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Marechal

“Elixir dos deuses” conquista paladares rondonenses

calendar_month 29 de maio de 2021
6 min de leitura

Outrora, servia como poção de força e recuperação em batalhas históricas. Aos guerreiros da atualidade, uma apreciação depois das 18 horas proporciona muitos sabores e nuances a quem conhece e experimenta. O hidromel, a bebida alcoólica mais antiga do mundo, é produzido artesanalmente em Marechal Cândido Rondon e cada vez encontra mais apreciadores.

Com origens mesopotâmicas, o hidromel serviu à humanidade ao passar dos anos, contudo, nem sempre é devidamente conhecido. Em um brinde ao passado, séries atuais como Vikings, Game of Thrones e outras despertaram em muitos o desejo de experimentar a bebida dos deuses.

Apreciador do hidromel, Rodrigo Hermann Hendges produz a bebida artesanalmente desde 2012 e a comercializa em seu estabelecimento. Ele diz que apesar da bebida ser antiga, muitas pessoas a desconhecem. “É basicamente um vinho, só que o ingrediente principal é o mel, ao invés da uva”, explica.

Segundo o rondonense, o hidromel é mais antigo que o vinho e até mesmo que a cerveja. “Tem uma graduação alcoólica de 12% a 14%, mesma faixa que o vinho tradicional. O sabor, entretanto, é bem diferente porque o ingrediente principal é o mel. Tem um gosto característico, mas não necessariamente tão doce”, compara.

Rodrigo Hendges tem 28 anos e produz hidromel desde 2012, comercializando-o no seu bar em Marechal Rondon (Foto: O Presente)

 

MITOLOGIA NÓRDICA

Hendges estudava Tecnologia em Biocombustíveis, curso voltado à fermentação para produção do álcool combustível, o que indiretamente lhe inspirou a começar na produção de bebidas. “Além disso, sempre gostei de mitologia nórdica, de vikings. Na literatura nórdica, o hidromel é a bebida dos deuses, cedida para os guerreiros, que tomavam e recuperavam a força, rejuvenesciam. Eu estava começando a estudar fermentação e pensei: por que não fazer? Comecei a fazer na casa de um amigo e sigo até hoje”, lembra.

Da união do útil ao agradável, já são nove anos que o rondonense produz hidromel. E de lá para cá, mudou aos poucos a elaboração. “Gostei da bebida e do processo. Desde as primeiras vezes que eu fazia para hoje, tanto o processo quanto a qualidade e os ingredientes mudaram. Provavelmente, se eu experimentasse os primeiros hidroméis que fazia, iria achar ruim”, confidencia.

 

MERCADO

Apesar do hidromel ser apreciado em Marechal Rondon, são poucos os produtores da bebida artesanal. “Que eu tenho conhecimento, não há mais pessoas que produzem hidromel no município. Em lojas físicas também dificilmente se encontra para comprar, apenas na internet”, menciona Hendges.

Em comparação ao produto industrializado, ele avalia que a produção em larga escala prejudica o potencial da bebida. “Provei alguns hidroméis industrializados e um diferencial é a questão do sabor, porque geralmente em grandes escalas tentam economizar ao máximo e isso influencia no produto final”, considera.

Mensalmente, o rondonense produz cerca de 50 litros da bebida alcoólica mais antiga da humanidade (Foto: O Presente)

 

BEBIDA FERMENTADA

Água, mel e levedura. A partir da união destes três ingredientes, conta Hendges, surge o hidromel. “Como em qualquer bebida alcoólica, o açúcar vira álcool na fermentação”, explica. A levedura, acrescenta ele, é um fungo necessário para a produção do álcool. “Existem vários tipos de levedura. Eu utilizo uma variedade importada específica para o hidromel, que dificilmente é produzida no Brasil”, relata.

O rondonense comenta que a produção da bebida tem basicamente dois processos. “Os ingredientes são misturados em certa proporção e a levedura faz a fermentação, de três a cinco semanas, no máximo. Depois que fermentou há o processo de maturação. A bebida é resguardada por alguns meses, quando ocorre a degradação dos ácidos orgânicos, processo que deixa o hidromel mais adequado ao paladar. Na maturação ou envelhecimento, os ácidos são degradados e você sente melhor os aromas que a bebida pode proporcionar”, detalha, emendando: “Quando recém-fermentada, a bebida fica muito ácida e ‘queima’ o paladar, você acaba não apreciando todo o sabor”.

O maior cuidado no momento da produção, conforme Hendges, é a sanitização dos equipamentos. “Não é trabalhoso, o que mais precisa de atenção é a limpeza de tudo que entra em contato com a bebida. Outro ponto é o tempo para que o produto fique pronto. Algumas receitas levam até nove meses para poder consumir e comercializar. Até daria para consumir antes, mas uma bebida de qualidade requer essa maturação específica. Fiz cursos de degustação e eu quero oferecer e degustar um bom hidromel”, destaca.

 

DISPONIBILIDADE DO MEL

Segundo o rondonense, a produção no município é favorecida pela disponibilidade da matéria-prima. “Conheço pessoas de Cascavel que produzem artesanalmente, mas não o fazem em grandes quantidades. Lá o custo acaba sendo mais elevado por causa da dificuldade de encontrar mel. Aqui eu pego mel diretamente de produtores rurais em um preço mais acessível”, pontua.

O principal mel utilizado por ele é o de abelha africana, em virtude do teor de açúcar. “O mel de jatai, por exemplo, além de ser mais caro, tem menos açúcar e, logo, uma conversão menor em álcool. O mel de abelha africanizada é o recomendado”, indica, ressaltando que o local de onde as abelhas extraem o néctar também influencia: “Existe mel de laranjeira, de eucalipto e aqui o que mais se encontra é o mel de flores silvestres”.

 

SABORES COMPLEXOS

Hendges diz que a partir da base do hidromel é possível variar os sabores. “Podem levar outras ervas ou frutos adicionados como forma de completar o aroma. Fiz recentemente hidromel com laranja, tangerina, manjericão, alecrim e hortelã. Faço a preparação de um chá com as frutas, ervas e até a casca para dar um aroma mais elevado, e adiciono para fermentar. Com a bebida pronta, você consegue um aroma mais característico ao final da fermentação”, explica, salientando que o paladar é a junção dos aromas com o sabor.

Quando o assunto é hidromel, nem sempre quanto mais envelhecido melhor o sabor, pondera. “Varia com a receita. Depende de quanta acidez há no final da fermentação e o tanto de acidez residual que deseja para combinar. Têm hidroméis que eu faço com três meses de maturação e fica perfeito, enquanto têm outros que preciso deixar pelo menos seis meses. Chegando em um certo limite de tempo, não vai ficar ruim, mas pode faltar um pouco de acidez”, menciona, acrescentando que o tempo ideal é encontrado por meio de testes com as receitas.

Além do hidromel tradicional, à base de água, mel e leveduras, Hendges produz a bebida saborizada. Na foto, durante preparo do “Viking blood”: hidromel saborizado com hibisco e lúpulo (Foto: O Presente)

 

DEMANDA CRESCENTE

No princípio, o rondonense fazia a bebida em galões de cinco litros e hoje a produção é de 50 litros por mês, com tendências de expansão. “A venda no meu bar tem se popularizado. Tem vezes que fico sem hidromel de tanto que as pessoas consomem. Isso é motivo para alargar a produção”, enaltece.

Mesmo com a demanda crescente, Hendges reconhece que o hidromel tem um preço um pouco mais elevado que outras bebidas em decorrência do preço do mel.

 

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