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Marechal

Escassez de profissionais na construção civil em Marechal Rondon e microrregião preocupa construtoras

calendar_month 11 de agosto de 2021
9 min de leitura

A geração de emprego é extremamente positiva para auxiliar no aquecimento da economia. No entanto, a grande oferta de vagas de trabalho, especialmente em indústrias e linhas de produção, pode estar causando a migração de boa parte dos trabalhadores da construção civil para outras atividades.

Essa é uma das possíveis causas da escassez de mão de obra especializada em Marechal Cândido Rondon e microrregião, conforme apuração realizada pelo Jornal O Presente junto a construtoras e profissionais da área.

Empresas do ramo precisam se redobrar para conseguir trabalhadores em todas as atividades, principalmente de carpinteiro, pedreiro e mestre de obra, para atuarem em obras no município rondonense e cidades vizinhas.

 

DIFICULDADES

O empresário Vitor Giacobbo diz que enfrenta dificuldade para completar o quadro de funcionários. “Existe um déficit de pessoas para trabalhar em todos os níveis, desde o servente até encarregado de obra”, expõe.

Segundo ele, o tempo médio para repor a vaga de determinados profissionais, como carpinteiro e pedreiro, é de 60 a 90 dias, em alguns casos. “Estamos a um longo período nessa situação, e quando sai alguém da equipe, demoramos bastante tempo até encontrar outra pessoa que queira assumir esses cargos”, menciona.

Empresário Vitor Giacobbo: “Como está acontecendo muito treinamento de pessoas para atuar em fábricas e indústrias, automaticamente o número de trabalhadores para construção civil vai ficando cada vez menor” (Foto: Arquivo/OP)

 

FALTAM PROFISSIONAIS QUALIFICADOS

O arquiteto e urbanista Ricardo Leites de Oliveira afirma que muitos clientes reclamam dos poucos profissionais listados acima, e completa a lista com a profissão de encanador.

Ele enaltece a qualidade do trabalho dos carpinteiros que desempenham o ofício há mais tempo, mas, pontua, são poucos. “E estes já estão com a idade avançada”, frisa, emendando: “O que preocupa é que não houve uma qualificação de mão de obra. Infelizmente, não conseguimos formar novos carpinteiros na nossa região”, ressalta.

De acordo com Oliveira, há oferta de cursos de capacitação profissional em áreas como eletricista, o que, segundo ele, é muito positivo. Por outro lado, observa ele, faltam cursos profissionalizantes para outras funções ligadas à construção civil. “Temos uma falta razoável de profissionais qualificados, como encanador, carpinteiro e pedreiro no nosso município” salienta.


Arquiteto e urbanista Ricardo Leites de Oliveira: “A falta desses profissionais causa um impacto muito grande no setor, pois prejudica as obras em execução e o início de novos projetos” (Foto: Arquivo/OP)

 

POSSÍVEIS MOTIVOS

Um dos prováveis motivos para a escassez de interessados em trabalhar na construção civil, na opinião de Giacobbo, pode ser o grande número de vagas de trabalho ofertadas em determinados setores produtivos. Segundo ele, a alta demanda de ofertas está atraindo trabalhadores da construção civil para atividades que exigem menor esforço físico. “As pessoas por natureza procuram melhorar sua qualidade de vida e como esses são serviços mais pesados, elas acabam buscando outras opções no mercado de trabalho”, deduz.

O empresário acredita que a falta de mão de obra pode sofrer também influência do auxílio emergencial pago pelo governo federal a trabalhadores que perderam o emprego por conta da crise econômica causada pela pandemia, apesar de não existirem dados oficiais que indiquem o benefício como uma possível causa. “Talvez não diretamente na construção civil, mas pessoas de outros ramos que não querem deixar de receber o auxílio, caso consigam emprego com carteira assinada”, supõe.

 

DESINTERESSE DOS JOVENS

Para Pedro Haag, empresário do setor, a alta demanda do mercado contribui com a maior parte dessa escassez, além do fato de que nos últimos anos não houve reposição de profissionais da área. “As pessoas mais jovens não se interessam muito no ramo da construção civil”, afirma.

Na opinião dele, o auxílio emergencial contribuiu de forma muito tímida para a falta de trabalhadores no setor da construção civil. “O auxílio emergencial contribui também, mas acredito que muito pouco e impactou mais na mão de obra menos qualificada”, avalia.

Oliveira tem a mesma percepção em relação à questão do benefício emergencial, entretanto, acredita que a influência acontece de forma mais acentuada. “Tem ajudado muito para a falta de mão de obra, principalmente em funções mais simples, como servente”, entende.


Empresário Pedro Haag: “A falta de mão de obra pode atrasar o cronograma de execução de muitas obras, além de aumentar os custos” (Foto: Arquivo/OP)

 

AUXÍLIO EMERGENCIAL

No início de julho, o governo federal anunciou a prorrogação do auxílio emergencial por mais três meses. O benefício acabaria no mês passado, mas, com a prorrogação, também será pago em agosto, setembro e outubro, chegando a sete parcelas que variam de R$ 150 a R$ 375, conforme a composição familiar.

 

BUSCA POR MÃO DE OBRA

Os canais de busca por trabalhadores do setor da construção civil, assim como para outros segmentos, estão se tornando mais variados. Além do tradicional boca a boca, empresas usam as redes sociais, rádios e até mesmo carro de som para oferecer vaga de emprego em diversas atividades profissionais.

Um dos meios mais eficazes e prático é através da Agência do Trabalhador, que faz o “meio de campo” entre o empregador e o empregado.

Outra opção é buscar mão de obra em cidades um pouco mais distantes, todavia, além de onerar o custo de execução do projeto devido a distância, conforme Oliveira, a maioria dessas cidades está com o mesmo problema de insuficiência desses profissionais. “Não vale a pena irmos buscar mão de obra em outras cidades”, enaltece.

 

ROTATIVIDADE

Giacobbo lembra que a rotatividade de funcionários é grande devido à baixa capacitação de muitos profissionais. “Buscamos pessoas na Agência do Trabalhador e por indicação de amigos, mas quase nunca encontramos, e quando conseguimos, eles trabalham um ou dois dias e acabam pedindo para sair”, comenta.

Existe um déficit de pessoas para trabalhar em todos os níveis, desde o servente até o encarregado de obra (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

RITMO REDUZIDO

Basta andar pelas ruas de Marechal Rondon para perceber que a cidade tem vários canteiros de obras, e muitas delas precisaram ser momentaneamente paralisadas nos últimos meses por falta de pessoal.

Giacobbo diz que ainda não precisou interromper o trabalho em nenhuma das obras que está executando, porém, comenta que precisa fazer constantes revezamentos nas equipes. “Tivemos que passar os funcionários de uma obra para outra e reduzimos bastante as equipes”, o que, segundo ele, pode atrasar o cronograma de execução das obras. “Estamos com bastante dificuldade em manter o ritmo”, revela.

Além da falta de trabalhadores para atuarem nos canteiros de obras de Marechal Rondon e região, outro desafio para construtoras e demais profissionais ligados ao setor é a escassez de alguns insumos fundamentais para a construção civil. “Ainda estamos passando um período difícil relativo à falta de alguns materiais e ao aumento exagerado do preço dos insumos”, enfatiza Giacobbo.

 

ATRASO

Segundo o empresário, a falta de mão de obra, somada à demora na entrega de alguns tipos de produtos e à elevação dos preços dos insumos destinados à construção civil, deve ocasionar atrasos na conclusão de algumas obras e aumento no custo final dos imóveis. “Não podemos imaginar que volte ao nível de oferta de mão de obra que tínhamos há cinco anos”, destaca.

Segundo Oliveira, a pouca oferta de mão de obra causa um grande impacto no setor, pois, além do atraso nas obras que estão em andamento, existe dificuldade para iniciar novos projetos. “Tem clientes que aguardam de seis meses até um ano para esperar um determinado construtor que tem uma qualificação muito boa pra iniciar a obra”, compartilha.

O arquiteto observa que esperar pela equipe considerada mais preparada para executar o projeto pode encarecer ainda mais o custo da obra. “As boas equipes de construção civil têm hoje um custo mais elevado porque elas sabem da sua qualidade e que os clientes esperam para construir a sua obra”, menciona.

 

MODERNIZAÇÃO

Assim como na maioria dos setores, a modernização dos equipamentos, ao longo dos anos, possibilitou à construção civil maior rapidez na execução das obras, menor esforço físico e diminuição do número de funcionários. “O que há 30 anos precisava de uma equipe de 20 pessoas, hoje faço com menos de dez o mesmo trabalho”, compara Giacobbo.

O empresário acredita que o investimento em equipamentos mais modernos, que reduzem a quantidade necessária de funcionários nos canteiros de obras, deve se tornar cada vez mais primordial para o setor. “Acredito que quem quiser se manter no mercado terá que estar atento e se adaptando aos novos tempos”, opina.

 

ATRATIVOS

Com a demanda por mão de obra na construção civil maior do que a oferta de trabalhadores, construtoras e demais empresas da área estão precisando oferecer atrativos extras para atrair profissionais, como aumento dos salários.

Conforme Giacobbo, para conseguir atrair determinados trabalhadores, muitas construtoras estão oferendo salários superiores aos indicados pelo sindicato que representa a categoria no município. “Se você quer ter alguém de boa qualidade, o salário do sindicato já não é suficiente. Normalmente se paga acima do salário definido pelo sindicato”, expõe.

Essa medida, segundo o empresário, impacta de maneira direta no custo da mão de obra. “Isto vai influenciar no preço final das obras que estão sendo executadas”, pontua.

 

MÉDIA SALARIAL

A média salarial dos profissionais que atuam em empresas ligadas à construção civil varia de acordo com a atividade desenvolvida pelo trabalhador.

O salário de um servente, sem os descontos previstos em lei, por exemplo, é, em média, de pouco mais de R$ 2 mil para 44 horas semanais de trabalho, além de benefícios, como vale-alimentação, dependendo da empresa.

Um pedreiro ou carpinteiro recebe ao final do mês cerca de R$ 2,8 mil de salário bruto. O valor pode variar dependendo do tempo de serviço na empresa.

Um pedreiro ou carpinteiro recebe ao final do mês cerca de R$ 2,8 mil de salário bruto: valor pode variar dependendo do tempo de serviço na empresa (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

EXPECTATIVA

Giacobbo diz não recordar de anos anteriores com tamanha escassez de trabalhadores do setor da construção civil e revela não acreditar em um aumento do número de profissionais a curto ou médio prazo. “Não observamos nenhuma possibilidade disso melhorar nos próximos meses”, prevê.

Na mesma linha, Oliveira também não acredita que o déficit de profissionais para atuar no setor seja minimizado tão cedo. “Tenho medo de que cada vez mais falte mão de obra qualificada”, salienta.

Para Haag, a tendência do setor da construção civil é continuar aquecido nos próximos anos. “Consequentemente, a escassez tanto de mão de obra quanto de alguns materiais deve continuar”, aponta.

 

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