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Marechal

Ensino integral muda rotina de colégio estadual de Marechal Rondon

calendar_month 3 de junho de 2022
9 min de leitura

A ideia de passar o dia todo na escola gera diferentes efeitos na comunidade. Se para professores e pais a educação integral representa um ideal de ensino, por outro lado, os alunos nem sempre são tão amigáveis à ideia.

Localizado no Jardim Primavera, em Marechal Cândido Rondon, o Colégio Estadual Monteiro Lobato é um entre as 175 instituições de ensino com educação em tempo integral no Paraná, sendo o primeiro e único colégio do município nesta modalidade. Por lá, o que se vê são alunos motivados e empolgados.

Marco Antônio Cordeiro de Goes, de 15 anos, estuda no colégio rondonense desde o 6º ano e conhece a instituição de “cabo a rabo”. “Ficamos no colégio o dia inteiro, mas acho que mudou para melhor. Aumentaram as aulas e assim como estudamos mais também aprendemos mais, mesmo porque a gente fica mais interessado nas disciplinas novas e no horário diferente. Com os alunos que conversei até agora todos têm gostado e achado interessante, até melhorado as notas”, comenta ele, que também é presidente do Grêmio Estudantil.

Yasmin Daronch, por sua vez, diz que o começo foi cansativo, mas agora está acostumada com a rotina do colégio. “A experiência está sendo legal, mas no começo foi bem canstivo. Quando eu estudava em outra escola não gostava muito, mas aqui eu gosto porque o dia a dia é diferente”, considera a estudante, que está no 9º ano e é vice-presidente do Grêmio Estudantil.

Integrantes do Grêmio Estudantil do Colégio Monteiro Lobato, presidente Marco Antônio Cordeiro de Goes e vice-presidente Yasmin Daronch, contam que os alunos estão gostando do ensino integral: “A experiência está sendo legal, mas no começo foi bem cansativo” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

Implantação

Os trâmites para a mudança para o ensino integral vêm acontecendo desde 2020, mas foram adiados devido à pandemia. “Em setembro de 2021 a proposta nos foi apresentada mais uma vez e fizemos uma consulta à comunidade escolar, sendo aprovada para iniciar em 2022. Desde fevereiro estamos com o ensino integral”, comenta o diretor da instituição, Cloecir dos Santos Ribeiro.

Segundo ele, um dos critérios utilizados na escolha do Colégio Monteiro Lobato foi o espaço disponível. “Temos um turno único, quando antes havia dois, e os alunos permanecem nove horas no colégio. Então, o primeiro requisito foi ter um bom número de salas de aula. Nossa escola é relativamente nova e atendeu aos critérios”, explica.

Diretor do Colégio Monteiro Lobato, Cloecir dos Santos Ribeiro: “As matérias são diferentes e, ao invés de quatro, eles ficam nove horas no colégio, é como uma segunda casa. A aceitação é gradativa e percebemos que os menores, do 6º e 7º, têm mais aceite” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

Protagonismo dos estudantes

Atualmente, cerca de 190 estudantes frequentam o ensino integral. “No colégio integral eles ‘contam’ o dobro, porque ficam o dia todo. Percebemos uma procura maior por matrículas no Ensino Fundamental II e conseguimos encaixar os novos estudantes”, conta o diretor.

A diretora auxiliar, Solange Auler, ressalta que um dos objetivos do ensino integral é ampliar tempos, espaços escolares e oportunidades de aprendizagem. “Os estudantes ganham protagonismo para ocupar os espaços a que têm direito”, enaltece.

Diretora auxiliar do Colégio Monteiro Lobato, Solange Auler: “A equipe ficou bem mais integrada e afinada. Falamos a mesma língua e temos reuniões constantes com os coordenadores” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

Sucesso entre os menores

Ribeiro conta que a adaptação é um processo delicado, mas tudo tem ido bem. “Tanto professores e equipe quanto alunos não eram acostumados a ficar o dia todo na escola, porque a educação por muito tempo aconteceu do jeito convencional em meio período, então ainda estamos em fase de adaptação. As matérias são diferentes e, ao invés de quatro, eles ficam nove horas no colégio, é como uma segunda casa. A aceitação é gradativa e percebemos que os menores, do 6º e 7º, têm mais aceite”, comenta.

No Ensino Médio, por sua vez, houve mais dificuldade pelo fato de alguns alunos trabalharem. “Os alunos que trabalham precisaram ir para outro colégio. Ficamos triste, porque vários tiveram que sair, mas estamos conversando com eles e alguns estudantes querem retornar. Aqueles que ficaram no integral estão contentes, porque vai fazer diferença nos vestibulares”, pontua o diretor.

 

Nove horas no colégio

As aulas acontecem das 07h30 às 16h30, com café da manhã, uma hora de almoço e café da tarde. Os estudantes têm nove aulas por dia intercaladas entre disciplinas da base comum e optativas da grade diversificada. As disciplinas do Paraná Integral são: educação financeira, estudo orientado, mentoria, língua espanhola, práticas experimentais, preparação pós-Médio, projeto de vida, comportamento computacional, violência corporal, protagonismo, empreendedorismo, programação e tecnologia computacional e ensino religioso. Além destas, os alunos têm componentes curriculares eletivos, isto é, que podem ser escolhidos. São eles: esportes, horta, música, arteterapia, teatro, dança, games eletrônicos, robótica e jornal da escola.

Ribeiro menciona que para além do horário de aula ainda há alunos que ficam para projetos no contraturno. “Depois do horário deles eles têm outros projetos de handebol, xadrez, judô terça e quinta jogos de história. Teremos também um horário de dança folclórica em breve. A ociosidade que eles tinham à tarde não existe mais, porque atividades não faltam”, enaltece o diretor.

 

Clubes dos estudantes

Para além das disciplinas, os estudantes podem criar clubes auxiliados pela comunidade escolar. No Colégio Monteiro há três clubes: do protagonismo, da sustentabilidade e do xadrez. Victor (11 anos), Luís (10), Samuel (11), Rafaeli (13), Emanueli (11) e Gabrielle (11) fazem parte dos clubes do protagonismo e sustentabilidade. Entre as ações dessa galerinha está a recepção de visitantes ao colégio – como fizeram com a equipe de O Presente – e uma campanha para a conscientização sobre o lixo: ganha uma bala quem não jogar lixo no chão e ajudar na limpeza do colégio.

“O clube é incrível, porque a gente aprende várias coisas. Aprendemos que ter protagonismo é deixar os outros vencer também”, conta a pequena Emanueli, que é endossada pela Gabi: “A gente se sente mais confiante e responsável”.

Os meninos, por sua vez, afirmam que um dos objetivos é trazer mais participantes para os clubes. “A gente quer fazer as pessoas conhecerem nosso grupo e que queiram fazer parte”, convidam. O clube da sustentabilidade conta até com Instagram (clube_da_sustentabilidade), criado com auxílio dos pais dos alunos.

Integrantes do clube do protagonismo e sustentabilidade realizam ações para manter o educandário limpo: “A gente quer fazer as pessoas conhecerem nosso grupo e que queiram fazer parte” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

Rendimento maior

Apesar de ainda estar no começo, o diretor avalia que já é possível perceber um rendimento maior por parte dos alunos. “Atuamos há tempos na educação e sabemos que o retorno vem com o tempo, e assim será com o ensino integral. No entanto, a gente já percebe que há, sim, um interesse maior, até porque esse foi uma das propostas: implantar visando recuperar o atraso que houve na pandemia”, salienta.

Outro ponto que tem se mostrado positivo é o fortalecimento do vínculo entre professores e alunos. “Estamos mais tempo em contato com os alunos e podemos dar mais apoio. Temos muitas famílias carentes aqui no bairro e com a pandemia vimos crescer os problemas de relacionamento familiar. Nesse meio, a escola acaba sendo um ponto de apoio, onde os alunos são ouvidos”, afirma o diretor.

A diretora auxiliar entende que até a responsabilidade do colégio aumentou. “Os pais sentem essa diferença, porque os alunos ficam mais tempo conosco. Permanecem nove horas e nós somos responsáveis por eles nesse período em que estão aqui. É uma grande responsabilidade”, expõe.

 

Equipe integrada e afinada

Assim como os estudantes, professores e membros da equipe escolar também tornam-se “integrais” do Colégio Monteiro Lobato. “A equipe ficou bem mais integrada e afinada. Falamos a mesma língua e temos reuniões constantes com os coordenadores. As informações chegam em tempo real, o que não acontece em outras escolas, porque, as vezes, os professores estão em outra escola”, enaltece Solange.

As pedagogas Clotilde Maria Cervo Rossato e Thais Damasceno da Silva afirmam que o ensino integral é uma experiência enriquecedora até mesmo para a equipe envolvida. “Essa modalidade veio para melhorar a educação em todos os sentidos. A equipe da escola trabalha para que o aluno saia daqui mais preparado”, asseguram.

Pedagogas Thais Damasceno da Silva e Clotilde Maria Cervo Rossato: “Essa modalidade veio para melhorar a educação em todos os sentidos. A equipe da escola trabalha para que o aluno saia daqui mais preparado” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

Melhor para o professor

A professora Daniele Andrade leciona Língua Portuguesa, Língua Espanhola e Empreendedorismo. Para ela, cumprir 40 horas em uma mesma instituição foi uma mudança significativa. “Desde a economia de tempo com deslocamento até com o contato mais próximo que temos com os alunos. Os professores ficam por dentro do que acontece na escola e assim o trabalho rende mais”, considera.

Ela também conta que sentiu um maior envolvimento por parte de seus alunos. “A maioria demonstra certo entusiasmo. Alguns estão resistentes, até porque a carga horária pode pesar um pouco, mas grande parte está gostando”, aponta.

Como coordena o projeto do Jornal da Escola, a professora diz que teve oportunidade de escolher o tema de sua disciplina eletiva e o resultado tem sido muito positivo. “É um xodó. Nós buscamos divulgar o dia a dia da escola para a comunidade e o jornal viabiliza isso. Os alunos que participam têm orgulho, gostam bastante e são empenhados”, elogia.

Professora Daniele Andrade: “Nós buscamos divulgar o dia a dia da escola para a comunidade e o jornal viabiliza isso. Os alunos que participam têm orgulho, gostam bastante e são empenhados” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

“Ano de sobrevivência”

Ribeiro destaca que o momento de adaptação tem suas dificuldades, mas é uma fase que o colégio deve superar. “Esse primeiro ano é de sobrevivência. Cada dia é um dia, acontecem coisas diferentes com que temos de lidar. É um desafio, mas vamos acertando os detalhes. No início, por exemplo, houve problemas com a contratação de funcionários, mas foi regularizado”, menciona.

Os custos também pesaram na ponta do lápis com a implantação do ensino integral. “Alunos, professores e equipe ficam mais de nove horas no colégio e é como se fossemos uma família de 250 pessoas. O gasto aumentou e estamos em contato com o Estado para readequar as despesas para suprir todas as necessidades. Houve aumento da nossa verba, mas não esperávamos que o aumento dos custos fosse crescer tanto”, pontua.

 

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