Copagril
Marechal

Construção da esperança

 

Mirely Weirich/OP
Mesmo com números de desemprego que traduzem o impacto da crise na construção civil, empresários têm otimismo ao falar em recuperação e investimentos para o segundo semestre

 

Os números nunca foram tão fiéis à realidade quanto agora para os trabalhardes da construção civil, traduzindo o impacto da crise econômica no setor e fazendo com que empresários do ramo considerem 2016 como um ano a ser esquecido. Com saldo negativo de mais de 358 mil postos de trabalho em todo o país, de acordo com o Plano Nacional por Amostra por Domicílio (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em Marechal Cândido Rondon o cenário é também desanimador.

As únicas duas vagas abertas neste ano na Agência do Trabalhador local para os cargos de pedreiro e servente de pedreiro foram rapidamente ocupadas, carregando consigo as fagulhas da esperança de que a recuperação do setor esteja perto de chegar. É o setor que está mais em baixa. Hoje estamos com zero vagas para a construção civil em Marechal Rondon, declara Daniel Scharnetzki, da Agência do Trabalhador.

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De acordo com ele, as vagas começaram a desaparecer do quadro na metade de 2016, e o traço só baixou com o passar dos meses. É o setor com menor reação no mercado de trabalho local. Nos demais, já houve uma pequena melhora em relação à abertura de vagas, mas podemos considerar que a construção civil é o pior setor em termos de oportunidade de emprego atualmente, lamenta.

Conforme os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a variação absoluta entre admissões e desligamentos na construção civil entre dezembro de 2015 e de 2016 chegou a -78, o que representa 52,04% de desligamentos. Mas o número piora se levado em conta apenas dezembro de 2016 – último dado disponibilizado pelo órgão -, quando a variação foi de -35 em números absolutos, chegando a 84,31% desligamentos.

 

Otimismo

Apesar dos números, o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Oeste do Paraná (Sinduscon/Oeste-PR), João Luiz Broch, enfatiza que toda comparação em relação a 2016 é positiva. Foi um ano difícil para todos. O setor sentiu os eventos da crise como há muito não sentia. Aliás, a retração ocorreu em todos os setores da economia, com exceção, talvez, ao agronegócio, diz.

Na visão do dirigente, o momento agora é de expectativa otimista e retomada de investimentos como o Minha Casa, Minha Vida, programa da Caixa Econômica Federal que oferece subsídio para financiamento da casa própria.

Mesmo com o agravamento do desemprego no setor, Broch acredita em uma retomada de investimentos em toda a região Oeste, e Marechal Cândido Rondon não deve ser diferente. O município conta com novos gestores, o que por si só já representa uma vontade a mais de realizar obras e investimentos. Também há a recuperação da economia, prevista para o segundo semestre, o que deve provocar reflexos positivos na economia local, aponta.

Quanto à queda contínua no volume de obras, o presidente do Sinduscon/Oeste-PR destaca que, se a atual conjuntura não melhorar, é difícil que os empresários da construção se motivem a investir, no entanto, ele considera-se otimista e acredita em dias melhores para o setor neste ano. O governo federal também busca a retomada dos investimentos e para isso tem se esmerado em encaminhar o ajuste fiscal e o pagamento de atrasados. A votação do teto de gastos públicos é um bom sinal. O Estado do Paraná tem feito a lição de casa. O governador Beto Richa, ainda em 2015, fez os ajustes necessários que outros governadores não fizeram e o Paraná agora colhe os frutos desta ação. Por isso acredito em um 2017 bom para o setor, frisa Broch.

 

Oportunidade

Explorando uma nova forma de construir, o engenheiro civil rondonense Marcondes Luiz da Silva acredita que 2017 será uma continuidade da situação que se desenhou no ano passado. Apesar de a gente ter lotado de trabalho no ano passado, eu não posso afirmar que foi uma situação atípica porque migrei para um segmento diferente há pouco tempo e nessa condição não posso fazer nenhum comparativo, mas é visível que a procura pela construção civil tem reduzido significativamente, diz.

Há dois anos, Marcondes trouxe para Marechal Cândido Rondon o steel frame, sistema construtivo considerado sustentável por não serem utilizados tijolos ou cimento. O principal material estrutural é o aço galvanizado.

Além de um edifício comercial já finalizado na Rua Dom João VI, no centro de Marechal Rondon, o engenheiro já concebeu projetos de ampliações em construções convencionais no comércio do município, um sobrado de 350 metros quadrados em Porto Mendes, um prédio de apartamentos próximo à Avenida Írio Welp, parte das instalações de uma fábrica de rações em Quatro Pontes, além de uma residência térrea em andamento na Rua Tiradentes e outras que devem ser iniciadas em alguns dias no município e em Novo Sarandi (Toledo). A rapidez na entrega da obra é um grande diferencial, mas talvez esse não é o principal motivo pela busca do sistema. Um dos principais argumentos que eu vejo é que, por se tratar de uma obra totalmente industrializada, os fabricantes dos materiais oferecem as garantias de acordo com a lei do consumidor e, às vezes, muito superior a isso, explica. Conforme o profissional, há fornecedores de materiais para revestimento externo que inclusive dispensam pintura que chegam a dar 20 anos de garantia.

Outro quesito está na qualidade do isolamento termoacústico, considerado superior à obra convencional. Nessa obra de Porto Mendes, por exemplo, o cliente considerava lá muito quente. A preocupação era tanta que o projeto original de alvenaria convencional previa todas as paredes duplas, com quase 40 centímetros de espessura e por ele ter essa preocupação rigorosa, nós entramos com um isolante térmico com uma densidade maior, e nesse aspecto o isolamento é absoluto, compara.

Marcondes exemplifica dizendo que ao colocar a mão em uma parede de alvenaria que pega o sol da tarde do lado de dentro é possível sentir a parede quente, enquanto que em uma parede que não pega sol, a temperatura é diferente. No steel frame internamente a temperatura em uma parede que pega sol e uma que não pega é a mesma; o isolamento é completo, garante.

Em termos de custo, o sistema praticamente se equipara a obras de alvenaria convencional. Apesar de contar com itens importados, o engenheiro lembra que os principais materiais já são nacionais e no próprio Estado já há fornecedores. Da mesma forma que você pode fazer uma obra de alvenaria barata, você pode fazer uma obra de steel frame barata. Porém, como iniciamos há pouco tempo, eu não posso dar margem para dúvida, então trabalho com o rigor que a norma estabelece para não correr riscos, menciona. Pelo resultado que estamos observando nas obras que estão sendo finalizadas, a diferença é impressionante, complementa Marcondes.

Mão de obra

Se de um lado o steel frame traz benefícios a quem investe, de outro há dificuldades para conseguir mão de obra especializada para atuar no segmento. Após uma tentativa frustrada, Marcondes afirma que não há como aproveitar a mão de obra da construção civil convencional para o steel frame. Eles têm a tolerância do trabalho deles. Na obra convencional se trabalha em centímetros, já no steel frame se trabalha com milímetros. Essas estruturas metálicas, os perfis, são comprados na fábrica sob medida, com listagem de corte das peças, e eles nos entregam exatamente na medida. Se você fala para um pedreiro convencional que essa obra vai ter 3.250 milímetros de altura ele não consegue compreender a dimensão, expõe.

No início, o engenheiro civil formou a equipe a partir de um encarregado que passou por treinamentos e acreditou que seria possível aproveitar a mão de obra para o steel frame, mas da equipe inicial, todos já foram dispensados porque não conseguiram se adaptar, já que neste sistema não há possibilidade de ajeitar ou adaptar depois. Se você fizer isso você estará dando um tiro no pé, garante. Depois dessa frustração, acabei contratando serralheiro, soldador, montador, torneiro mecânico, marceneiro, quem trabalha com mais precisão, que se adapta mais ao sistema. Já conhecem esquadro, medida em milímetro e normalmente quem trabalha com tornearia mecânica já tem algum curso técnico de formação, enquanto que na obra convencional infelizmente a maioria não tem formação nenhuma, diz.

O engenheiro civil lembra que, cada vez mais, os custos da mão de obra da construção civil estão impactando no custo final da obra, por isso o steel frame é um sistema amplamente empregado em países de primeiro mundo, como Estados Unidos, Alemanha, Japão, Chile e Turquia. Alguns deles utilizam por conta de terremotos, mas outros por conta de mão de obra, como nos Estados Unidos, onde o salário de um auxiliar de construção civil é US$ 3 mil pelo menos, e não tem como ficar assentando tijolo, ou seja, o ideal é industrializar o máximo possível, por isso o sistema se viabiliza, além da qualidade, explica.

 

Reflexo

Acreditando que 2017 pode trazer consigo uma reação no volume de obras, tanto por conta do mercado financeiro, quanto pelas políticas públicas que impactam no setor, Marcondes destaca que o desemprego está batendo o recorde histórico no Brasil e diz que o governo sabe que para resolver este problema, a forma mais simples e rápida é injetar recursos na construção civil. Esse segmento é a UTI, é a última tentativa do indivíduo. Ele vai para lá quando não consegue trabalho em lugar nenhum, por isso com a injeção de recursos as contratações são imediatas. Eu acredito que o governo estimulará o setor, a própria Caixa andou revendo algumas questões de financiamento que agora voltaram aos patamares originais, então há esperança de um ano de recuperação, conclui Marcondes.

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