A recepção ficou por conta do Kadú, que observava atento na porta a aproximação, e logo deu o sinal de alerta. Avisado com os latidos, quem aparece na porta da antiga casa, que no passado foi o lar de uma família numerosa, é Carlos Matias Seyboth, atualmente o único morador, junto, é claro, de seu fiel companheiro.
Entrar na residência é uma verdadeira volta ao tempo. As paredes em madeira são repletas de obras de arte, fotografias e objetos antigos. Nos cômodos, relíquias e peças decorativas, algumas vindas da Alemanha, e que remontam o período da colonização da então chamada General Rondon, subdistrito de Toledo.
A casa da família Seyboth, localizada na esquina das ruas Sete de Setembro e Mato Grosso, no centro de Marechal Cândido Rondon, é um verdadeiro acervo histórico-cultural, que faz a imaginação viajar por períodos difíceis, mas de muito trabalho e persistência. Também é símbolo de uma família de origem germânica que criou raízes no município.
Para conhecer a história da casa da família Seyboth é preciso voltar para o fim de 1952, ano em que o médico Friedrich Rupprecht Seyboth e sua esposa Ingrun vieram de Ipira, Santa Catarina, a convite de Willy Barth, diretor da Colonizadora Maripá, para morar em Marechal Rondon, na época, ainda, General Rondon.
O início da construção da casa aconteceu no mesmo ano da chegada da família no então distrito foi finalizada juntamente com o término da primeira etapa da edificação do Hospital e Maternidade Filadélfia.
Carlos Matias Seyboth, um dos cinco filhos de Friedrich e Ingrun, nasceu em 1949 em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Matias era muito jovem na época para recordar do início da construção do imóvel, mas lembra que com o passar dos anos a casa foi ampliada algumas vezes.
Ele recorda que sempre quando retornava de Porto Alegre, onde estudava com os irmãos em um colégio interno, tinha alguma novidade na residência. “Sempre que voltávamos, tinha mudado alguma coisa. Minha mãe gostava de mexer na casa”, relembra.

Casa localizada na esquina das ruas Sete de Setembro e Mato Grosso é um verdadeiro acervo histórico-cultural (Foto: Sandro Mesquita/OP)
CARACTERÍSTICAS GERMÂNICAS
A arquitetura preserva o estilo germânico, a estrutura da fundação é de ipê e as paredes internas e externas de pinheiro, árvores abundantes na época.
Matias rememora apenas do primeiro nome do responsável pela planta original da casa, que, segundo ele, era Jürgen, um conhecido de Heribert Hans-Joachin Gasa, amigo próximo da família Seyboth.
Com o passar do tempo e com o nascimento de novos membros da família, a casa precisou ser ampliada para comportar cerca de 14 pessoas, entre a família e os empregados, que dividiam o mesmo espaço. “Eram todos como membros da família”, ressalta.
Matias conta que sua mãe Ingrun decidiu, então, que seria feita uma estrutura com um segundo piso, onde seria o quarto do casal Seyboth. Este novo ambiente da casa foi projetado pela própria matriarca e possui a frente arredondada, em estilo germânico.

Registro feito em 1959 da ampliação da casa da família Seyboth (Foto: Arquivo pessoal)
CENÁRIO DE ENCONTROS
A residência serviu de cenário para o início da história de alguns casais rondonenses que se conheceram durante festas promovidas pelos filhos do casal Seyboth. Matias relata que era comum ele e os irmãos organizarem estes encontros festivos com amigos, mas sempre com a autorização dos pais. “Não tinha muito o que fazer aqui, era jogar carta ou ir ao cinema”, expõe.
Segundo Matias, alguns destes momentos chegaram a reunir mais de 30 casais, e muitos destes jovens mais tarde se casaram e constituíram família. “Muitos destes casais continuam juntos até hoje”, menciona.

Carlos Matias Seyboth com o Kadú, seu animal de estimação (Foto: Sandro Mesquita/OP)
A FESTA QUE ABALOU AS ESTRUTURAS
Uma das muitas histórias pitorescas relembradas por Matias aconteceu durante um churrasco em comemoração ao aniversário do patriarca da família. Na ocasião, Friedrich convidou cerca de 500 pessoas e para comportar tanta gente a família colocou bancos no pátio da residência. No entanto, justamente nesse dia São Pedro decidiu não colaborar. “Naquele dia choveu, e como todos estavam do lado de fora tiveram que entrar na casa”, descreve.
O problema é que a base da estrutura feita na época era de tijolos e pouco profunda e o peso de tantas pessoas afetou a fundação da casa, que acabou cedendo. “No outro dia as portas e janelas não fechavam direito”, recorda.

Uma das principais salas da casa, ornamentada com peças de arte e objetos antigos (Foto: Sandro Mesquita/OP)
O TIRO QUE SAIU PELA “CULATRA”
Outro fato curioso contado por Matias ocorreu quando sua mãe Ingrun decidiu premiar a primeira turma a se formar no Colégio Rui Barbosa com uma viagem às Cataratas, em Foz do Iguaçu.
Como não existia muita estrutura em Foz para abrigar os membros da excursão, a única opção era acampar. O local escolhido para o acampamento foi bem próximo às quedas d’água, onde hoje seria praticamente impossível tal façanha.
A mata fechada e a existência de animas selvagens despertou a preocupação de Dona Ingrun com a segurança dos alunos e demais integrantes do passeio. Foi então que ela resolveu pedir ao amigo da família, o senhor Gasa, uma arma de fogo emprestada.
Horas após o pedido feito por Ingrun quem bate à porta é Gasa, com uma Parabellum, pistola produzida na Alemanha.
Preocupado com o manuseio da arma, Gasa perguntou a Ingrun se ela sabia usar a pistola, e ela de pronto falou que não deveria ser tão difícil. Gasa insistiu na pergunta, e ela confirmou que sabia manusear a arma, recorda Matias.
Ele diz que Gasa não se convenceu a respeito das habilidades da matriarca e mostrou a ela como utilizar a pistola. “Ela pediu, então, se podia dar um tiro. Gasa concordou, desde que fosse para fora da casa”, expõe.
Com a arma em punho, Ingrun foi até a janela e fez um disparo para o alto. “Nesse momento acabou a luz. Ela acertou um dos fios de energia e deixou a gente sem energia”, relembra, sorrindo.

Sala de jantar da família Seyboth, onde a mesa era dividida com os empregados da casa durante as refeições (Foto: Sandro Mesquita/OP)
O DESTINO DA CASA
Matias comenta que já foi sugerido o tombamento do imóvel para que a casa fosse transformada em um museu aberto ao público para visitação. No entanto, ele afirma que no momento esta ideia é descartada pela família. “Se hoje fosse um museu não teria ninguém para cuidar e provavelmente muitos objetos sumiriam”, pontua.
O rondonense explica que foi decidido que todos os móveis e peças existentes na casa estão disponíveis para que a família pegue o que quiser, mas para isso foram impostas algumas condições. “Os irmãos podem levar, mas tem que garantir que não irão vender, nem jogar fora”, ressalta.
A preocupação com a preservação da casa e com os objetos que representam a memória da família é evidente. E quanto ao destino da antiga propriedade da família Seyboth, Matias garante que enquanto ele morar no imóvel, tudo será bem cuidado. “Pretendo ficar aqui até morrer, depois podem fazer o que quiserem com ela”, finaliza.
O Presente