A chegada de 2021 era tida como promissora. Muitos acreditavam que o novo ano poderia trazer a tão aguardada vacina e que os casos de Covid-19 reduziriam gradativamente. Diante de um cenário aparentemente controlado, instituições de ensino programaram o começo do ano letivo em modelo híbrido e, em outros casos, de forma presencial. Era a esperança de que as crianças e os adolescentes poderiam retomar a rotina após um período difícil. Poderiam retornar às salas de aula, reencontrar os colegas, rever os amigos e ter uma melhor aprendizagem com os professores presentes fisicamente.
Mas o ano iniciou com uma realidade longe da sonhada. O que se viu em 2020 piorou em 2021, com mais casos e até mais óbitos por coronavírus. Aulas remotas novamente e crianças e adolescentes em casa. Afinal, quais efeitos psicológicos a pandemia e o “novo normal” podem ter neste público? Como lidar com os filhos em casa, longe dos amigos e da interação social? O que fazer para amenizar estes efeitos? As dúvidas são muitas para quem é pai e mãe em meio a uma pandemia.
“A emoção que a gente mais tem visto, tanto em crianças como em adultos, é o medo se manifestando. O medo é uma emoção básica e todo ser humano sente. E, neste momento, as pessoas têm ficado extremamente apreensivas. Há o medo em relação ao perigo, medo em relação ao adoecimento, medo por conta do novo, medo por conta de uma quebra de rotina e quebra da mudança na maneira como vinha se organizando a família. Medo, ansiedade, irritabilidade e frustração são sentimentos muito comuns desse momento”, avalia a psicóloga rondonense Márcia Saar, que é especialista em saúde mental e integrante do Grupo de Estudos da Primeira Infância da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).
Aqui a profissional faz uma ressalva. De acordo com ela, crianças de até quatro anos de idade têm menos necessidade de interação social com grupos grandes em comparação com crianças a partir desta idade. “Até os quatro anos é muito importante que a criança interaja com outras pessoas, mas normalmente essas pessoas podem ser adultos da convivência dela, os próprios pais, irmão, se tiver. Crianças muito pequenas não têm necessidade de interação social tão grande. A questão é quando as crianças são maiores ou, especialmente, os adolescentes. Temos visto que a ausência desse contato social tem sido bastante sofrido para crianças maiores e adolescentes, porque somos seres sociais. Necessitamos do convívio com outras pessoas. Nós não fomos feitos para vivermos sozinhos. O ser humano é social e a sociabilidade é uma norma para nós. Estar distante de pessoas, neste momento, é sim muito difícil. E um dos momentos de vida em que a sociabilidade vai aparecer com toda sua força é na adolescência. Então um período prolongado sem interação social para os adolescentes tende a ser ainda mais prejudicial do que para crianças pequenas”, esclarece a psicóloga.

Psicóloga rondonense Márcia Saar: “Um período prolongado sem interação social para os adolescentes tende a ser ainda mais prejudicial do que para crianças pequenas” (Foto: Divulgação)
Impactos emocionais
Não só por conta da ausência da interação social, mas pelo conjunto que envolve a pandemia, pode trazer prejuízos emocionais. Isto porque o momento ocasionou incertezas e inseguranças. “Especialmente nas crianças e nos adolescentes, estamos vendo um aumento da ansiedade, desatenção, excesso de preocupação, problema de sono, problema na parte alimentar. Percebemos que essa pandemia tem impactado de maneira muito forte as pessoas. Pesquisas em adultos mostram que o índice de ansiedade tem aumentado assustadoramente, mas nas crianças também já percebemos esses prejuízos, inclusive em relação ao aparecimento de uma tristeza muito intensa, desânimo, medos. Já temos percebido impactos emocionais, sim”, frisa Márcia.
A rondonense deixa claro que, independente da idade, o isolamento e o confinamento vão impactar de alguma forma a vida, seja de crianças, adolescentes ou adultos. “Vai ter um impacto. O que a gente pode fazer neste momento, especialmente os adultos, é diminuir esses impactos emocionais em relação a como essas crianças e adolescentes vão lidar. Muito mais importante do que como a criança vai lidar, é a gente utilizar estratégias e recursos para facilitar que essas crianças e adolescentes tenham o mínimo de efeitos negativos possíveis. Como enfrentar essa situação vai passar muito mais pelas nossas condutas de adulto do que efetivamente pela conduta da criança e do adolescente. Se para nós está difícil, imagina para eles”, argumenta.
Coordenadora geral do Colégio Evangélico Martin Luther, psicopedagoga, historiadora e pós-graduada em Gestão Escolar, Liane Stamm Schwingel reforça que o momento pelo qual passamos faz com que os sentimentos se misturem. “Sabemos da importância do convívio, da interação, da troca que ocorre na relação entre a escola e seus alunos, e sabemos também da seriedade que ainda requer o momento da pandemia. Buscar o equilíbrio, manter o cuidado e agir com muita responsabilidade seguem sendo os elementos essenciais para o ano letivo de 2021”, expõe.

Coordenadora geral do Colégio Martin Luther, psicopedagoga Liane Stamm Schwingel: “Sabemos da importância do convívio, da interação, da troca que ocorre na relação entre a escola e seus alunos, e sabemos também da seriedade que ainda requer o momento da pandemia” (Foto: Divulgação)
Filhos mais ansiosos, tristes e com medo
Para a psicóloga rondonense, um momento de estresse e de crise, como o atual, potencializa características que já são da criança. “Cada criança tem o seu temperamento. Algumas têm um temperamento mais agressivo, outras têm um temperamento com o medo mais exacerbado, outras um pouco mais entristecido. Diante de uma situação de crise, isso fica mais evidente. A questão principal é ajudar a criança a lidar a partir dos recursos que ela tem. Uma criança que tem mais medo, significa que precisa de mais segurança. Não temos que olhar para o medo como uma coisa negativa. O medo é protetivo, mas precisamos dar a ela segurança. Uma criança mais agressiva não pode ter tal comportamento visto como negativo ou prejudicial. Uma criança mais agressiva tem muita energia e precisa gastá-la. São crianças líderes, que puxam a frente. Não precisamos ver nas nossas crianças defeitos. Muitas vezes o que a gente mais vê como dificuldade é o que a criança tem de maior habilidade. Temos que olhar para essas características das crianças como habilidades. As pesquisas têm mostrado que as crianças estão se sentindo mais ansiosas, mais irritadas, mais tristes, até com medo de retorno para a escola, medo de não acompanhar o volume de atividades, o ritmo das aulas quando voltarem. As crianças estão com muito medo, mas o fato agora é que precisamos ajudá-las a enfrentar todas essas situações, inclusive a partir dos recursos que elas mais têm”, orienta.
Liane cita que as crianças também absorvem as emoções das pessoas ao seu entorno e as manifestam de diferentes formas. “Muitos pesquisadores estão abordando esta temática, buscando orientar pais e cuidadores quanto ao modo de lidar com todas as transformações impostas pela pandemia. A Fiocruz, por exemplo, lançou uma cartilha sobre os impactos psicossociais da pandemia nas crianças, destacando como reações mais frequentes a dificuldade de concentração, maior irritabilidade, em alguns momentos comportamentos mais agressivos, com manifestações que não teria fora da pandemia. Crianças que acabam demonstrando muito mais medo, de escuro, da noite, de sair de dentro de casa. Ainda, segundo a pesquisa, nas crianças maiores é muito comum a sensação de tédio, especialmente aquelas já anteriormente acostumadas a uma maior independência. Outro apontamento feito pelos pesquisadores é a manifestação da solidão, destacando ainda o cuidado necessário por parte de pais e demais adultos quanto à depressão infantil, uma vez que o isolamento social altera as vivências, restringindo ou impedindo a realização de atividades cotidianas de descoberta e compartilhamento, interferindo diretamente no emocional das crianças”, detalha.
Ausência do ensino presencial
Márcia lembra que antigamente era comum escutar crianças e adolescentes falando que não gostavam de estudar, mas que gostavam de ir à escola. Agora, eles estão privados das duas coisas. “Não gosta de estudar e ainda tem que fazer isso em um ambiente virtual, que não é conhecido e prazeroso. A dica e orientação que tenho para os pais é: tornem isso o mais agradável possível para os filhos e para os professores. Muito mais do que pensar no conteúdo que está sendo transmitido, porque sim, haverá falhas no conteúdo, mas a escola não pode ser só conteudista, é o prazer que estas crianças e adolescentes vão ter pelo ato de aprender. Não podemos trazer ainda mais prejuízo para este momento. Tornar o mais lúdico para crianças pequenas, o mais divertido, melhor é. Tem pesquisas que mostram que a relação entre professor e aluno interfere, neste momento de pandemia, muito para adesão dos alunos ao estudo. O professor é uma figura muito importante neste momento para que as crianças e os adolescentes tenham vontade de estar ali e de prestar atenção”, comenta.
Liane complementa: “Pedagogicamente falando, a necessidade das experiências concretas, da interação, da complementação por parte do professorar mediador, são extremamente importantes para que ocorra a efetiva aprendizagem. A necessidade de gastar a energia, de seguir uma rotina estabelecida e de conviver com ‘seus pares’ passaram a ser grandes dilemas em tempos de isolamento, reforçando a importância de manter tanto uma rotina, quanto uma conexão, mesmo que virtual, da criança com a escola e seus colegas”.
Para a coordenadora do Colégio Martin Luther, mais do que nunca escola e família devem manter o vínculo, atuando de forma conjunta e buscando vencer os desafios impostos pelo ensino remoto. “Mesmo que algumas escolas tenham retornado ao ensino presencial, no formato híbrido, alguns alunos seguem remotamente desde o início da pandemia e todos devem ser olhados cuidadosamente. Para a família cabe estabelecer uma rotina, possibilitando a participação nas aulas e/ou o cumprimento das atividades repassadas, não esquecendo do espaço para os momentos de descanso e brincadeira. Para a escola, cabe a tarefa de utilizar de forma qualitativa as tecnologias educacionais, proporcionando aos alunos um ensino atrativo, com interação e aprendizagem significativa”, frisa Liane.
Filhos na frente da telinha
A orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria, comenta a psicóloga, é que crianças até dois anos de idade não tenham contato com celulares e tablets. De dois a cinco anos, o contato poderia ser de uma hora por dia; de seis a dez anos, duas horas. Porém, a pandemia fez relativizar muitas coisas. “O uso das telas é uma delas. A questão principal vai ser sempre um contraponto. Já que estamos flexibilizando o uso de telas, precisamos, por outro lado, possibilitar maiores momentos sem as telas também, de interação e brincadeiras. É uma compensação. Para os adolescentes, é um momento muito crítico, porque eles têm ficado muito tempo na frente de telas. Existem alguns adolescentes que, inclusive, têm predisposição para uma dependência maior. E aí sempre precisamos olhar para a necessidade e prejuízo que aquela criança específica vem tendo. Acho que uma das orientações para os pais é isso: prestem muita atenção nos filhos. Os filhos precisam de mais segurança? Dê a eles. Precisam de mais interação? Dê a eles, mesmo que seja restrito ao ambiente doméstico. Precisam gastar mais energia? Que seja brincando, mas precisam disso”, aponta Márcia Saar.
A psicopedagoga, por sua vez, ressalta que muitas vezes administrar toda vivência dentro dos ambientes digitais torna-se um grande desafio para os alunos adolescentes, pois precisam manter o foco no que realmente deve ser cumprido naquele momento e saber que é através do virtual que se dará o encaminhamento pedagógico. “Precisamos lembrar que para os adolescentes, estando em uma fase de grandes mudanças, onde o convívio com o grupo auxilia na construção de sua identidade, a instabilidade emocional e a insegurança são fatores de grande preocupação e que estes elementos, somados à preocupação constante com a saúde de todos, os tornam seres mais fragilizados e suscetíveis às sensações diversas”, observa.
Dica é: rotina e lazer
Além de reconhecer as necessidades dos filhos, Márcia Saar relata que uma medida importante é estabelecer uma rotina, pois a rotina traz estabilidade e estabilidade significa previsibilidade. “E previsibilidade traz segurança. Precisamos que as crianças e os adolescentes se sintam mais seguros neste momento. E rotina não é com horário rígido, mas de acontecimento para que haja uma previsibilidade. A criança sabe que vai acordar, vai tomar o café da manhã, vai brincar, depois vai ter hora de fazer uma atividade. É importante que a criança tenha essa rotina previsível para que efetivamente se sinta mais segura. Outra dica é estabelecer alguns espaços específicos, como um local de estudo, no qual a criança sabe que ali vai ficar por um tempo, e diferente de outro espaço da casa para brincar, por exemplo. Organize esses espaços. Além disso, fique atento às informações que a criança recebe. Se nós, adultos, estamos sendo bombardeados com informações, não podemos fazer isso com as crianças e os adolescentes. A gente precisa filtrar para, daí sim, repassar de uma forma com que eles entendam. Precisamos ouvi-las muito. Quanto mais entender como estão lidando com este momento, quais as faltas que estão tendo, mais vamos conseguir suprir”, recomenda.
A profissional ressalta a importância de estabelecer na rotina momentos de lazer e, se possível, privilegiar atividades ao ar livre e em contato com a natureza. “A brincadeira é o melhor recurso que as crianças têm. Os adolescentes precisam de comunicação, mesmo que seja virtual por vídeo chamadas. Às vezes até no jogo on-line, quando interage com outras pessoas, é uma forma de estar se comunicando neste momento. Precisamos acompanhar, ver até onde isso está sendo benéfico, e sempre ter um olhar próximo, acolhedor e empático sobre as crianças e adolescentes”, diz.
Acolhimento dos pais
A psicóloga reforça que todos passam por uma situação de estresse e isso também gera nos adultos maior irritabilidade e baixa tolerância. “Mas não podemos esquecer que neste momento as crianças e os adolescentes são os seres mais vulneráveis da relação. Eles têm menos capacidade de enfrentar tudo isso em relação a nós, adultos. As birras vão aumentar, as dificuldades e os comportamentos desafiadores vão aumentar, sim, e somos nós, adultos, que precisamos estar prontos para ajudá-los e lidar com essa situação”, menciona.
“Fica evidente que a pandemia acelerou muitos processos que não mais voltarão ao ‘antigo formato’, como, por exemplo, o trabalho remoto (home office), a educação a distância para as diferentes faixas etárias, onde a tecnologia passou a ser a ferramenta essencial na vida de professores e alunos, aprimorando o uso desde o envio de um simples e-mail ao domínio de uma plataforma educacional que abre inúmeras possibilidades de aprendizagem. Também as mudanças nas formas de usufruir da cultura, tendo-se um acesso muito mais amplo. No entanto, acredito que uma grande transformação que permanecerá está relacionada aos valores essenciais. Foram tantas perdas humanas, tantas vidas foram ceifadas, sem tempo e nem possibilidade sequer para uma despedida, e devem assim ficar lições como a empatia, a solidariedade e compaixão, elementos que nos fazem seres humanos”, expõe Liane Schwingel, ao pensar no pós-pandemia.
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