A Covid-19 mudou a rotina de milhares de pessoas mundo afora. Os impactos da doença estão por todos os os lados, por todos os setores. Alguns deles, todavia, mesmo com as medidas sanitárias impostas pelas autoridades para a contenção do vírus, como o isolamento social, paralisação de atividades e comércio fechado, continuaram seus trabalhos normalmente, mantendo todos os cuidados de proteção. É o caso da construção civil, que ao menos em Marechal Cândido Rondon ainda não sentiu os impactos do novo coronavírus.
OBRAS CONTINUAM
Responsável por 16 obras no município, entre grandes ou pequenas reformas, o arquiteto Arlen Güttges diz que no primeiro dia de isolamento praticamente todas as obras paralisaram, porém, após uma análise detalhada da situação, além da adoção de medidas para evitar o contágio do vírus, elas continuaram. “Para nós é mais fácil porque dificilmente os funcionários trabalham em mais de duas pessoas no mesmo ambiente, eles acabam não compartilhando um espaço fechado”, pontua.
Güttges comenta que não sentiu estagnação em nenhuma das obras em que trabalha. “Nenhuma delas parou, nem diminuiu o ritmo. O único freio que tivemos foi quando as lojas de materiais de construção não puderam entregar materiais, então ficamos na dúvida com alguns fornecedores sobre a conclusão de alguma etapa da obra”, relata.
De forma indireta, o setor da construção civil afeta e é afetado por outros serviços, expõe Güttges, dando como exemplo a entrega de marmitas nas obras por empresas terceirizadas. “Tivemos que reprogramar o nosso cronograma, mas nada que afetasse o andamento da obra. Não senti diminuição do ritmo, nem paralisação em nenhuma das obras que eu estou acompanhando”, reitera.

Arquiteto Arlen Güttges: “Das obras em andamento, creio que uns 10% terão redução no seu ritmo em detrimento à falta de recursos para investir na obra” (Foto: O Presente)
PRAZOS MANTIDOS E PROJETOS PARA O 2º SEMESTRE
Após análise do cronograma de atividades com sua equipe, o arquiteto acredita que não haverá atrasos na conclusão de obras que já estão em andamento, com exceção de algumas obras particulares em que os clientes optaram por não executá-las momentaneamente. “Por outro lado, havia clientes com projetos engatilhados, que estavam quase em fase de conclusão, os quais pediram para aguardar, pois não sabiam se iriam iniciar a obra”, salienta. “Tivemos três casos em que os projetos estavam concluídos, iriam iniciar a partir de abril, mas que os clientes pediram para esperar para o segundo semestre. Das obras em andamento, creio que uns 10% terão redução no seu ritmo em detrimento à falta de recursos para investir na obra”, prevê.
CONSTRUÇÃO CIVIL E ECONOMIA
Güttges afirma que a construção civil sempre ajuda a segurar a economia. “Nós percebemos que quando há uma situação parecida com essa, uma recessão, uma crise, a primeira área que para é o turismo e em seguida a construção civil”, analisa, acrescentando que os reflexos da crise atual serão sentidos daqui a três a quatro meses.
CUIDADOS REDOBRADOS
O engenheiro civil Carlos Wild, proprietário de uma construtora em Marechal Rondon, também afirma que as atividades nas obras não pararam. “Temos tomado os cuidados de distanciamento, feito higienização rigorosa do local de obra e cancelamos os momentos de convivência dos funcionários. Eles não estão mais almoçando na obra. Seguem usando os EPIs (equipamentos de proteção individual), o que já é normal em nossa empresa, que possui programa de qualidade”, comenta.
AQUISIÇÃO DE MATERIAIS
Uma das maiores dificuldades apresentadas pelo engenheiro neste período de pandemia é a aquisição de materiais para as obras. “Muitas indústrias estão com problemas nos seus Estados. Nós trabalhamos com materiais de São Paulo, que é um dos nossos maiores fornecedores. Muitas indústrias dispensaram seus funcionários, pois muitos são do grupo de risco, além dos representantes comerciais, sendo que muitos deles têm mais de 60 anos. Com isso a produção está com um ritmo menor”, menciona.

Engenheiro civil Carlos Wild: “A construção civil vai demorar um pouco para sofrer os impactos da pandemia, pois no momento as obras seguem em andamento. Os efeitos só serão sentidos em novos projetos” (Foto: O Presente)
FINANCIAMENTOS
Na opinião de Wild, a construção civil vai demorar um pouco para sofrer os impactos da pandemia, pois no momento as obras seguem em andamento. Os efeitos só serão sentidos, observa, em novos projetos, aqueles que ainda sairão do papel. “Para iniciar um novo empreendimento imobiliário nesse cenário não se prevê nada para este ano. Nós dependeremos muito do Poder Público, mais em nível federal, que deverá disponibilizar dinheiro para as áreas habitacionais, até mesmo para grandes empreendimentos. Visualizamos que só serão vendidos imóveis financiados”, pontua. “Quem se mantiver nos seus empregos, trabalhando, terá perspectivas de investimentos através de financiamentos. E as empresas de construção civil representam um setor que ofertará empregos para as pessoas”, salienta.
MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO
Envolvidas diretamente com o setor da construção civil estão as lojas de materiais de construção, que fornecem os insumos para que as obras continuem funcionando. Empresário do ramo, Elizeu Márcio dos Reis (Tadeu) diz estar apreensivo com o cenário nacional vivido por causa da pandemia. “Tenho dúvidas sobre comprar ou não produtos, ter um estoque ou não de algum acabamento, então estamos agindo com muita cautela, até porque eu tenho uma equipe grande de funcionários e isso me deixa mais preocupado para podermos honrar com nossos compromissos”, enaltece Tadeu, que é proprietário de uma loja de materiais de construção em Marechal Rondon.
“Nossos setor parou uns dois, três dias, e em alguns momentos nós atendemos por telefone e por meios digitais, então minha equipe interna continuou trabalhando, e tivemos atendimentos de entregas. As obras que existem estão continuando, de maneira mais calma, até porque hoje temos muitos profissionais que são do grupo de risco”, menciona.
“TEMOS QUE SER OTIMISTAS”
Tadeu comenta que o fluxo de clientes em sua loja diminuiu bastante. “As pessoas estão apreensivas sobre a situação financeira atual. Temos que ser otimistas, pensando que esse momento vai passar, mas não sabemos o que vem pela frente. O meu setor não parou, somente diminuiu, mas as pessoas tem tido muita cautela”, enaltece.
DIFICULDADE PARA ADQUIRIR PRODUTOS
De acordo com o empresário, uma das suas maiores dificuldades atualmente está em adquirir produtos das empresas. Ele conta que algumas empresas estão trabalhando com número reduzido de funcionários, o que mudou algumas rotinas, como no setor de faturamento, que não está funcionando todos os dias. “Por conta dessas precauções, os produtos estão demorando mais para chegar”, relata.
Algumas empresas de acabamentos localizadas em Estados que restringiram a entrada e saída de veículos têm o produto em estoque, mas não conseguem enviá-lo para os clientes. “Ficou um tempo parado, e nesse tempo nós também não recebemos mercadorias. Estamos tendo que nos organizar com tudo isso”, expõe. “Os preços ainda estão se mantendo no que estavam antes da pandemia, então se diminuir o consumo no nosso setor, creio que os preços irão se manter ou até baixar. Na nossa região temos muitas pessoas que estão fazendo investimentos no meio rural, ramo de suínos, de aves, que são investimentos com subsídio do governo federal, essas obras terão continuidade”, expõe.

Empresário Elizeu Márcio dos Reis (Tadeu): “Tenho dúvidas sobre comprar ou não produtos, ter um estoque ou não de algum acabamento, então estamos agindo com muita cautela” (Foto: O Presente)
MERCADO INCERTO
O setor da construção civil vinha de perspectivas muito positivas para 2020 e tinha tudo para impulsionar a economia neste ano. “De novembro de 2019 até o início de março de 2020 mudou muito. Estávamos muito otimistas e com perspectivas muito boas. Tínhamos muitos incentivos do governo federal; as próprias cooperativas de crédito com os investimentos no setor do agronegócio. Mas tudo mudou com a pandemia e agora estamos sem saber realmente qual é o caminho dos investimentos. Essa é a realidade do nosso setor hoje”, finaliza.
O Presente