Se inicialmente houve baixa na emissão de alvarás de construção, regularização, reforma e habite-se nos quatro primeiros meses do ano passado, quando analisado igual período de 2019, motivado pelo receio de cidadãos e de empresários devido à pandemia da Covid-19, um aquecimento vem sendo registrado desde o segundo semestre de 2020 em Marechal Cândido Rondon.
Números fornecidos pelo setor de alvará de obras da Secretaria de Planejamento da prefeitura indicam aumento de 70% na emissão de alvarás de construção de janeiro a abril deste ano na análise com igual período de 2020, passando de 84 para 144. Também houve expansão no que diz respeito às licenças de regularização e reforma, porém em menor número. No tocante aos alvarás de habite-se, relativos à conclusão das obras, o aumento foi de 42%, partindo de 93 pedidos no primeiro quadriênio do ano passado para 133 de janeiro a abril deste ano.
Em entrevista ao O Presente, arquitetos e engenheiro civil com atuação em Marechal Rondon analisam o cenário da construção civil, que mesmo neste um ano de pandemia segue a todo vapor. O primeiro grupo profissional, os arquitetos possuem o termômetro por serem procurados antes pelos clientes que têm intenção em investir em obras. Já os engenheiros são contatados no caso de construções que de fato serão edificadas.
SITUAÇÕES DISTINTAS
O arquiteto Vilson Rheinheimer diz que há duas situações distintas em relação à demanda pela construção de casas no período de pandemia no município. “No primeiro momento da pandemia ocorreu um recuo no ritmo da construção civil devido a todas as incertezas sobre a doença e, consequentemente, como a economia iria se comportar. Passado este período inicial e somando-se à não paralisação da construção civil, o segmento começou a tomar novamente um ritmo normal, mais intenso se comparado à época inicial”, analisa.
O rondonense menciona que são vários os segmentos da construção civil que estão aquecidos. “Na habitação familiar destacam-se as edificações de pequeno e médio portes. No setor industrial, principalmente as atividades ligadas ao agronegócio, estão demandando novas ampliações de suas atividades para atender as solicitações do mercado consumidor”, expõe, emendando: “Pode-se notar que o perfil de público que mantém o segmento de mercado aquecido visa nele a perspectiva de investimentos, seja na locação como a de transação imobiliária”.

Arquiteto Vilson Rheinheimer: “O segmento da construção civil, muito provavelmente, seguirá aquecido nos próximos tempos, principalmente pela vocação da nossa região no setor do agronegócio” (Foto: Joni Lang/OP)
ALTA DE PREÇOS
Rheinheimer comenta que a alta nos preços de insumos da construção civil, agregada ao desabastecimento de certos segmentos de materiais, foi absorvida por quem já estava construindo. “É inegável que projetos foram adiados, no entanto não se pode generalizar esta situação no mercado imobiliário. Ainda houve segmentos que sofreram ajustes em virtude da dificuldade de abastecimento de produtos e preços não serem previstos a um período anterior e pelos estágios dos investimentos que se encontravam, os prazos e orçamentos tiveram que se ajustar a esta nova realidade de mercado”, pontua.
O arquiteto destaca que a maior influência que a falta de insumos somada à alta nos preços causou foi percebida no setor de cronograma físico e financeiro. “Isso devido ao fato de que muitas vezes esses cronogramas estavam pré-definidos em função das atividades a serem desempenhadas nessas obras, como, por exemplo, a entrega de equipamentos e mercadorias”, relata.
Ele lembra que ocorreram dificuldades, escassez de abastecimento e alterações significativas de preços nos produtos ligados à siderurgia e na área de cimento. “Desta forma, os cronogramas físicos e financeiros tiveram que se ajustar a condições de entrega dos materiais juntamente aos novos preços. Exemplificando, houve prazo maior no fornecimento de concreto, então as obras se ajustaram a esta nova realidade de abastecimento. Atualmente, a situação já está se normalizando”, menciona.
PERSPECTIVAS
Na opinião de Rheinheimer, o segmento da construção civil deve permanecer aquecido nos próximos tempos, principalmente pela vocação da região Oeste estar ligada ao setor do agronegócio. Ele acredita que os preços vão se ajustar às novas demandas. “Porém, é muito improvável que venham a sofrer reduções consideráveis, aproximando-se dos preços praticados antes da pandemia”, considera.
O arquiteto prevê que estes ajustes se darão a médio prazo, quando a oferta e demanda se ajustarem. “As perspectivas para os próximos tempos são boas, principalmente em função da nossa economia estar fortemente ligada ao sucesso do agronegócio, este que se manteve em atividade em todo este período da pandemia. Contudo, os preços de insumos devem continuar em alta”, reitera.
CASAS CLASSE MÉDIA
O arquiteto e urbanista Ricardo Leites de Oliveira diz que a construção civil em Marechal Rondon manteve o mesmo ritmo do registrado no início da pandemia. “As pessoas continuaram suas construções, houve grande aumento de obras nas indústrias, muitas delas investindo mais no crescimento das suas empresas. Em toda região há indústrias aumentando e outras construindo novos empreendimentos”, cita.
Ele comenta que aumentou a construção de casas no padrão classe média (na faixa de R$ 300 mil a R$ 400 mil). “Há muitas pessoas investindo na construção de casas para vender e agora, com esse período de agricultura em alta, muitos produtores ao invés de deixar o dinheiro no banco aplicam na compra de imóveis. Com isso, muitas residências e edificações foram vendidas para essas pessoas que ganharam no agronegócio e outras pessoas também retiraram o dinheiro para construir imóveis, bem como para adquirir lotes”, aponta.
Segundo o arquiteto e urbanista, a alta dos preços interferiu no segmento, tanto que algumas pessoas deixaram de construir nesse período. “Um item que subiu muito foi o aço, que teve 100% de aumento nesses 14 meses, algo muito expressivo, entretanto outros produtos não tiveram alta tão grande. Vai ser difícil o preço dos materiais reduzir nesse período, pois a demanda no mercado externo está aquecida e boa parte do aço brasileiro está sendo exportada, além das indústrias receberem em dólar. A ida desse produto para fora dificulta pensar em uma redução de preços aqui, pois como as indústrias exportam para elas está muito bom. Antes, quando havia preço elevado, era difícil reduzir, porém isso ocorreu em alguns períodos. Sabemos que muitas vezes as indústrias mantêm os preços durante alguns anos, mas não reduzem”, expõe, ampliando que essa é a tendência que pode ser observada.
Oliveira destaca que atualmente são construídos todos os tipos de casas em Marechal Rondon, desde populares até alto padrão. “As residências de maior número são as de classe média. Pelo meu escritório tivemos vários clientes nos procurando para fazer projeto, mas sabemos que alguns vão segurar por causa da pandemia, justamente devido ao aumento de preços”, relata.

Arquiteto e urbanista Ricardo Leites de Oliveira: “Aumentou bastante a construção de casas no padrão classe média, com muitas pessoas investindo para vender. Com esse período de agricultura em alta, muitos produtores aplicam dinheiro na compra de imóveis ou lotes” (Foto: Joni Lang/OP)
NOVO FOCO
Assim como Oliveira, o engenheiro civil Marcondes Luiz da Silva afirma que o ritmo de obras se manteve em Marechal Rondon neste período de pandemia. Contudo, ele faz uma ressalva: houve mudança no foco. “A alteração foi mais para ampliações e reformas nas obras já existentes do que o surgimento de novas construções em si. As pessoas procuram construir uma piscina, fazer ou aumentar a área de lazer, verificar a reforma de telhado, promover uma ampliação, algo sobre mudança direcionada”, comenta.
Para ele, a manutenção do ritmo de construção se deve à escassez de mão de obra. “Um fato inusitado é de encarregados de construção irem nas obras e fazerem melhores propostas de salário a fim de levar os funcionários a trabalhar nas suas construções. Esse é um cenário que nos deparamos com frequência. Tentamos renegociar a situação com os trabalhadores para não ficar sem ninguém nas obras”, lamenta.
O perfil de público, explica, está mais voltado da classe média à classe média/alta, pois no último caso as pessoas têm uma residência melhor estruturada. “Já a classe média tem casa com previsão de melhorias e optou por fazer nessa época de pandemia”, observa.
Em relação à alta de preços dos insumos, Silva diz que o reflexo foi clientes optando por adiar o início de novas obras. “Percebendo que as altas seriam consideráveis, alguns clientes preferiram adiar a construção ao invés de desistir com o objetivo de verificar se essas altas vão se prolongar, se vão permanecer ou para decidir mais tarde o início da obra”, pontua.

Engenheiro civil Marcondes Luiz da Silva: “Um fato inusitado é de encarregados de construção irem nas obras e fazerem melhores propostas de salário a fim de levar os funcionários a trabalhar nas suas construções. Esse é um cenário que nos deparamos com frequência” (Foto: Joni Lang/OP)
PROGRAMAÇÃO
Conforme ele, não foi notada falta de produtos na parte de projetos, mas em relação à estrutura de concreto é preciso trabalhar com vergalhão, cimento, areia e pedra, então não existe alternativa. “O impacto nas obras é que a gente precisa se programar bastante com a compra de materiais para não ficar com pessoal parado. Em alguns casos a antecedência chega a ser três vezes mais do que antes. Além disso, observamos casos de alta de custos de 200% na parte metálica, algo quase abusivo ao mercado interno”, enfatiza.
A tendência, de acordo com Silva, é de que o mercado se mantenha aquecido porque a economia de maneira geral segue em alta. “Principalmente na nossa região, com produtos agrícolas a preços bem elevados, o que faz mais dinheiro circular na economia, permitindo às pessoas investirem, sendo uma das áreas mais procuradas a da construção civil”, analisa.
Para o restante de 2021, a previsão do engenheiro é de que a escassez de mão de obra pode impactar nas decisões de iniciar ou não empreendimentos.

(Foto: Arte/OP)
O Presente