A primeira vez que o casal Romilda e Wilmuth Rusch se viu foi na adolescência e, apesar dos 92 anos de vida, as lembranças desse dia estão “frescas” na memória de Dona Romilda, que na época tinha 14 anos, seis a menos que Wilmuth.
Ela conta que os primeiros olhares foram trocados durante uma festa no então distrito de Tucunduva, no município de Santa Rosa, Rio Grande do Sul, onde posteriormente foram morar. Na ocasião, a jovem acompanhava o pai, que vendia bebidas e balas no evento. “Apareceu aquele rapaz, ele usava um chapelão grande, estava parado com a mão no bolso, olhando. Eu pensei que ainda namoraria com ele”, relata Romilda.
Passados alguns anos, o pressentimento começou a se tornar realidade com o reencontro com Wilmuth em um baile. O rapaz que outrora a havia encantado, dessa vez a tirou para dançar. “Nós dançamos e conversamos bastante”, relembra Romilda.
Aos quase 98 anos de idade, Wilmuth lembra das inúmeras viagens que fez entre a casa dele e a de Romilda, mas isso não era nenhuma dificuldade para ele ver a mulher que se tornaria sua esposa. “Para eu visitar ela tinha que andar 25 quilômetros a cavalo, mas valeu a pena”, comenta Wilmuth, sorrindo.
Mas logo ele achou uma solução para diminuir a distância entre os dois: foi morar na casa de seu irmão, que era vizinho da família de Romilda. Os dois se tornaram amigos e entre um baile e outro a relação começou a amadurecer, contando sempre com o consentimento das famílias que mantinham laços de amizade. “Ele me levou para conhecer os pais dele que moravam mais longe e assim foi ficando mais sério. Tinham confiança em nós e davam muitos conselhos”, revela Romilda.

Romilda e Wilmuth Rusch: chama do amor acesa (Foto: Sandro Mesquita/OP)
OS BAILES
Os bailes eram a principal diversão para os jovens na época e aconteciam nos clubes e salões das paróquias. Dona Romilda lembra que algumas vezes não era possível ir a pé para as festas por causa da longa distância entre um lugarejo e outro, porém, isso não era empecilho para o casal. “Quando era muito longe nós íamos a cavalo, festejávamos e depois voltávamos embora para casa”, recorda Romilda.
A UNIÃO
O tempo de namoro foi curto, como era costume na época, e no dia 31 de agosto 1946 Romilda e Wilmuth se casaram e foram morar em Tucunduva, que na época era distrito de Santa Rosa, a 341 quilômetros de Santa Cruz do Sul, cidade natal do casal.
Dona Romilda diz que assim que chegaram na propriedade que haviam comprado, trazendo dentro de um baú apenas algumas roupas e um colchão feito com tecido que era enchido com palha de milho e havia sido costurado pela mãe de Wilmuth, perceberam que o antigo morador não havia saído ainda do imóvel e para passar a primeira noite no local foi preciso improvisar a cama em um paiol próximo à residência. “Colocamos nosso colchão vazio em cima de umas espigas de milho e dormimos uma noite assim, mas no outro dia nós rasgamos as palhas e enchemos o colchão”, conta Dona Romilda em meio a sorrisos.
Ela relembra com bom humor as dificuldades que o casal enfrentou nesse período, pois até mesmo utensílios de casa foram dados pela família que vendeu o imóvel a eles. “Dois pratos, duas panelas, uma frigideira, duas xícaras e talheres, e assim nós dois começamos”, menciona.
Em Santa Rosa abriram uma loja de secos e molhados, onde permaneceram por cerca de 17 anos e tiveram seis filhos, cinco mulheres e um homem, o mais velho dos irmãos já falecido.

Romilda e Wilmuth se casaram dia 31 de agosto 1946 (Foto: Arquivo pessoal)

Romilda Rusch: “Nós vivemos sempre muito unidos, nunca brigamos. Aconteceram algumas coisas que nós não gostamos, mas deixamos isso de lado e estamos vivendo muito felizes juntos” (Foto: Sandro Mesquita/OP)
NOVOS HORIZONTES
Na década de 1960 o pai de Romilda e o genro Wilmuth, motivados pelas notícias de boas oportunidades de negócio, decidiram vir para o Estado do Paraná em busca de uma propriedade para comprar.
Após retornar para o Rio Grande do Sul, o pai de Romilda contou sobre a compra de um imóvel no distrito de Novo Sarandi, em Toledo, e disse o que deveria acontecer a partir de então. “Meu pai disse: agora vocês têm que ir lá pra cima até eu vender tudo aqui e ir pra lá também”, compartilha Romilda.
A VINDA PARA O PARANÁ
Seu Wilmuth conta que em 1964 o casal e os filhos chegaram em Novo Sarandi trazendo no próprio caminhão a mudança e as instalações para dar continuidade ao negócio de secos e molhados da família. “Trabalhamos por cinco anos com o comércio em Novo Sarandi, mas daí não deu mais”, ressalta Wilmuth. Ele expõe que após desistir do comércio a família comprou uma área de terra e passou a trabalhar com agricultura, atividade que desenvolveram até a fase adulta dos filhos.
Além de serem religiosos e participarem das atividades na igreja, Romilda e Wilmuth sempre tiveram uma vida em sociedade muito ativa, participando de clubes e associações que promoviam o desenvolvimento da comunidade. Eles ainda são membros do Clube de Idosos de Novo Sarandi, onde fizeram muitos amigos. “É assim até hoje, amizade nunca faltou”, destaca Romilda.

Perguntado sobre o que mais lhe chamou a atenção ao ver pela primeira vez a futura esposa, seu Wilmuth respondeu com bom humor: “Olha, o que vou te dizer? Essa pergunta não posso responder”, seguido de uma boa gargalhada (Foto: Sandro Mesquita/OP)
A FAMÍLIA
O casal mora em Marechal Rondon há cerca de cinco anos, onde as filhas costumam se revezar para não deixá-los sozinhos. Atualmente, duas delas residem em Marechal, uma mora em Curitiba, uma em Cascavel e a outra em Mato Grosso. “A maior felicidade minha é que nossos filhos, genros, netos e bisnetos são pessoas boas, ninguém é perdido com alguma coisa errada e estão vivendo bem”, enaltece Romilda.
BODAS DE MACIEIRA
Após décadas de convívio, tanto no trabalho quanto no dia a dia com a família, Romilda e Wilmuth Rusch comemoram na segunda-feira (31) 74 anos de casamento.
O casal tem muito a comemorar, afinal, passou por dificuldades e incertezas, mas, “junto”, conseguiu superar todos os obstáculos, educar os filhos e manter viva até hoje duas das principais virtudes em qualquer relacionamento: a cumplicidade e o perdão. “Às vezes tem que pensar: eu vou perdoar, vou amar de novo”, pontua Romilda.

Alianças são as mesmas que foram trocadas no casamento há 74 anos: até hoje o casal sente orgulho em mostrá-las (Foto: Sandro Mesquita/OP)
O Presente