Não é de hoje que a falta de chuva vem castigando Marechal Cândido Rondon. Dados divulgados pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), referentes a acumulados anuais, mostram que as precipitações mais volumosas aconteceram em 2015, quando choveu 2.868 milímetros. Desde então, o volume registrado na sede da autarquia segue uma curva decrescente ano após ano.
Em 2016 o registro de chuva despencou e o ano encerrou com 2.047 milímetros. No ano seguinte houve uma melhora, com acumulado de 2.529 milímetros, no entanto, nos anos seguintes o volume registrado ficou muito abaixo da média. Os números pluviométricos do ano passado confirmam a diminuição gradativa das precipitações e o ano fechou com 1.343 milímetros no acumulado.
Este ano, até agora, choveu 850 milímetros e devido à pouca previsão de chuva para setembro e o resto do período, provavelmente 2021 terminará com os índices pluviométricos abaixo dos registrados em 2020, segundo prevê o diretor-executivo do Saae, Vitor Giacobbo. “Terá que chover bastante nestes últimos quatro meses para atingirmos o mesmo volume do ano passado”, ressalta.
Ele lembra que o município enfrentou situação semelhante no ano passado, entre os meses de outubro e dezembro. “Em agosto choveu muito aquém do necessário e, por consequência, as nascentes estão diminuindo a cada dia”, evidencia.
Conforme o diretor do Saae, a captação de água nos poços artesianos acontece de maneira controlada para não prejudicar ainda mais as minas d’água. “Estamos tirando o máximo que se pode, mas também não podemos ir além do limite, senão o poço pode secar, o que é muito pior”, pontua.

Diretor-executivo do Saae, Vitor Giacobbo: “A população precisa ficar atenta aos vazamentos. Quando temos uma caixa de descarga que está correndo água o tempo todo, por exemplo, isso representa uma perda de quase dez mil litros no final do mês” (Foto: Sandro Mesquita/OP)
Racionamento
De acordo com Giacobbo, 2020 foi o primeiro ano da história de Marechal Rondon em que foi preciso racionar o fornecimento de água no município praticamente todos os meses por conta da longa estiagem. “Tivemos épocas difíceis, mas o racionamento mesmo só ocorreu no ano passado e este ano”, menciona.
Segundo ele, as informações relacionadas ao potencial hídrico do município sempre apontaram para um volume considerado alto e que atenderia a demanda por bastante tempo. “O volume de água que tínhamos disponível era bom e daria para os próximos 20 anos sem termos problemas, de acordo com o crescimento da população”, expõe.
Contudo, devido ao longo período de estiagem, algo que, frisa, não se pode controlar e é impossível de prever, mudou a realidade. “Não esperávamos uma estiagem desse porte, mas estamos buscando saídas, fazendo investimentos maiores e viabilizando outras fontes de água para solucionar o problema”, salienta.
Desde o início de agosto, o Saae opera o fornecimento em forma de rodízio. O racionamento é feito de maneira escalonada na cidade e a princípio era das 22 às 06 horas do dia seguinte. Posteriormente, o período de desabastecimento foi estendido das 19 às 07 horas.

Saae pede a colaboração dos munícipes na economia de água, evitando usar mangueira para lavar carros, regar jardins e lavar calçadas: uso apenas para as atividades essenciais (Foto: Sandro Mesquita/OP)
Déficit hídrico
Marechal Rondon possui 17 poços artesianos ativos e cinco minas; 15 deles foram perfurados entre 2017 e 2021. Destes, oito estão localizados no interior e sete na sede. Dos que foram perfurados para a sede municipal, apenas dois fornecem água suficiente para serem explorados.
Hoje a capacidade de produção de água no município é de 12 milhões de litros por dia. Entretanto, o consumo em período de altas temperaturas gira em torno na casa de 13 a 14 milhões de litros/dia, resultando num déficit de dois milhões de litros/dia em dias quentes.
Giacobbo ressalta que o momento é preocupante, tendo em vista a previsão de pouca chuva para os próximos meses, justamente por conta de serem meses que apresentam temperaturas mais elevadas. Ou seja, à medida que as temperaturas aumentam, consequentemente aumenta o déficit hídrico do município e a preocupação das autoridades. “Sabemos que o desperdício de água é uma questão de consciência. Isso não pode acontecer. Temos que aprender a usar a água de forma consciente”, enfatiza.
O diretor do Saae diz que a falta de água não acontece somente na região urbana do município, pois o problema se repete nas áreas rurais. As regiões que mais sofrem com a escassez hídrica por serem áreas mais elevadas são a Linha Arara, Três Voltas e Maracanã, Iguiporã e São Roque. “Tem gente que está precisando contratar empresa para levar água de caminhão para os animais. A situação está crítica. Não é só a população da sede que está sofrendo, é o município como um todo”, evidencia.
Segundo Giacobbo, existem propriedades em que as vertentes secaram e os produtores precisam buscar água em outros locais com caminhão pipa. Ele comenta que muitos produtores estão recorrendo ao Saae para tentar solucionar a falta de água, especialmente para fornecer aos animais. “Toda a semana temos pedidos de socorro no sentido de aprofundar poços ou tentar achar outra mina d’água”, relata.

(Fonte: Saae)
Alternativas
Atualmente, o Saae executa medidas paliativas para amenizar o problema de falta de água no município. Uma delas é o poço PTP019, no Arroio Fundo, que já está interligado à rede e em funcionamento, informa o diretor do Saae. “Está funcionando desde outubro do ano passado e consegue produzir cerca de 50 mil litros/hora”, menciona.
Outro poço já perfurado é o PTP020, este mais profundo, próximo à Linha Concórdia/Arroio Fundo, cuja produção de água está estimada em mais um milhão de litros/dia e, de acordo com Giacobbo, deve entrar em operação até o próximo dia 15. “Não vai resolver, mas vai ajudar muito a diminuir o déficit que temos hoje”, aponta.
Ele comenta que além dos 17 poços artesianos, a prefeitura negocia a perfuração de mais poços no município. “Temos uma demanda que o prefeito (Marcio Rauber) solicitou em Curitiba através do Estado, que é a vinda de um equipamento para perfurar mais três poços, dois no interior e o outro na cidade”, revela.
Além dessas medidas, o dirigente menciona que um dos poços que hoje está com 150 metros de profundidade será perfurado até atingir 250 metros. “Faremos este investimento porque foi encontrada água a 230 metros em uma propriedade particular”, ressalta.
Outra obra, mas de maior relevância, será a instalação da Estação de Tratamento de Água Compacta (ETA) na Linha Guarani, estimada para operar em dezembro e com capacidade de captar e tratar 2,4 milhões de litros de água por dia. “Já foi feita a licitação e a empresa que executará a obra foi definida. O contrato foi assinado dia 17 de agosto”, informa.
De acordo com Giacobbo, o prazo para a empresa apresentar o projeto definitivo da obra acaba esta semana. Após essa etapa, acrescenta, a empresa terá 120 dias para entregar a obra. “Isso significa que até meados de dezembro Marechal Rondon terá água tratada captada do Arroio Fundo”, enaltece, ampliando: “Depois que o poço PTP020 estiver funcionando e com a ETA em operação, acredito que no início do ano que vem teremos água suficiente para atender a demanda de hoje”.
A água que será captada do Rio Arroio Fundo custará cerca de 20% a mais para ser produzida. “Mas esse custo não será repassado ao consumidor, ficará por conta do Saae”, garante o diretor.
A autarquia pretende construir também outra estrutura voltada para a produção de água potável, a Estação de Tratamento de Água (ETA), que deve ser edificada em um terreno de esquina, localizado na estrada de acesso ao distrito de Margarida, na altura da entrada para a Linha Concórdia. “A compra da área está em discussão judicial para definir os valores com o proprietário do terreno e assim que isso estiver resolvido será feito o projeto”, expõe.
Diferente da estação citada anteriormente, que é compacta e pode ser transportada para outros locais, essa será maior e, conforme Giacobbo, deve dobrar a produção atual e custará cerca de R$20 milhões. A estimativa é de que a estação capte 150 litros de água por segundo, ou seja, mais 13 milhões de litros/dia. “O projeto foi estudado para ser realizado em duas etapas: a primeira para captação de 75 litros por segundo e após cerca de cinco anos dobrar a captação”, detalha.
Conforme o diretor do Saae, a ETA definitiva é uma obra a longo prazo e, a princípio, não tem previsão para ser concluída. “Tecnicamente, vejo que é possível construí-la em um ano e meio, mas precisamos ter dinheiro. O tempo de construção dependerá do valor disponível pelo Saae e dos aportes financeiros que a prefeitura poderá fazer”, pontua.
FIQUE ATENTO AO RODÍZIO
Região 1: abrange parte do centro e os bairros Boa Vista, Vila Gaúcha; Ana Paula e parte do São Lucas.
Segundas, quartas e sextas-feiras das 19 às 07 horas do dia seguinte. Sábado das 14 às 17 horas.
Região 2: abrange parte do centro e os bairros Alvorada, Espigão, Líder, Marechal, parte do Botafogo, parte do Higienópolis, parte do São Lucas, Primavera, São Francisco e Universitário.
Terças, quintas e sábados das 19 às 07 horas do dia seguinte.

Terreno onde será construída a Estação de Tratamento de Água definitiva, localizado na estrada de acesso ao distrito de Margarida, na altura da entrada para a Linha Concórdia (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Área onde será instalada a Estação de Tratamento de Água compacta, localizada ao lado da Associação dos Técnicos Agrícolas (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Seca que castiga a região há mais de dois anos diminuiu consideravelmente a vazão de água do Rio Arroio Fundo, que em breve deverá ajudar no abastecimento de Marechal Rondon (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Poço artesiano PTP020, que está sendo construído na Linha Concórdia, deve produzir um milhão de litros/dia e entrar em operação até o próximo dia 15 (Foto: Sandro Mesquita/OP)
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