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Marechal

Cresce número de moradores de rua em Marechal Rondon

calendar_month 18 de setembro de 2021
8 min de leitura

Junte uma obra inacabada em uma área urbana, adicione o crescente número de pessoas desocupadas, muitas delas sem trabalho ou casa para morar, e, por vezes, acrescente uma “pitada” de álcool e/ou outras drogas.

Essa é a receita perfeita para uma grande dor de cabeça tanto para a administração pública quanto para os vizinhos que sofrem com os transtornos e a insegurança causados por esse tipo de situação.

Esse grave problema social nunca foi novidade no Brasil, no entanto, a quantidade de pessoas em situação de vulnerabilidade social aumentou durante a pandemia.

No Paraná o número de moradores de rua cresceu 49,3% nos últimos três anos, segundo dados do Cadastro Único (CadÚnico) para programas sociais.

Atualmente, existem no Estado 9.653 pessoas vivendo nas ruas. No início de 2018, eram 6.493 pessoas nessa condição.

 

Antigo CTG

Essa situação já não é mais realidade apenas nos grandes centros; também é percebida em municípios pequenos – talvez não com tamanha expressividade como em cidades maiores, mas, ainda assim, notória.

Em Marechal Cândido Rondon, moradores que residem próximo ao antigo Centro de Tradições Gaúchas (CTG) na Avenida Maripá, no Bairro Botafogo, têm reclamado do transtorno causado pelos ocupantes da construção inacabada de uma empresa, abandonada há poucos anos.

Como não existe muro no local para impedir a entrada, fica facilitado o acesso de pessoas que utilizam o espaço para dormir e supostamente fazer uso de drogas e bebidas alcoólicas.

 

TENSÃO E INSEGURANÇA

A reportagem do Jornal O Presente conversou com alguns moradores próximos ao local. Todos preferiram não se identificar, mas foram unânimes ao afirmar que o clima de tensão e insegurança é constante na vizinhança.

Um dos moradores relatou que sua mãe morava sozinha na residência, mas, recentemente, a família decidiu alugar uma outra casa em um bairro mais seguro, por conta do medo que algo pudesse acontecer com a idosa. “A minha mãe ficou com receio em continuar morando na casa dela e eu acabei vindo morar aqui para não deixar a residência vazia”, comentou.

O morador disse também que é comum durante a noite ouvir algazarras e gritarias no local. “Eles passam o dia inteiro bebendo e no final da tarde começa a baderna. Nos fins de semana eles ficam cantando, bebendo e fazendo gritaria a noite toda. Ninguém consegue dormir direito. A situação está bem incômoda”, pontua.

O rondonense revelou ainda danos a veículos, furtos em residências de vizinhos e uma tentativa de arrombamento em sua casa, que poderia ter sido cometido por alguém que frequenta a obra abandonada. “Não me sinto seguro ao sair para trabalhar e deixar a casa sozinha”, lamenta.

Segundo ele, após a Polícia Militar fazer a retirada de algumas pessoas que ocupavam o piso superior que tem acesso à Avenida Maripá, os moradores de rua se reinstalaram no andar inferior, cuja entrada é feita pelas ruas laterais. “Antes eles ficavam na avenida, agora eles se alojaram embaixo que é mais escuro. O problema veio aqui para trás e a polícia geralmente passa só lá na frente”, salienta.

Moradores que residem próximo ao antigo CTG têm reclamado do transtorno causado pelos ocupantes da construção inacabada de uma empresa, abandonada há poucos anos (Fotos: Sandro Mesquita/OP)

 

APREENSÃO

Uma rondonense que mora nas proximidades do antigo CTG, há 12 anos, disse que o bairro sempre foi tranquilo, mas a presença constante dessas pessoas desocupadas tem tirado o sossego dos moradores. “No ano passado não tínhamos tantos problemas com eles, mas esse ano piorou e dos últimos meses para cá ninguém aguenta mais essa situação”, afirma.

De acordo com ela, a sensação de insegurança é permanente entre os vizinhos. “Quando saímos para trabalhar ficamos preocupados com possíveis arrombamentos, e quando não estamos trabalhando ficamos com medo de brincar com as crianças do lado de fora do portão”, comenta.

 

ABRIGO PROVISÓRIO

Durante o período de frio intenso registrado em junho, a Secretaria de Assistência Social realizou o atendimento dos moradores de rua que viviam tanto no antigo CTG quanto na Praça 31 de Outubro, conhecida como a praça das igrejas, e encaminhou algumas dessas pessoas a um abrigo provisório. Porém, segundo a secretária de Assistência Social, Josiane Laborde Rauber, os indivíduos que estavam no CTG recusaram o encaminhamento. “Quando a pessoa recusa o atendimento o município não pode fazer nada”, expõe.

No abrigo provisório a prefeitura oferece jantar, banheiro com chuveiro, cobertores e cama. O atendimento acontece das 18 às 08 horas do dia seguinte, mas tem data para acabar: 30 de setembro. “Em muitos casos as nossas equipes conseguem encaminhar essas pessoas para receber tratamento adequado, algumas são encaminhadas à Agência do Trabalhador ou quando é vontade da pessoa, o município consegue enviá-la para sua cidade de origem, desde que seja um município próximo”, ressalta Josiane.

Conforme a psicóloga do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Marechal Rondon e responsável pelo serviço de pessoa em situação de rua, Pâmela Winter, existe rotatividade de pessoas que estão ocupando a obra do antigo CTG. “As que estão hoje não são as mesmas de duas semanas atrás. É um público que vai migrando muito”, observa.

Ainda segundo a profissional, atualmente existem no município seis pessoas em situação de rua que estão cadastradas no Centro de Referência de Assistência Social (Cras), porém, o número pode ser maior devido ao fato de muitos deles se recusarem a fazer o cadastro para receber atendimento. De acordo com ela, apenas duas dessas pessoas dormem no antigo CTG, mas a maioria não é morador de rua. “São pessoas que moram nos arredores, mas vão até lá para usar principalmente bebida alcoólica”, expõe.

Pâmela ressalta que muitos passaram pelo abrigo provisório conseguiram se reabilitar, retornaram para suas famílias e alguns foram reinseridos no mercado de trabalho.

No entanto, segundo ela, existe muita resistência por parte dessas pessoas em aceitar ajuda, especialmente aqueles que possuem algum tipo de dependência. “Todas as pessoas em situação de rua atendidas pelo Cras têm as mesmas orientações e encaminhamentos, todavia, muitas delas que hoje estão no abrigo provisório afirmam que pretendem retornar às ruas”, revela.

Secretária de Assistência Social, Josiane Laborde Rauber: “Entendemos o medo e a preocupação dos moradores e estamos fazendo tudo que é possível para resolver o problema, mas nós não podemos obrigar essas pessoas a buscar ajuda médica, pois elas precisam aceitar” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

NÚMEROS DA PANDEMIA

Conforme a psicóloga, aumentou consideravelmente o número de moradores de rua durante a pandemia em Marechal Rondon. “Isso era menos comum antigamente e esse crescimento que vemos hoje tem nos assustado”, revela.

De acordo com ela, muitas pessoas vão parar na rua após brigas e discussões com familiares. Segundo a rondonense, o drama familiar se torna mais grave quando a pessoa é dependente de álcool ou drogas. “O vício e a quebra dos vínculos familiares acarretam nesses problemas”, salienta.

Psicóloga do Creas, Pâmela Winter: “O nosso trabalho tem surtido efeitos positivos, porém, temos visto uma crescente nos casos de pessoas em situação de rua. Isso era menos comum antigamente e esse crescimento que vemos hoje tem nos assustado” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

ABAIXO-ASSINADO

Recentemente, um grupo de moradores protocolou junto à prefeitura um abaixo-assinado no qual pedem providências a respeito.

A secretária de Assistência Social informa que a prefeitura entrou em contato com o proprietário do imóvel, o qual se comprometeu em fechar os acessos ao local, entretanto, pediu que o governo municipal efetuasse o corte de algumas árvores localizadas na Avenida Maripá que estariam impedindo a execução do fechamento. “Mas, infelizmente, nós não podemos ir lá e simplesmente cortar as árvores porque existe uma lei e precisamos respeitá-la”, pontua.

Josiane diz que será necessário parecer técnico para avaliar se realmente é necessário o corte de árvores. “Os acessos ao imóvel ainda não foram fechados porque o município está avaliando a legalidade para remover as árvores para só então o proprietário fechar o local”, expõe.

 

DESFECHO PRÓXIMO

Ao que parece, o problema causado por moradores de rua que ocupam o antigo CTG está próximo de um desfecho positivo, principalmente para os vizinhos do entorno. No entanto, mesmo após sanada essa situação, provavelmente essas pessoas e o outro grupo de moradores de rua que atualmente estão no abrigo provisório da prefeitura irão procurar outros lugares na cidade para ocupar, e o problema deve apenas mudar de endereço.

Como não existe muro no local para impedir a entrada de pessoas, fica facilitado o acesso ao espaço, usado por muitas para dormir e supostamente fazer uso de drogas e bebidas alcoólicas (Fotos: Sandro Mesquita/OP)

 

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