Chevrolet Corvette 1989, Buick Riviera coupé 1967, Dodge Coronet 440 coupé 1969, Lafer 1979, Variant 2, Galaxie Ltd Bronze Lancer, Ltd Landau 1972 ou F100 1969. Nomes difíceis, de modelos clássicos que suscitam memórias e suspiros saudosistas entre colecionadores e apreciadores do automobilismo de antiguidade.
“Está cada vez mais difícil encontrar certos modelos”, destaca o empresário do ramo, José Ramos Neto, popular Binho. O rondonense importa veículos antigos para o Brasil e atende clientes de todo o país, negócio que começou a partir de um gosto pelas beldades de quatro rodas.
“Meu pai também trabalhava com automóveis e isso está no meu sangue. Os carros antigos sempre me cativaram, porque foram feitos como verdadeiras obras de arte. Cheios de detalhes, com qualidade e feitos para durar, chamam atenção e cada vez conquistam mais pessoas”, relata ao O Presente.

José Ramos Neto (Binho): “O mundo inteiro acordou para essa paixão e está ficando mais difícil encontrar carros para restaurar, além do que, estão com preços exorbitantes. Logo vão chegar ao fim” (Foto: Bruno de Souza/OP)
GARIMPO
Após viver nos Estados Unidos por nove anos, o rondonense adentrou ao ramo do automobilismo de antiguidade quando viu sua revenda de carros convencionais correr perigo com a crise imobiliária. “Fechei minha loja, vendi meu estoque e passei a investir nos carros antigos, que já eram uma paixão. Comecei a trazer para o Brasil e deu certo. Eu faço tudo, pesquisa, compra, transporte, documentação e restauração. Entrego o carro na mão do cliente”, conta.
Diferente do que se imagina, Binho afirma que a clientela jovem divide a demanda com pessoas mais velhas, que viram os carros agora cobiçados serem lançados e desfilarem nas ruas de antigamente. “Há quem peça um carro especial, de um ano específico, às vezes porque o pai tinha um ou porque aprendeu a dirigir naquele carro. São veículos que marcam a memória da pessoa e preciso garimpar para encontrar”, menciona.
MAIS RARO, MAIS DIFÍCIL
Grande parte dos carros importados pelo rondonense são norte-americanos, pois são os mais procurados. “Lá existem muitos leilões e exposições. É comum ver carros assim rodarem pelas ruas”, compara.
A popularidade dos carros antigos gera um efeito colateral no negócio. “O mundo inteiro acordou para essa paixão e está ficando mais difícil encontrar carros para restaurar, além do que, estão com preços exorbitantes. Logo vão chegar ao fim”, considera Binho, que até desativou a própria coleção para dar vazão aos pedidos que recebe.
Segundo ele, quanto mais raro o carro, mais difícil é o garimpo e maior valor ele adquire. “Na época o carro de quatro portas era mais procurado, porque tinha mais utilidade. Hoje, por outro lado, a procura é maior pelo carro de duas portas, justamente pela dificuldade de encontrar. Quanto mais raro o carro, mais caro é”, enfatiza.
FÁBRICA DE SONHOS
Binho compra carros antigos que precisam de reparo e a mágica acontece em sua mecânica em Marechal Rondon. “Desmonto a lataria e mando ela para fora fazer a pintura, depois é montada aqui. É um trabalho demorado e precisa de concentração”, ressalta, emendando que a opção por comprar carros que precisem de restauração invés dos já prontos é estratégica: “Não sabemos exatamente o que fizeram e há o risco de descobrir coisas para refazer, é mais fácil partir do zero”.
Sem distinção entre marcas, o rondonense é um apreciador dos carros antigos e tem exemplares de encher os olhos. “Gosto do Corvette, mas do Mustang também e da marca alemã Porsche, que é esportiva. Tenho um exemplar de um Jaguar, carro inglês com motor V12. Esse chama atenção”, enaltece ele, brincando que “tem que ter motor, porque motorzinho é coisa de dentista”.

Dodge Coronet 440 Coupé 1969 costuma passear pelas ruas rondonenses (Foto: Bruno de Souza/OP)
A BELEZA DOS ANTIGOS
Durabilidade, detalhes e produção artesanal. Para Binho, esses são alguns dos pilares que sustentam a supremacia dos carros antigos. “Antigamente, os veículos eram feitos quase artesanalmente. Existiam inúmeras montadoras que geravam uma concorrência muito grande, sem tanta preocupação de custo, porque era tudo muito mais em conta. Hoje a produção é em larga escala, o que compromete a autenticidade. Chevrolet, Volkswagen e Ford, por exemplo, têm carros praticamente iguais, se comparar. O painel de um carro antigo é riquíssimo em detalhes e agora mesmo os carros de luxo são simples”, compara.
A beleza, contudo, faz com que os carros antigos sejam menos confortáveis em alguns casos e menos seguros, reconhece o rondonense. “Falam que carro antigo pode bater a vontade que não acontece nada. Não acontece muita coisa mesmo, mas o condutor e o passageiro se machucam mais. O carro moderno amassa e absorve o impacto para dar mais segurança aos ocupantes. Tem esses dois lados”, pontua.

Colecionados, mas não parados: carros antigos são procurados e colocados nas ruas. Na foto, veículos para restauração com Buick Riviera Coupé 1967 à frente (Foto: Bruno de Souza/OP)

Carros antigos são importados por Binho, recebem cuidados em Marechal Rondon e são entregues em todo o país (Foto: Bruno de Souza/OP)
COLEÇÃO ATIVA E RODANDO
Ao contrário do que a denominação “colecionador” sugere, Binho diz que os automóveis antigos não são para acumular poeira. “Não é para ficar de bonito. Colecionar por colecionar é coisa do passado: agora o colecionador anda com o carro, viaja e desfila por aí”, assegura.
Ingo Hort, de Marechal Rondon, é um desses colecionadores ativos, e tem uma coleção de impressionar.
O rondonense mantém seus carros ativos e não esconde algumas preferências por trás do volante: “A F100, o LTD e a Variant 2 são muito bons para andar, os outros são razoáveis no conforto. Esse é um carro de potência, precisa ser domado”, diz ele, referindo-se ao Maverick amarelo que brilhava no salão, local desta entrevista.

De admiração de criança a coleção dos sonhos, rondonense Ingo Hort tem cerca de 15 veículos carregados de muita história: “Consegui uma F100 igualzinha à do meu pai, com direito à emblema da revendedora, manual, chaveiro e folder original, as queridinhas da época. Tenho a Variant 2 que foi o primeiro carro que tive. Todos têm boas histórias” (Foto: Bruno de Souza/OP)
OS PRIMEIROS
O gosto de Hort por carros antigos começou ainda na infância, em 1962, quando seu pai tirou uma F100 zero quilômetro. “Eu tinha seis anos, era um menino e gostei muito. A paixão foi e ainda é pela marca Ford. Carro é quase como um time de futebol, quem é Ford é Ford, quem é Chevrolet é Chevrolet, quem é Volkswagen é Volkswagen”, comenta bem-humorado.
Depois da picape, o menino passou a sonhar com o Galaxie LTD, lançamento de luxo na época. “Eu via histórias, reportagens no jornal e de 66 para 67 saiu o Galaxie. Um morador da vila comprou. Eu via o carro passar e me arrepiava, porque era uma coisa linda de se ver, lembro até hoje”, conta ele ao O Presente.
De sonhos de criança a garagem de sua casa quando adulto, o Galaxie LTD deu largada à coleção de Hort em 2005. Até então, o veículo luxuoso bronze seria o único, mas o rondonense “se empolgou”. “As coisas vão surgindo, aparece uma oferta e você vai comprando. Já vendi alguns carros e com o dinheiro investi em outros. Consegui uma F100 igualzinha à do meu pai, com direito à emblema da revendedora, manual, chaveiro e folder original, a queridinha da época. Tenho a Variant 2 que foi o primeiro carro que tive. Todos têm boas histórias”, expõe.
Hoje, as preciosidades do colecionador são 15, entre veículos prontos e em restauração. “Não tem um favorito. É como pai e filho ou avô e neto. Às vezes são momentos, mas não há um predileto”, confidencia.
CARROS DE (COM) HISTÓRIAS
Para Hort, a beleza dos carros vem das lembranças que despertam, como as dele próprio ainda menino. “São memórias de uma época, sonhos de consumo e sonhos de garoto. Vejo um carro antigo e lembro de momentos da vida”, pontua, acrescentando que a história do próprio veículo pode ser um atrativo.
Daí surgem as coleções, os encontros e as conversas saudosistas entre aqueles que compartilham dessa mesma paixão. “O objetivo não é ostentar, fazemos isso por gostar de carros e da história que eles acomodam”, enfatiza.
O rondonense, que é presença frequente nas exposições de veículos da região, adianta que há previsão de retornar com os eventos já no fim de outubro.

F100 1963, igual à do pai, abrilhanta a coleção de Ingo Hort (Foto: Bruno de Souza/OP)
VALOR DE MERCADO
Mesmo não sendo produtos de ostentação, os veículos despertam curiosidade nos observadores, especialmente no quesito preço. Hort afirma que os valores variam de acordo com o mercado e a situação. “O valor é quanto alguém paga e por quanto alguém vende. Tem gente que tem um carro todo detonado e pensa que vale o mesmo que um restaurado, mas o que custa num carro é o serviço feito nele e a conservação. São valores agregados. Não há uma referência exata: comprou, pagou, valeu e da mesma forma para quem está vendendo”, enaltece.
O movimento de oferta e procura dita as regras do mercado, salienta. “A Kombi agora está valendo muito, por exemplo, porque a descobriram no Brasil e estão mandando para fora”, compartilha.
A coleção de Hort passa por manutenções preventivas e está pronta para a estrada, quando precisar. Quando novos carros são candidatos a entrar na coleção, a dificuldade é a falta de mão de obra especializada, frisa. “Arrumar carro novo é fácil, porque tem tudo para comprar. Já os antigos precisam ser feitos artesanalmente”, menciona.

Na contramão dos demais veículos antigos, Kombi brasileira foi descoberta e ganha rodovias Brasil afora. Na foto, Kombi Luxo 1967 recebendo reparos (Foto: Bruno de Souza/OP)
TRATAMENTO ESPECIALIZADO
Atendendo aos anseios desse mercado, o catarinense Ricardo Athayde está de passagem por Marechal Rondon, dando início à sua jornada de muitos quilômetros. “Trabalho com restauração, compra e venda de peças e carros antigos há 20 anos. Estou com esse ônibus desde o início e meu projeto é fazer a América do Sul restaurando veículos antigos”, declarou ao O Presente.
Natural de Blumenau, Athayde faz clientela por onde passa, atendendo seus clientes nas cidades deles. Em Marechal Rondon, Binho e Ingo Hort usufruem dos trabalhos do especialista. “O pessoal precisa da restauração e eu trabalho com a linha de perfumaria do carro antigo: friso, calota e detalhes que o lanterneiro não faz. É um trabalho mais minucioso”, expõe, emendando que o prazer vem ao final: “Ver a peça depois, em perfeito estado, é gratificante”.

Catarinense Ricardo Athayde tem clientela rondonense para restauração de carros antigos. Na foto, antes e depois de uma moldura de contorno de pisca de Opala, da década de 70 (Foto: Bruno de Souza/OP)


Lançamento de luxo da época, Galaxie Ltd Bronze Lancer (Foto: Bruno de Souza/OP)
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