Marechal

Cultura gauchesca, uma tradição que se sobressai

Mal sabiam os líderes da Guerra dos Farrapos, ocorrida de 20 de setembro de 1835 a 1º de março de 1845 entre a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul contra o governo imperial do Brasil, que tal fato acarretaria em desdobramentos a ponto de criar toda uma tradição que foi difundida no território brasileiro. Na época a revolução de caráter separatista criou a República Rio-Grandense, que se opôs à imposição do Império devido às altas cobranças de impostos pelo charque, naquela época o produto mais importante do atual Estado do Rio Grande do Sul.

Os maragatos (lenços vermelhos) representavam a turma dos Farrapos, tendo como maior líder Bento Gonçalves, enquanto os chimangos (lenços brancos) atuavam pelo governo imperial. Quando foi selado o acordo para o fim da guerra, o dia 20 de setembro foi escolhido como Dia do Gaúcho. Muitos anos depois, saudosistas se organizaram e criaram os Centros de Tradições Gaúchas, ou CTGs, que se popularizaram e conquistaram adeptos em todo o Brasil, tornando conhecida e fortalecendo a cultura gaúcha.

Casa do Eletricista – TORNEIRAS ELÉTRICAS

Em Marechal Cândido Rondon a cultura é representada há 32 anos pelo CTG Tertúlia do Paraná, que possui uma sede ampla. Atividades diversificadas são desenvolvidas, como cursos de danças, invernadas artísticas formadas por competições, bem como eventos com o objetivo de integrar os apaixonados pela tradição. Todos os anos uma programação é organizada para marcar a Semana Farroupilha. Neste ano, as atividades tiveram início no último sábado (09), prosseguindo amanhã (16) e sendo concluídas na sexta-feira (22).

Entrevistados pela reportagem de O Presente, os tradicionalistas – nem todos nascidos no Rio Grande do Sul – destacam que a cultura gaúcha está enraizada e muito presente no Oeste do Paraná, assim como em muitas outras regiões do Estado, pelas características da colonização, em sua maioria composta por gaúchos e catarinenses. Eles lembram que em determinados locais outras culturas têm espaço, como a germânica, italiana e polonesa, mas reconhecem que o Paraná não tem uma identidade estabelecida. Segundo eles, há uma tradição no Litoral, entretanto pouco difundida no Estado.

 

Patrão do CTG Tertúlia do Paraná, Ricardo Luft:

“No último sábado tivemos um evento na Praça Willy Barth com uma mateada, apresentação e integração com a comunidade. Para este sábado (amanhã) haverá um baile animado pelo Grupo Gurizada alusivo à Semana Farroupilha, que acontecerá no CTG com ingressos ao valor de R$ 25 por pessoa ou mesa a R$ 150. Na quarta-feira haverá uma programação com os sócios para efetivar a data dos festejos, pois é o Dia do Gaúcho. Já na próxima sexta-feira terá show com João Chagas Leite, que também deve acontecer no CTG, numa parceria com o Sesi.

O CTG Tertúlia do Paraná tem 32 anos de atividades no município e está na sua segunda sede. Nós percebemos que está forte, pois trabalha muito a parte cultural, artística, mobilizando crianças e adultos para manter sempre ativa essa tradição. A esperança é de que está havendo um retorno em termos de procura porque o CTG prega muito essa cultura de família e harmonia. Outras culturas poderiam ser mais lembradas, como a alemã e a italiana que existem em Marechal Rondon e região, contudo o Paraná não tem uma cultura definida. Seria interessante um programa em nível de Estado para instituir uma data oficial da tradição do Estado do Paraná e que isso venha a ser estimulado para que a comunidade também a valorize. Entendo que para uma cultura local se tornar forte e conhecida falta escolher ou então incentivar uma tradição”.

 

Membro e um dos ex-patrões do CTG Tertúlia do Paraná (2005 a 2007), Arno Figur:

“A tradição gaúcha veio com os colonizadores e foi cultuada até o presente momento com muito afinco. Podemos dizer que em muitas regiões do Rio Grande do Sul está se perdendo uma parte do tradicionalismo por esquecimento, enquanto aqui no Paraná está em uma época boa, em que o tradicionalismo está crescendo. O que é importante é a cultura, a transmissão do conhecimento da história. Na última semana o Estado de Santa Catarina oficializou a Semana Farroupilha, portanto é uma tradição estendida a praticamente todo o território nacional porque onde quer que esteja um gaúcho existe um CTG. A importância dessa tradição está na forma de tratamento, na espontaneidade, pois tudo isso está ligado. Hoje a população está falando mais do CTG, pois abrimos as portas para compartilhar outras culturas. O Paraná na realidade não tem uma tradição, uma cultura própria. Ele está muito miscigenado porque tem intervenção do gaúcho, do catarinense, do paulista, de todas essas culturas que estão entremeadas, então não há uma definição própria sobre uma cultura paranaense. No CTG o que nós fazemos é utilizar a culinária paranaense para levar adiante”.

 

Vice-coordenador da 10ª Região do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) do Paraná, Christian Guenther:

“O CTG não desenvolve apenas atividades festivas, há ações culturais tanto com as crianças quanto com os sócios. Além do mais, os CTGs para existir devem seguir regulamentos, devem ser vinculados ao MTG do Estado, que, por sua vez, é filiado à Confederação Brasileira de Tradição Gaúcha. As danças tradicionais das crianças são baseadas em livros, cursos e manuais que seguimos, assim como as danças de salão. Há manuais que trazem os passes dos bailes e o porquê do surgimento daquele estilo de dança, então não é simplesmente uma cultura folclórica. Tudo é repassado aos membros, às invernadas artísticas e culturais, há concursos de peões e prendas onde o conhecimento da história e geografia do Rio Grande do Sul, do Estado do Paraná e do Brasil são cobrados. Não é só uma atividade meramente social, existe uma atividade por assim se dizer até escolar dentro dos CTGs, pois nós primamos para essa busca e estudo em cima da tradição. O CTG de Marechal Cândido Rondon pertence à 10ª Região do MTG do Paraná, que engloba 22 municípios de Guaíra até Quedas do Iguaçu, dentro do MTG do Paraná são 60 mil filiados diretos, enquanto indiretamente, devido às famílias, nós passamos de 200 mil pessoas ligadas ao MTG de maneira oficial, fora gaúchos que vieram ao Estado e participam das atividades, contudo não estão filiados.

O gaúcho é muito saudosista, tanto que existe a seguinte brincadeira: ‘O que de melhor existe no mundo vem do Rio Grande do Sul. A melhor erva, o melhor pôr do sol…’. A característica colonizadora o fez vir a Santa Catarina, ao Paraná, sendo uma forma de cultivar as raízes do tradicionalismo. O gaúcho é uma junção de várias culturas, como alemã, italiana, polonesa, turca, que influenciam o dia a dia do tradicionalista. No Paraná temos uma cultura mais localizada no Litoral, com formação mais antiga do Paraná. Dentro do MTG nós tentamos trabalhar essa questão cultural do Paraná ligada às tradições gaúchas porque somos paranaenses. Tentamos trabalhar no sentido de incluir a culinária através do barreado para dentro dos CTGs. Nos rodeios existem danças que são do CTG nas competições oficiais, mas também há danças paranaenses que acabam sendo próximas do gauchesco por conta dessa tradição multicultural que existe no Rio Grande”.

Patrão do Grupo Tradição Cultural, Élio Ademir Knop:

“Nós temos um grupo criado no dia 15 de novembro de 2014 e que reúne 60 associados. Para comemorar o Dia do Gaúcho, neste sábado (amanhã, dia 16) haverá cavalgada nas avenidas a partir das 16 horas, depois mateada com encontro de gaiteiros, arroz carreteiro e quirera campeira. Também terá um jantar no CTG do Parque de Exposições com expectativa de receber 150 pessoas. No domingo (17) terá mateada de manhã, almoço à base de costelão ao fogo de chão e à tarde matinê. O jantar de sábado custa R$ 10 e o almoço de domingo R$ 25. No meu entender o Paraná não tem uma tradição definida. A gauchesca é uma tradição que se tornou brasileira. Marechal Rondon tem a tradição germânica, mesmo assim a gauchesca se sobressai. Eu vejo que a falta de uma cultura legitimamente paranaense faça com que não haja valorização de outras tradições por aqui. A tradição gaúcha é organizada, então percebo que no Paraná deveria ser criada uma identidade local para tomar força”.

 

Gaúcho Selmar Frank:

“É complicado falar das questões de tradição devido aos resgates. A tradição gaúcha tem mais força porque busca desde cedo incentivar as crianças através de danças, a frequentar o CTG. É gostoso cultivar essa tradição. Acredito que deveria haver mais incentivo à cultura gaúcha e outras, como a germânica, que existem no Paraná, mas algo que fosse típico. É importante porque existe um respeito maior, diferente do que se vê hoje em termos de músicas ou clubes frequentados por jovens que têm um comportamento diferente do que em um CTG, onde as pessoas se respeitam e o ambiente tem mais apelo familiar. O gaúcho respeita mais a família. Lá no Rio Grande eu participava do CTG e colaborava com a invernada artística quando possível. Lá existem os piquetes, mini CTGs com grupos de amigos com acampamentos farroupilhas, tanto que temos o Piquete dos Guris, na cidade de Ivoti. Agora teremos a Noite da Bombacha num clube que eu frequento e que é fechado, onde todos os sócios procuram ir pilchados, se coloca música e assamos cerca de 100 quilos de costelão ao fogo de chão para 100 pessoas”.

 

Jorge Luis Hennemann, apresentador dos programas Ô de Casa e Mateando com Saudade, das rádios Tropical e Marechal FM:

“Participo da música e da vida artística, mas não do CTG. Entendo que houve uma mudança na sociedade nos últimos anos com a tecnologia, que é muito boa e precisa estar presente, mas atrapalha muito as crianças que devem aprender a dançar em um CTG. Ali se aprende a educação, se aprende a dançar e se respeitar. Hoje as pessoas não conversam mais umas com as outras, estão sentadas num local e se conversam pelo celular, e aí a cultura vai se perdendo. Se eu não sou gaúcho eu devo respeitar a outra etnia, o gaúcho sabe disso e respeita todas as outras tradições, tanto que é um dos homens mais polidos e educados do país. A falta de estímulo talvez seja uma das causas porque não são valorizadas outras tradições no Paraná ao invés da gaúcha. Falta tradição, uma cultura que marque de fato o Estado. Os ‘troncos’ estão indo e os filhos estão mais pobres de cultura. Percebe-se que o Brasil é um país que está ficando pobre em todas as tradições. Quem sabe a criação ou estímulo de uma identidade local seja uma possibilidade de valorizar uma cultura própria. O Brasil para ser respeitado precisa mudar muitas coisas”.

A história da indumentária

Gaúcho de Três Passos, Jorge Hennemann comenta que a bombacha foi trazida ao Brasil pelos ingleses. “Os gaúchos do lado argentino e uruguaio começaram a utilizar, até chegar pela fronteira entre Brasil e Uruguai. O povo do Rio Grande do Sul a utilizou para defender a tradição através do cavalo porque a indumentária se assemelha com o cavalo, e a lida gaudéria do CTG seria uma invernada com cavalos, composta por invernada artística e de competições com os cavalos. O gaúcho lutou para conseguir impor a indumentária na tradição, representando a cultura de um povo que, através da Guerra dos Farrapos, defendeu a liberdade de impostos quanto às altas cobranças pelo charque”, explica.

Além de maragatos (lenços vermelhos) e chimangos (lenços brancos) lutarem pelo mesmo ideal, havia uma definição sobre o destino a ser traçado, levando-se em conta os brancos e os colorados, como se diz na tradição. “Havia uma distinção na própria guerra, o que ajudava a se organizar para as batalhas. Maragato era a turma do Bento Gonçalves e o chimango era a turma do Império. Havia lenços diferentes, mas a luta era pelo mesmo ideal, o da liberdade”, expõe Hennemann.

O nome Guerra dos Farrapos tornou-se conhecido porque os soldados da República Rio-Grandense estariam vestidos como farrapos, uma vez que a tropa era em contingente inferior à dos soldados que representavam o Império, além de possuir menos recursos. “Há conversas de que o maragato era mais exigente com a sua indumentária. Tinha lenço, guaiaca, bombacha, bota e camisa de manga longa. Socialmente o gaúcho pode ter camisa remangada, mas gostaria que fosse manga longa. No geral era uma questão de honra e de lutar por um ideal, essa foi a grande questão da história. A cultura gaúcha não é agressiva, ela é muito importante porque a China é a mulher amada, ou seja, o gaúcho defende a mulher como ninguém o faz. A cultura é muito forte e ampla”, finaliza.

TOPO