Era por volta das 13h30 de terça-feira (28) quando a rondonense Janice Haag chegava à casa de sua mãe, Otília Natália Kist, de 84 anos, para entregar compras do supermercado, momento em que foi surpreendida por um elemento de pele morena e outro de pele clara, ambos com cerca de 1,60 metro. Armados com pistolas, eles anunciaram o assalto em plena luz do dia, no centro da cidade. Os assaltantes usavam boné virado, não tinham capuz e falavam português de forma clara.
Na residência de dona Otília também estava Seli Hartmann, prima de Janice que mora no Mato Grosso e está na região visitando familiares.
À reportagem de O Presente, Janice relata que os bandidos apontaram as armas para ela, sua mãe e sua prima, empurrando-as para dentro da residência com o objetivo de concretizar a ação criminosa que resultou no roubo de uma caminhonete Toyota/Hilux de cor preta, ano 2014. “Nós fomos levadas até um quarto e eles nos obrigaram a deitar na cama, então pedi se podíamos ficar sentadas devido à idade avançada da minha mãe, o que foi aceito, mas logo me obrigaram a entregar as chaves da caminhonete”, conta Janice.
Crimes de furto e roubo de veículos têm se tornado frequentes em Marechal Rondon e aterrorizado muitos moradores da comunidade, principalmente os que são proprietários de caminhonetes, as preferidas dos ladrões. Muitas vezes, além de roubar, os bandidos usavam violência com as vítimas, fazendo ameaças e em alguns casos cometendo agressões físicas. No caso do assalto à mão armada de terça-feira, Janice comenta que enquanto um dos sujeitos fugia com a caminhonete, o comparsa mantinha ela, sua mãe e prima como reféns na mira da pistola, o que durou cerca de uma hora e meia. “Ficamos no quarto por meia hora e a maior parte do tempo na sala de estar, pois o elemento avisou que precisava ter visão para a rua”, descreve.
As vítimas relatam que não conseguiram perceber movimentação externa no sentido de alguém oferecer suporte à ação criminosa, uma vez que não era possível olhar para o assaltante e nem para fora, já que ele as proibia de se mexer. “Não olhem para a minha cara e vocês não vão na delegacia me reconhecer porque senão vai ter troco”, relata Janice, reproduzindo os termos utilizados pelo indivíduo.
Em todo o tempo em que ficaram na mira do assaltante, Otília, Janice e Seli receberam ameaças, sendo impedidas de conversar. Devido à idade avançada de Otília, em certo momento ela passou mal e precisou tomar remédios para controlar a sua pressão. “Eu pedi se era possível pegar remédio para pressão, então ele (elemento) foi à geladeira e pegou água para minha mãe. A gente não podia nem chorar, tanto que minha prima chegou a soluçar. E o tempo inteiro o elemento armado dizia assim: ‘Não me façam barulho. Quietinhas, quietinhas, se vocês se comportarem não vai acontecer nada’”, revela Janice, acrescentando que, apesar da agressão moral e das ameaças, não houve agressão física.
Segundo a rondonense, os dois assaltantes se comunicavam por WhatsApp, o que permitia trocar informações sobre a localização de quem dirigia a caminhonete e como deveria agir o elemento que mantinha as mulheres como reféns. “Ouvíamos eles falar assim: ‘Estou em Guaíra, ou já estou na ponte. Depois que eu atravessar pode largar elas, mas passa a fita, amordaça’. Porém o elemento que estava conosco disse que não havia necessidade porque estávamos comportadas. Eles levaram a minha carteira com dinheiro e cartões bancários, o que foi cancelado na quarta-feira”, expõe Janice, emendando: “O elemento ficou cerca de uma hora e meia na casa, sendo que nós deveríamos permanecer quietas ao menos meia hora depois da sua saída porque ele prometeu voltar. O bandido saiu caminhando até sumir, possivelmente de carona em uma motocicleta”, presume.
SEGURANÇA
Janice diz que perguntou ao assaltante por que são furtadas e roubadas tantas caminhonetes Hilux e ele respondeu que o motivo se deve ao fato de o veículo possuir mercado de fácil negociação, sendo bem valorizado no Brasil e no Paraguai. “Ele ainda prosseguiu com o seguinte: ‘se você não quiser mais ser assaltada compre uma Amarok’. Ou seja, agora eles estão escolhendo o carro que a gente vai comprar”, reclama a rondonense
Indignada com a crescente onda de criminalidade, a vítima salienta que a lei brasileira necessita ser alterada com urgência e de maneira radical, uma vez que considera que, do jeito que está, favorece os bandidos, que se sentem à vontade para cometer crimes, enquanto a população se sente desprotegida. “Eles que mandam o que fazer nas casas e até judiam as pessoas”, lamenta Otília.
Janice é da opinião que o conjunto deve ser analisado e alterado como um todo. “Desde Judiciário e polícia. Devemos pensar muito para mudar essa lei que favorece a bandidagem e acabar com essa insegurança, porque fica um trauma grande nas vítimas e a comunidade fica com medo. Quando eu vejo uma pessoa parecida com ele (assaltante) começo a tremer de medo. Também não consigo dormir. O trauma vai demorar muito tempo para passar”, reforça.
Era 15 horas quando as três vítimas puderam sair da residência e pedir ajuda. A partir de então policiais militares e a Polícia Civil trabalharam no sentido de realizar diligências e investigar os fatos, mas nenhum dos assaltantes foi encontrado.
PROPOSTA
Após o roubo da Hilux, um elemento entrou em contato via telefone com a família de Janice pedindo R$ 15 mil para entregar a caminhonete de volta, a qual seria deixada no redondo na cidade de Guaíra. “Ligaram no celular de casa, então possivelmente uma pessoa conhecida forneceu o número do meu esposo para eles. Decidimos não arriscar porque não vale a pena ir atrás, pois não se sabe o que nos espera lá. É melhor perder a caminhonete, porque a vida vale muito mais”, enfatiza.
Sobre a aquisição do um novo veículo, Janice enaltece, categoricamente, que a família não vai adquirir mais uma Hilux. “Estamos pensando se vamos comprar carro ou caminhonete, porém Toyota não queremos mais, pois é muito visada para roubo”, declara.
Esta é a segunda experiência com furto/roubo de caminhonete na família de Janice. Catorze anos atrás uma caminhonete pertencente a um dos filhos foi furtada da garagem do prédio onde o mesmo residia, também na região central da cidade. Para praticar o furto, os ladrões desligaram o portão eletrônico durante a noite e levaram a caminhonete, sendo que nenhum morador ou vizinho percebeu a ação criminosa.
DESABAFO
Na quarta-feira (29), um dia após o roubo à mão armada, o empresário rondonense Ari Haag (Ratão), esposo de Janice, fez um desabafo sobre a falta de segurança pública, que, na visão dele, está um caos. “Considero inadmissível esse tipo de ação criminosa na região central da cidade. Para mim indiscutivelmente o grande culpado é o Judiciário, até porque a polícia conta com pouco amparo. Ela dá um tiro no elemento, mas juiz e promotor vão chamar o policial e processar ou fazer outra coisa. Agora, quando um policial é morto, aí não acontece nada com os bandidos. Está assim no país todo”, critica. “Pelo que soube, seis veículos foram furtados ou roubados no município nas duas últimas semanas. Cadê as autoridades competentes?”, prossegue.
Para ele, as autoridades têm o dever de defender a população, que paga os altos salários dos entes públicos. “Fomos muito bem atendidos pela PM e pelo delegado, que fizeram grande esforço. O delegado levantou dados com investigadores da Polícia Civil e a PM também fez um ótimo trabalho, mas fico muito magoado com as autoridades superiores que estão vendo um roubo atrás do outro e não tomam nenhuma providência”, dispara.
O empresário lamenta que o cidadão de bem é revistado em viagens a Guaíra, no entanto os assaltantes que roubam veículos conseguem fugir livremente pelas estradas da região. “Por que não abordam quando veem um piá dirigindo uma caminhonete? Alguma coisa está por trás, não quero acusar, porém um cidadão de bem é revistado e o bandido passa”, finaliza.
O Presente