O Presente
Marechal

“Encerrar as atividades assim foi a maior decepção da minha vida, mas foi uma decisão da Ford”, diz Rui Schimmel sobre fechamento da Rodovel

calendar_month 23 de abril de 2021
13 min de leitura

Depois de 43 anos, a Rodovel, revenda Ford em Marechal Cândido Rondon, encerrou as atividades no município. Ontem (22) foi o último dia de portas abertas. O fechamento da empresa não foi uma decisão do proprietário, Rui Schimmel; veio da Ford, que em janeiro anunciou a suspensão da produção de carros no Brasil. “O fechamento só ocorreu por uma exigência da companhia. Ela não chegou e ofereceu para continuar vendendo carro importado. Ela chegou e falou que você não vai ser mais distribuidor, eu e mais 170 lojas no Brasil. Nunca tivemos problemas financeiros, técnicos, qualquer motivo que originasse o fechamento da empresa. Aconteceu devido a uma decisão que veio de cima, da Ford”, destaca o empresário.

Ao O Presente, Schimmel falou do sentimento de encerrar as atividades da Rodovel, empresa que ele inaugurou em 1978, e dos projetos que tem para a estrutura, localizada em área nobre no centro da cidade. Ele também fez uma análise do mercado atual de automóveis e discorreu sobre as tendências dos carros do futuro. Confira.

 

O Presente (OP): A Ford anunciou em janeiro a suspensão da produção de carros no Brasil. Três meses depois a revenda em Marechal Rondon fechou as portas. Esse fechamento ocorreu em decorrência da decisão da Ford, foi uma determinação da multinacional ou foi uma decisão pessoal sua em não manter mais as atividades?

Rui Schimmel (RS): A Ford fechou a fábrica e me avisou que não ia mais fornecer mercadorias que antes fabricava, peças e tudo, que teria que cancelar o contrato que nós temos de distribuição. Então, estou fechando a distribuição, porque não vou mais ter vínculo a partir de agora com a Ford. Estou fechando a empresa, porque ela se torna inviável de continuar sem a Ford, uma vez que o movimento da nossa empresa é de 95% a 98% com produtos desta marca, pois temos que ser exclusivos dela. Como ela parou, eu paro junto. Eu e mais 170 distribuidoras do Brasil.

 

OP: Depois da oficialização da decisão da Ford, alguns culpam o governo federal pela paralisação da produção da marca no Brasil devido à falta de incentivos atrativos e outros criticam a própria Ford, apontando que a multinacional teria cometido erros estratégicos ao longo dos anos perdendo participação no mercado. Qual é a sua análise sobre isso?

RS: A Ford perdeu participação no mercado porque todas as empresas perderam. Há 30 anos só havia quatro fábricas no Brasil, a Fiat, a Ford, a General Motors (GM) e a Volkswagen. Todas elas dividiam o mercado. Hoje temos 30 e poucas fábricas no país. O mercado se diluiu. Dentro dessa diminuição, a Ford, por opção de fabricação própria e pelos prejuízos que vinha tendo na América do Sul, principalmente na Venezuela, na Argentina e no Brasil, optou por cancelar as fábricas da Venezuela e do Brasil. Na Venezuela há bem mais tempo e no Brasil agora. Quanto a culpar o governo, não tem nada a ver. O único problema do governo que temos no Brasil é o alto custo de produção, que é o custo mais alto no mundo inteiro. Quer dizer, ninguém tem a carga de impostos que o Brasil tem e nem tem o custo de produção, principalmente com a lei trabalhista, que é muito severa e em certos momentos até exagerada, e os custos de previdências e outras leis que temos aqui e encarecem. A Ford desistiu no mundo inteiro, com exceção da Bélgica, de continuar fabricando automóveis, e a fábrica do Brasil era de automóveis e basicamente uma sub. Teria que ser completamente remodelada, então ela cancelou a fábrica. Foi isso o que aconteceu, mas não tem culpa do governo, porque os benefícios e os encargos são para todas as fábricas.

 

OP: Na sua opinião, além da Ford, outras marcas podem desistir de produzir carros no Brasil?

RS: A Mercedes Benz já fechou, a Volkswagen já parou com a fabricação do Golf e do Audi. Então, há uma tendência, vamos dizer assim, de mais fábricas fecharem, mas isso são suposições, análises de economistas de que o mercado não vai comportar, porque compensa importar quando é de países que tem convênio. Esse é o caso agora da Ford, que vai trazer carros do México, porque lá não tem o imposto de importação. Compensa trazer de lá, da Argentina. Então, o mercado brasileiro vai ser abastecido basicamente pelo México e pela Argentina, porque a Ford vai continuar no Brasil trabalhando com carros importados. Carros importados para cidades do nosso porte não compensa, porque são carros na faixa de R$ 250 mil e nós não temos mercado para isso. Então, basta dizer que a Ford vai fechar 60% das distribuidoras que tem no Brasil hoje. 

 

OP: O senhor, ao longo dos anos, sempre teve participação na diretoria da Associação Brasileira dos Distribuidores Ford (Abradif). Como conhecedor do ramo de automóveis, qual análise faz do atual mercado no Brasil?

RS: Tenho 43 anos de distribuidora Ford e 40 anos de participação na direção da Abradif em diversos cargos, principalmente na área de comercialização. Na realidade, o que nós temos hoje são grandes e médias fábricas. São muitas fábricas. Há uma tendência do mercado crescer, até porque ele já foi bem maior, com quase quatro milhões de veículos produzidos por ano e hoje nós estamos produzindo, em média, 2,6 milhões. Agora, quais fábricas vão sobreviver a gente não sabe. Essa é a grande pergunta que existe no mercado. Essa concorrência acirrada torna a competitividade financeira mais difícil. Com isso as fábricas estão diminuindo, tentando vender carros que dão mais retorno. O Onix, por exemplo, que é o carro mais vendido no Brasil, tinha basicamente o mesmo preço do nosso KA. Hoje, se nós estivéssemos no mercado, ele estaria 20% mais caro, porque o presidente da GM falou que não compensa produzir Onix ao preço que estava. Então, estão aumentando a mais que os outros carros, porque é competitividade. Para ter novos lançamentos é preciso ter retorno, tem que ter lucro. Por isso que as fábricas, se você observar, não têm mais o carro popular. Todo carro é com ar-condicionado, painel digital e essas coisas todas, pois os acessórios geram mais lucratividade. Elas estão partindo para carros que dão lucro, essa é a realidade.

 

OP: Muito se fala que o carro popular está com os dias contados, porque não é mais tão desejável pelos consumidores como já foi um dia; que dar o carro de entrada como conhecemos hoje tende a desaparecer em breve; que os automóveis mais baratos vão ficar cada vez mais caros devido à inclusão de novas tecnologias… O que podemos esperar do mercado de automóveis num futuro próximo?

RS: Um mercado de carros mais caros. A população vai ter de se adequar, porque o carro é mais desejado que a casa própria. As pesquisas apontam que todo mundo quer ter carro e a pessoa sempre quer o carro mais moderno, o lançamento, por isso há uma constância de lançamentos. Há 20 anos, os carros eram lançados normalmente em setembro ou outubro para o ano seguinte. Hoje nós temos em março, abril carro 2022 no mercado. Então, anteciparam esses lançamentos para criar o objeto de desejo e as pessoas olham muito e querem mostrar que estão de carro novo. Isso faz parte do ego humano. Então, os carros estão se modernizando e vão ficar mais caros, mas a indústria abre novas condições de pagamento. Hoje você compra carro com 60 meses a juros de 0,59. Teve uma época que vendíamos com juros zero. Essas condições de pagamento vão se criando e o pessoal vai continuar comprando. Vai demorar um pouco mais para recuperar o mercado próximo dos quatro milhões, mas acho que em até três anos recupera.

 

OP: Quais as tendências dos carros do futuro? Híbrido, elétrico, a gás?

RS: O futuro é o carro elétrico. O grande problema do carro elétrico hoje é a bateria, porque ela não tem durabilidade. No Brasil falam que vai demorar, mas, mais anos ou menos anos, vai tomar conta. Carro a gás ou outros não tem, vai ser o híbrido. A primeira fase já está aparecendo bastante e há muitos lançamentos, depois vai ser o carro elétrico. As baterias com certeza vão atingir o objetivo de você poder sair, por exemplo, de Marechal Rondon e ir até Curitiba sem abastecê-las.

 

OP: O senhor acredita que os veículos que temos hoje, movidos a combustível, vão desaparecer em breve?

RS: Em breve, não. No Brasil vai demorar mais. Li uma reportagem outro dia de que na Inglaterra, se não me engano, em 2030 eles querem acabar com o carro movido a combustível fóssil para só ter o elétrico. Acho que mais uns 15 anos a tendência é que 70%, 80% dos carros sejam elétricos.

 

OP: Nos grandes centros há anos observa-se um movimento de pessoas que ao invés de adquirir veículos, devido às características do trânsito, limitações de estacionamento etc, optam por usar táxis ou prestadores de serviços automotivos via aplicativo para se locomover. Isso vai seguir forte e, quem sabe, abranger também as cidades menores?

RS: Nas cidades menores eu não acredito muito, porque é mais complexo, mas é uma tendência. Outra tendência que tem hoje em cidades grandes é a locação anual de carro. Você paga um valor que corresponde a um pouco mais do que gastaria com a prestação de um carro, mas não terá despesa de pneu, manutenção, impostos, seguro e por aí vai. Essa é uma tendência que tem tudo para proliferar, pois oportuniza pagar um pouco mais que a parcela do carro e usar por um ano, depois é pegar outro carro zero de novo.

 

OP: Na sua opinião, qual é a marca que produz os melhores carros atualmente, em termos de custo-benefício, tecnologias, menor custo de manutenção?

RS: Hoje, não tem uma marca que podemos dizer que é melhor que a outra, um carro que é muito melhor que o outro; todos são muito parecidos. O que mantém a fidelidade do comprador é o pós-venda, o bom atendimento, ter assistência técnica. Essas coisas ajudam bastante na escolha do carro.

 

OP: Qual marca deve seguir líder de mercado?

RS: Acredito que a GM deve manter a liderança no mercado.

 

OP: Voltando para a Ford de Marechal Rondon. A revenda estava presente no município desde que ano? O senhor esteve à frente dela desde o começo?

RS: Eu fundei a Rodovel. Consegui a concessão em 1977 e inauguramos em 78. Nenhuma empresa dura 43 anos nesse segmento se não tiver um bom trabalho, com pessoas competentes na área de assistência técnica, na área de vendas. A única revenda que começou em Marechal Rondon e continuou sendo de um rondonense foi a Rodovel. Todas as outras trocaram de mão.

 

OP: Em todos esses anos, qual foi o de maior número de vendas e qual foi o carro mais vendido na história da concessionária local?

RS: A medição de venda de carros não é pela quantidade. A indústria do automóvel avalia pelo “share”, penetração de mercado. Então, por exemplo, em uma cidade que vende 100 carros, qual é o share da sua indústria? Da sua marca no Brasil e na cidade? Posso falar o seguinte, nós sempre tivemos o dobro do share da Ford no Brasil. Agora, nos últimos tempos, que a Ford tinha na faixa de 8,5% ou 9%, nós nunca baixamos de 17%, 18% de share. Quanto ao carro mais vendido, acredito ter sido o Corcel.

 

OP: Com o fechamento da Rodovel, quantos postos de trabalhos foram desativados?

RS: Foram desativados 35.

 

OP: Depois de tantos anos de história, qual é o sentimento que fica com o fechamento da revenda?

RS: O fechamento só ocorreu por uma exigência da companhia, que não te dá opção. Ela não chegou e ofereceu para continuar vendendo carro importado. Ela chegou e falou que você não vai ser mais distribuidor, eu e mais 170 lojas no Brasil. Das 290 lojas que a Ford tem, entre 170 e 180 vão fechar. O país vai ter cerca de 100 lojas. Nós nunca tivemos problemas financeiros, técnicos, qualquer motivo que originasse o fechamento da empresa. Aconteceu devido a uma decisão que veio de cima, da Ford. De 95% a 98% das vendas são produtos Ford, que não tenho mais. Então, vamos dizer assim, essa foi a maior decepção que tive. É triste a maneira como foi encerrada a nossa atividade aqui.

 

Rui Schimmel: “Só tenho a agradecer pelos milhares de clientes nesses 43 anos. Agradecer os colaboradores, porque sem a participação deles tudo seria inviável. Nós só tivemos sucesso porque em negócio precisa ser bom para os dois lados, a empresa e o comprador” (Foto: Joni Lang/OP)

 

OP: Por que o senhor não transformou a revenda em multimarcas ou mudou tão somente para outra marca?

RS: Outra marca não tem mercado, porque aqui a Volkswagen é atendida por Toledo. Já tentaram, mas desistiram, não dá. Outras marcas não comporta ter aqui, como, por exemplo, Peugeot, Renault, Citroen. Esses carros não vendem, a realidade é essa. Eles têm dificuldades no Brasil inteiro e acho que essas marcas são as primeiras que vão desaparecer no Brasil. Trazer uma Chevi, vender um modelo só, não comporta. Rondon é uma cidade pequena. Então, não comporta revendas. Com multimarcas, não me interessa.

 

OP: Com o fechamento da Rodovel, esse espaço considerado nobre no centro de Marechal Rondon está vago. Especulou-se que poderia se tornar um mercado da Lar, fato que foi negado pelo presidente da cooperativa. Está acontecendo alguma negociação para alugar o prédio ou vendê-lo?

RS: O objetivo é alugar, mas não houve contato com ninguém até agora. Tivemos especulações e sondagens, mas nada concreto. Com a Lar, por exemplo, nunca houve tratativas. O presidente da cooperativa só confirmou uma realidade, porque nunca houve contato. A construção que temos é um projeto que a Ford tinha na época. Para alugar, hoje, teremos que fazer adaptações para o tipo de negócio que alugar. Mas até o momento não temos nada de negociações em vista.

 

OP: Depois de tantos anos envolvido no mercado de automóveis o senhor pretende se dedicar a outro ramo, agora?

RS: Eu tenho outras atividades, como a produção agrícola. Tenho a produção de ovos galados mais moderna do Paraná, em parceria com a BRF. Por enquanto, no ramo comercial, não vou tentar nada. Estou com 76 anos e não vou me aventurar.

 

Rui Schimmel: “Nenhuma empresa dura 43 anos nesse segmento se não tiver um bom trabalho, com pessoas competentes na assistência técnica e em vendas” (Foto: Joni Lang/OP)

 

Rui Schimmel inaugurou a Rodovel em 1978: 43 anos de história (Foto: Joni Lang/OP)

 

O Presente

Clique aqui e participe do nosso grupo no WhatsApp

 

 
Compartilhe esta notícia:

Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.
Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.