Temperaturas caindo e taças a postos: é a época perfeita para degustar um bom vinho. No momento atual, em casa, sem aglomerar, é claro. Mas o que agora só é possível em família, antes acontecia no plural: cerca de 12 famílias de Marechal Cândido Rondon tinham por costume fazer reuniões regadas a vinho e comida de qualidade. Com a chegada da pandemia, contudo, pelo segundo ano consecutivo, a confraria está tendo que se contentar com conversas por meio digital e projeções do retorno dos jantares acalorados nas noites frias.
Membro da confraria, o rondonense Renato Kaefer relembra que a última degustação do grupo aconteceu no ano passado. “Nos reuníamos uma vez por mês em um local. A cada noite, dois casais escolhiam o cardápio, faziam ou chamavam chefes, e o valor era dividido entre os presentes. Dependendo da refeição, cada casal trazia um vinho para harmonizar”, conta.
Kaefer destaca que o grupo existe há cerca de cinco anos, mas que os participantes são apreciadores de vinho a longa data. “Nossa confraria é bastante simples e informal, sem diretoria ou escala. Combinamos um padrão de vinhos e de refeição. Ninguém questiona o vinho do outro, mas ninguém traz um vinho de baixa qualidade”, assegura.
Com bom humor, o rondonense diz que há apenas duas regras estipuladas para os jantares da confraria: “Não pode ligar a televisão durante o jantar e não pode tomar cerveja”, revela ao O Presente.
HARMONIZAÇÃO
Diante da época propícia, com o inverno se aproximando, Kaefer dá algumas dicas para que a apreciação dos vinhos aconteça de maneira a contemplar todos os sabores e aromas da fórmula. “Por mais que você leia e aprecie, cada vinho é um aprendizado e uma descoberta em forma de garrafa. Não sou um especialista, mas sou um bom conhecedor de vinhos. Em uma harmonização bem-feita, nem o vinho nem a comida pode sobressair”, resume.
A harmonia, aponta ele, acontece em âmbitos elementares. “Quando a carne é clara, combina vinho claro. Com carnes escuras, vinhos escuros. Por exemplo, um filé de tilápia é suave e com pouco tempero, o que não combinaria com um vinho tinto, forte e encorpado: a bebida se sobressai. O contrário também acontece quando se tem um vinho branco ou rosé com churrasco, não orna”, exemplifica.
Acima de tudo, ressalta Kaefer, o paladar de cada um deve ser o guia. “Se você não gosta de vinho tinto, mesmo que a harmonização indique essa bebida, você não vai conseguir apreciar. A bebida precisa ser do seu paladar”, enfatiza.
UVA VINÍCOLA VERSUS DE MESA
Cada vinícola tem, ao menos, cinco escalas de vinho, expõe o rondonense. “Vinho Crianza, reserva, gran reserva e de família. Cada marca possui seus padrões, que são de qualidade gradativa”, detalha.
Localmente, Kaefer aponta que o consumo do vinho de mesa, a partir da uva de mesmo nome, é recorrente. “O vinho feito da uva de mesa pode ser simples ou pode ser ótimo. Higiene, cuidado e conhecimentos do processo interferem nessa qualidade. Vale pontuar que a maioria dos vinhos que bebemos por aqui é para se guardar por, no máximo, cinco anos, porque nem sempre quanto mais velho melhor. Em vinhos de maior valor a produção é pensada para que a bebida envelheça na garrafa, enquanto vinhos mais em conta começam a avinagrar”, explica.
Os vinhos “quanto mais velho melhor” são produzidos a partir de uvas vinícolas, indica. “Essa uva é mais doce, o que proporciona um teor alcoólico de 14%. O vinho de uva de mesa que chega nesse teor alcoólico possivelmente teve adição de açúcar, o que resulta nas dores de cabeça no dia seguinte”, menciona o empresário.
BRASILEIROS VERSUS IMPORTADOS
Mirando bebidas de maior qualidade, Marechal Rondon e região se diferem do restante do país por contarem com a proximidade da fronteira, pontua Kaefer. Segundo ele, o público assíduo costuma consumir vinhos chilenos ou argentinos. “O imposto do vinho brasileiro é muito alto. O vinho comprado no país vizinho a US$ 10, ou seja, de R$ 50 a R$ 60, apresenta uma boa qualidade. Porém, se você comprar localmente um vinho brasileiro do mesmo padrão você gasta quase o dobro”, compara, acrescentando que longe da fronteira os preços se equilibram: “O vinho importado comprado na fronteira por US$ 10 é encontrado em São Paulo por US$ 16, o que poderia ser convertido a um vinho brasileiro de qualidade equivalente, como não acontece aqui”.
Para avançar no universo da degustação de bons vinhos, o rondonense indica que vinhos argentinos de qualidade são encontrados a R$ 20 a garrafa e garantem aromas e sabores diferenciados.

Degustador de vinhos por hobby, empresário Renato Kaefer: “Nos reuníamos uma vez por mês em um local. A cada noite, dois casais escolhiam o cardápio, faziam ou chamavam chefes, e o valor era dividido entre os presentes. Dependendo da refeição, cada casal trazia um vinho para harmonizar” (Foto: O Presente)
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