Comida boa, amigos e um bom vinho. Para Clair Wagner, essa união não tem preço, ainda mais quando o bom vinho em questão é feito por ele mesmo. Desde 2002, o rondonense colocou em prática o seu amor por vinhos e descobriu o prazer também pelo processo de fabricação, que aprendeu com os avós e aprimorou com o passar dos anos.
Apesar do estoque de cerca de 235 garrafas, Wagner é singelo ao avaliar sua produção. “Sou um eterno aprendiz dessa arte. Sempre peço para os mais velhos, porque quem sabe fazer o bom vinho são eles. A cada conversa surge um novo macete para aprender”, comenta ao O Presente.
FABRICAÇÃO ARTESANAL
Com um arsenal de equipamentos que se aprimora a cada ano, o rondonense produz vinho para consumo próprio na edícula de casa e garante que não comercializa a bebida. “É bem caseiro. Não tem nada industrial e não adiciono conservantes. Por isso, o vinho mais velho que tenho é de 2018, um vinho branco que está espetacular. Quem experimenta pede para eu vender, mas não vendo. Eu não sei quanto tempo posso guardar, por quanto tempo se mantém sem conservantes, mas não vendo, não”, frisa.
Os preparos começam com a encomenda da uva, menciona Wagner, ainda em dezembro. “Recebo a uva em casa por um caminhão câmara fria, que traz ela do Rio Grande do Sul. Eles moem e o suco vai direto para a caixa d’água que tenho aqui. Na primeira fermentação na caixa, de três a quatro dias, a uva fica como um pão: cresce para cima e você precisa trabalhar para não subir demais”, compara.
Depois dessa etapa, o rondonense transfere o líquido da caixa para o barril, onde é coado na entrada. “Fecho o barril e lacro. O vinho começa a fermentar e aquilo vira uma bomba, o gás é jogado para fora e cai na água. Não pode puxar ar para dentro de forma alguma. Essa fase dura de sete a 14 dias, dependendo do grau de açúcar. Depois disso extravaso o vinho novamente, do barril para a caixa. Lavo o barril para eliminar os cristais do vinho que ficam ali, o que deixa o vinho mais leve. O líquido volta para o barril seco e limpo e fica parado por mais 30 dias. Duas vezes extravasado, o vinho descansa por mais 30 dias e aí já pode colocar na garrafa”, detalha ele, tentando resumir o processo para conseguir um bom vinho.

Clair Wagner tem 45 anos e faz vinho desde 2002: aprendizado com os avós (Foto: O Presente)
SENSIBILIDADE
Dentre muitos adjetivos, Wagner considera “sensível” o mais adequado para o vinho, tendo em vista que durante todo o processo muitas variáveis podem interferir no produto final e sua qualidade. “É um processo minucioso. O vinho é sensível. Quando meu avô me ensinou a fazer, ele comentava isso, mesmo que o processo era mais simples, sem todo o trabalho de extravasar. Dá certo? Sim, mas o vinho fica mais forte”, observa, emendando que, na época, produziam o vinheto, a partir do bagaço da uva: “Hoje eu mando esse bagaço para alguém que faz vinagre, porque eu mesmo não acerto”.
Ele comenta que detalhes como a acidez do vinho, por exemplo, não eram tão trabalhados pelos avós como ele faz atualmente. “Eu tentava tirar a acidez do vinho na brincadeira, até que aprendi em uma indústria de Ametista do Sul como faz para conseguir. É muito fácil, mas não vou falar porque é segredo. Do mesmo jeito que tive que ir atrás, não vou entregar”, brinca.
300 LITROS POR ANO
Com os avós, a produção anual era de menos de 80 litros. Hoje, o rondonense produz mais de 300 litros. “Temos vinho para o ano todo. Uso a uva Bordo e a Niagara”, menciona.

236 garrafas e, à direta, garrafões mais antigos de vinho branco. Adega de Wagner é o seu refúgio: pouca luz e bom vinho (Foto: O Presente)
PALADAR APURADO
Sobre a viabilidade da produção artesanal, Wagner calcula que produzir em casa se torna até mais barato no final das contas, porém alega que sua produção acontece muito mais por gosto do que por economia. “Tomamos vinho todo dia e é muito bom poder escolher a garrafa que mais combina com o momento. O bom é fazer e dizer que fui eu quem fiz. É gratificante”, enaltece.
Com o tempo, o rondonense afirma que fazer vinho “te deixa ‘enjoado’ quando bebe vinhos comprados”. “Quando feito em larga escala, não é a mesma coisa. Claro, cada vinho fica de um jeito e cada um é diferente entre si”, pontua, acrescentando que assim como alguns pedem para comprar, há quem não goste do vinho fabricado por ele.
Wagner dá uma dica para os apreciadores de vinho, técnica simples e que pode evitar vinhos aguados se passem por vinhos de qualidade. “Você chacoalha o vinho ao redor da taça. Se ele não der uma marca, tipo um óleo correndo devagar, não é vinho puro, está misturado com água. Muita gente compra vinho assim e não percebe”, lamenta.
PRAZER
Mesmo com a minúcia do processo, o rondonense indica que as pessoas deveriam se aventurar nesta produção, preferindo conversar com as pessoas mais antigas, ao invés de obter dicas on-line. “A sensação é diferente quando é você quem faz o vinho. Sobretudo, se você tem vontade, precisa tentar para ver se é algo que realmente te dá prazer. Eu, por exemplo, tentei fazer cerveja artesanal há algum tempo. Parei e não faço mais. Passei a investir no vinho, porque vi que era o que eu gostava mais”, enaltece.

Por ano, rondenense produz cerca de 300 litros de vinho, que é consumido aos poucos pela família (Foto: O Presente)
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