alcoólicas e outras drogas com o público adolescente podem auxiliar a construir referências de cuidados em saúde com os jovens em formação.

De acordo com o psicólogo João Paulo Brunelo Miguel, que integra a equipe multidisciplinar do CAPs I de Marechal Rondon, é preciso falar com os jovens sobre os riscos e os problemas sociais e emocionais associados ao uso de drogas. “É importante dar visibilidade aos aspectos de prejuízos e de sofrimentos concretos da questão das drogas”, orienta.

O trabalho direcionado ao público infantil é primordial para criar paradigmas que serão absorvidos e reforçados ao longo do desenvolvimento intelectual da criança. “Atividades lúdicas retratando os riscos dos usos das drogas em relação à saúde e a manutenção dos laços familiares podem ser vias possíveis de orientação das crianças sobre esses problemas no desenvolvimento adolescente e vida adulta”, comenta.

 

Riscos

Um estudo realizado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) indica que cerca de 80% dos alunos do 9º ano do Ensino Fundamental já consumiram algum tipo de substância psicoativa. A pesquisa considerou dados de mais de 100 mil estudantes com idades entre 13 anos e 15 anos que responderam à Pesquisa Nacional de Saúde Escolar feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O álcool e a maconha são as drogas mais consumidas entre os adolescentes, e ambas proporcionam riscos progressivos que afetam a formação física e psíquica dos jovens.

Segundo o psicólogo do CAPs, o uso da maconha na adolescência pode trazer prejuízos permanentes para o desenvolvimento intelectual dos jovens. “Posto que o cérebro se desenvolve e amadurece até por volta dos 21 anos de idade, o uso pesado de maconha na fase da adolescência pode, portanto, alterar tal amadurecimento do cérebro e implicar na redução da capacidade de concentração, de retenção da memória e de execução de raciocínio lógico”, destaca.

O abuso de drogas como álcool e cocaína na adolescência tende a reforçar alterações de comportamento em jovens com disposições a transtornos de conduta, que, inclusive, na vida adulta, podem levá-los a problemas com a Justiça. “Jovens que tendem a apresentar quadros de transtornos mentais severos, como esquizofrenia e transtorno bipolar, podem desencadear sintomas psicóticos com episódios graves de delírios e alucinações, implicando em riscos para si e os outros”, comenta Miguel.

Psicólogo do CAPs I, João Paulo Brunelo Miguel: “O uso pesado de maconha na fase da adolescência pode implicar na redução da capacidade de concentração, de retenção da memória e de execução de raciocínio lógico” (Foto: Divulgação)

Ingestão precoce de bebidas alcoólicas é a principal causa de morte de jovens de 15 a 24 anos de idade em todo mundo (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

O Presente

Clique aqui e participe do nosso grupo no WhatsApp

 
Compartilhe esta notícia:

Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.
Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.