Um dos problemas expostos pela pandemia nos últimos anos foi o aumento dos casos de transtornos mentais, problema que já era percebido nos anos anteriores, mas que foi escancarado com o isolamento social. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a ansiedade afeta 18,6 milhões de brasileiros e os transtornos mentais são responsáveis por mais de um terço do número de pessoas incapacitadas nas Américas.
O Paraná em 2021, por exemplo, registrou recorde no número de mortes relacionadas a transtornos mentais e comportamentais, superando a marca de mil mortes ao longo do ano. Ao todo, foram 1.036 óbitos, conforme dados do Ministério da Saúde coletados pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM).
Ainda de acordo com o Ministério da Saúde, por meio do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) incluídos no Capítulo V da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), tais transtornos incluem situações como esquizofrenia, transtornos do humor, transtornos mentais orgânicos, mentais e comportamentais devido ao uso de substância psicoativa, transtornos neuróticos, além de transtornos relacionados com o estresse, transtornos de personalidade, de desenvolvimento psicológico, entre outros.
A região Oeste do Estado teve no ano passado 150 hospitalizações neste segmento. Marechal Cândido Rondon foi o município da microrregião da 20ª Regional de Saúde que mais registrou internações, sendo 85; seguido por Guaíra, com 30, e Santa Helena, com 23.
Já em 2020, Marechal teve 84 hospitalizações. Naquele ano, Santa Helena somou 43 registros e, na sequência, Nova Santa Rosa 25. O comparativo de 2019 aponta 71 hospitalizações em Marechal, 37 em Santa Helena e 17 em Mercedes.
Busca por tratamento
Em Marechal Rondon, o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS I) Laços de Amor é um local de referência e tratamento de pessoas que apresentam intenso sofrimento psíquico decorrente de transtornos mentais severos e/ou persistentes.
“Ou seja, pessoas com grave comprometimento psíquico, incluindo aquelas relacionadas às substâncias psicoativas (álcool e outras drogas), tentativas de suicídio, vítimas de violência doméstica intradomiciliar e outras situações clínicas que impossibilitem estabelecer laços sociais e realizar projetos de vida”, explica a coordenadora Lilian Raquel Werner.
O CAPS I conta com 1.670 usuários cadastrados no período de novembro de 2014, quando foi criado, a fevereiro de 2022. “Entre as doenças e agravantes em saúde mental, citamos as violências autoprovocadas como um dos sintomas e causas com entrada de prioridades no CAPS I, que passou de 102, em 2020, para 58, em 2021”, informa a profissional.
Segundo ela, houve aumento significativo na procura por atendimentos em saúde mental. Em 2021, o número de atendimentos por médicos psiquiatras subiu de 824 para 970, enquanto a demanda por profissionais da Psicologia saltou de 372, em 2020, para 762, no ano passado.

Novas ferramentas
A pandemia foi um momento desafiador para o setor de assistência. No entanto, também trouxe novas aprendizagens. A inclusão de ferramentas tecnológicas para o auxílio e agilidade do trabalho, conforme Lilian, facilitaram a comunicação com os usuários do CAPS. “Diante dos desafios para cumprir com as medidas de cuidados e combate à Covid-19, foi necessário aprender a utilizar os novos recursos na rotina dos profissionais para realizar os atendimentos na modalidade on-line”, comenta.
Devido à necessidade de respeitar o distanciamento social, as atividades coletivas foram suspensas. “Os pacientes participantes dos grupos terapêuticos, oficinas expressivas e oficinas de esporte e lazer sentiram falta desse acompanhamento, pois eram atividades integrativas e complementares na saúde mental”, pontua a coordenadora.
Ela menciona que as atividades foram retomadas no início deste ano e os usuários estão aderindo às propostas de forma positiva, tornando possível a articulação do cuidado psicossocial e integral e o processo de inclusão das famílias no tratamento ambulatorial.
Cenários semelhantes
Para o psiquiatra Roberto Goulart Machado, o cenário do município é semelhante ao que se verifica Brasil afora. O nível de ansiedade acima de limites toleráveis está presente em boa parte das pessoas, destaca o profissional. “A ansiedade alta, persistente, provoca fissuras na estrutura da personalidade, desencadeando sintomas e doenças. Podemos citar como os mais prevalentes em nível neurótico os transtornos depressivos, os fóbicos e obsessivos compulsivos. Já em nível psicótico aparecem as esquizofrenias, transtorno bipolar e as dependências químicas”, expõe o profissional, que atende no Centro de Atenção Psicossocial de Marechal Rondon. “A mania de mexer nos botões do celular, mesmo quando não estamos utilizando o aparelho, é um transtorno coletivo”, analisa.
Machado comenta que, muitas vezes, discute-se que a Covid-19 foi o grande causador destes transtornos, no entanto, na opinião dele, a doença foi apenas um agravante. “O processo de doença vem se instalando nas pessoas com aumento progressivo e gradativo, nos últimos anos, e há dois anos agravado pela pandemia como mais um fator traumático. Isso gera impacto considerável nas pessoas que já vinham enfrentando a velocidade descontrolada do mundo, a falta de referenciais familiares e de muitas autoridades constituídas, perda de identidade, entre outras, tornando as pessoas cada vez mais frágeis, inseguras e sem rumo. As gerações mais novas, nesta realidade, já formam núcleos de doença desde a infância”, salienta.

É importante pedir ajuda
Por isso, Machado enaltece a importância de buscar ajuda psicológica. “É normal procurar ajuda, principalmente quando percebemos que estamos sofrendo muito com algo e que isso passa a afetar a nossa rotina. É fácil percebermos quando estamos em um momento de fragilidade e é necessário que reconheçamos isso para buscarmos apoio com as pessoas certas”, declara.
Sustentabilidade
No processo de consolidação da reforma psiquiátrica em curso no SUS, Marechal Rondon busca a sustentabilidade da implantação da Rede de Atenção Psicossocial em Saúde Mental (RAPS), que consiste na garantia da qualidade do cuidado e das relações entre os usuários, seus familiares, as equipes técnicas e a capacidade territorial.
Neste sentido, a secretária municipal de Saúde, Marciane Specht, diz que a administração municipal solicitou a viabilização de reforma do espaço físico. “Com isso, objetiva-se possibilitar a realização das etapas posteriores para credenciamento da unidade ao Ministério da Saúde, com disponibilidade de materiais, equipamentos e equipe multiprofissional para atendimento das necessidades locais, bem como atender as demandas legais”, frisa.

CAPS Laços de Amor
O CAPS I – Laços de Amor foi criado em novembro de 2014 como um equipamento de articulação de pontos de atenção à saúde para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, no âmbito do SUS.
“Após o descredenciamento do hospital psiquiátrico local junto ao SUS, ocorrido no ano de 2015, e em virtude das demandas das famílias de usuários e de moradores migrantes remanescentes do hospital, houve impulso na busca para atender a demanda dentro da legislação vigente e, assim, para implantar o CAPS”, recorda Lilian.
Por ser um serviço de saúde essencial, de caráter aberto e comunitário, e o município anteriormente ter contado com um hospital psiquiátrico de referência regional, um dos objetivos do CAPS I é substituir o modelo asilar.
O CAPS I está situado na Rua Sete de Setembro, nº 1945, Bairro Espigão, onde são promovidas relações e processos de trabalho alicerçados na atenção humanizada, pelo respeito aos direitos humanos, à autonomia e à liberdade das pessoas.
Acolhimento
O acolhimento do usuário é realizado com a atualização do Cartão Nacional de Saúde (CNS), a escuta inicial/acolhimento pela equipe multiprofissional, vinculando o usuário com a unidade de saúde do seu território e, posteriormente, conforme avaliação dos profissionais da Atenção Primária de Saúde (APS), será realizado o agendamento da triagem ao CAPS. “Quando o usuário é encaminhado por outro setor, a exemplo de APS, Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou Hospital Municipal, com o recebimento da estratificação de risco em saúde mental, ocorre a verificação da prioridade do atendimento para realizar os demais agendamentos”, explana a coordenadora do CAPS I de Marechal Rondon.
Na sequência ocorre a elaboração do Projeto Terapêutico Singular (PTS), que é uma proposta de tratamento ambulatorial na qual o usuário, em conjunto com a equipe multiprofissional, é informado das ações possíveis, almejando a adesão efetiva do tratamento, garantindo a qualidade no cuidado e das relações usuários-equipes-territórios.
Paraná
Ao longo da última década (2011-2020) foram anotadas 8.529 mortes no Paraná relacionadas a transtornos mentais e comportamentais. Isso dá uma média de cinco óbitos a cada dois dias ou ainda um falecimento a cada dez horas, aproximadamente.

O Presente