O Presente
Marechal

Fotógrafos de tradição, rondonenses estão no ramo há três gerações

calendar_month 16 de janeiro de 2022
7 min de leitura

Fotografia, segundo o dicionário, significa “arte ou processo de reproduzir imagens sobre uma superfície fotossensível pela ação de energia radiante”. Para a família Schlosser, de Marechal Cândido Rondon, fotografia é muito mais. Trata-se de um legado.

O ato de fotografar está na família há três gerações. Primeiro com Willybaldo Schlosser (in memoriam), depois com o filho Milton e, atualmente, com os irmãos Kauê e Rodrigo. A fotografia perpetuou gerações, atravessou Estados e hoje é um elo que une a família rondonense.

 

O ano da virada

Tudo começou no Rio Grande do Sul, quando Willybaldo Schlosser fotografava na pequena cidade de Horizontina. A paixão pela profissão era tanta que o gaúcho entristeceu quando teve de “esconder” seu negócio. “Minha mãe (Elfrida Schlosser [in memoriam]) pediu que meu pai colocasse a ‘foto’ nos fundos da casa e ele não gostou da ideia, desanimou. Logo depois, ela foi transferida pelos Correios para Marechal Rondon e para cá viemos. Meu pai ficou um tempo sem fotografar”, conta.

Mesmo longe da arte dos cliques, o pai de Milton viu a popularidade dos fotógrafos rondonenses e sentiu seu desejo pelas fotos despertar mais uma vez. “Em 1983 as coisas mudaram. A Foto City pertencia a outra pessoa que queria vender. Minha mãe viu essa oportunidade e tomou as dores do meu pai”, lembra o fotógrafo, que estava no auge dos seus 25 anos, terminando o curso de História (a primeira turma de Marechal Rondon) e “sem rumo”.

De repente, a vida se encaminhou por rumos alegres. “Eu me casei. O meu filho mais velho, Kauê, nasceu. Eu me formei na faculdade e minha mãe comprou a ‘foto’”, lembra.

 

Aprendendo a profissão

Daí em diante, Milton ganhou um rumo e uma importância na consolidação da fotografia na família. Ele ajudava o pai e ia aprendendo a profissão que herdaria. “Você aprende quando busca com humildade. Ir atrás de conhecimento, pegar uma coisa ali e outra coisa lá até entender por onde anda. Acima de tudo, tem que querer”, enfatiza.

Até aprender o caminho é longo e mesmo quando Milton ainda não tinha todas as habilidades da profissão seu Willybaldo dava responsabilidades para o filho. “Meu pai gostava muito de pescar. Ia duas vezes por semana no Rio Paraná e nesses dias eu tinha que cuidar a foto. Eu não gostava muito no começo, mas isso foi me dando ‘cancha’. Fui aprendendo a lidar com gente”, pontua.

 

Laços entre pessoas

Saber lidar com gente, para ele, é o essencial. Quando questionado se gosta da profissão, ele destaca o atendimento como o seu ponto forte. “Eu sempre adorei estar no balcão. A foto também é legal, mas cobrir eventos, por exemplo, é desgastante. No atendimento você conversa, aprende, vê a reação das pessoas diante das fotos e cria intimidade com o cliente. O segredo número um para as coisas darem certo é a relação interpessoal”, assegura.

Para o filho de Milton, Rodrigo, as lembranças mais marcantes que tem da empresa são dos laços de amizade criados. “Os amigos do meu pai vinham aqui conversar, tomar chimarrão. Hoje em dia isso mudou um pouco, se perdeu pelo tempo porque as pessoas têm mais pressa”, compara.

O primogênito, por sua vez, descobriu o atendimento ao público por meio de uma de suas facetas mais complicadas. “Lembro que eu fazia algumas cobranças nos vizinhos próximos para ir aprendendo como lidar com as pessoas. Também entregava algumas fotos nas proximidades”, relembra Kauê, de 38 anos.

 

Outros tempos, outras demandas

Quando começou a fotografar, Milton passava o dia fazendo fotos 3×4. Eram de 30 a 35 pessoas fotografadas por dia e aquilo fazia o negócio sobreviver. “Quando compramos, a ‘foto’ ficava em um lugar especial: na movimentada Rua Santa Catarina, onde a rodoviária fazia muitas pessoas circularem. O pessoal do interior vinha na rodoviária e vinha direto tirar foto para fazer documento. Caia na minha loja”, compartilha, com saudosismo.

Enquanto fazia as fotos, o filho mais novo era quem ficava “no comando” do balcão. “Eu era bem pequeno e já vinha aqui na foto. Às vezes ficava cuidando da frente para o meu pai fazer as fotos 3×4. Caso viesse alguém, eu ia avisar ele e falava: ‘tem pessoa lá na frente’”, lembra Rodrigo.

Milton Schlosser se enche de orgulho ao ver os filhos seguindo a tradição familiar e tem sonhos ambiciosos: “A fotografia pode adentrar uma quarta geração. Quem comanda são os pais, mas nós estamos todos os dias juntos e estou influenciando meus netos desde já” (Foto: Divulgação)

 

Entra digital, sai analógico e celulares assustam

O tempo passou e as demandas da empresa também mudaram. Saíram as câmeras analógicas, entraram as digitais e, logo depois, os celulares, com os quais cada um podia ser fotógrafo de si. “A nossa família se manteve no ramo, vencendo todas as transições. Aqui em Marechal Rondon já chegou a ter 15 fotógrafos grandes estabelecidos, mas foram falindo. Um dos grandes motivos é não terem incentivado seus filhos a continuar”, frisa.

Ao O Presente, o fotógrafo rondonense ressalta que a fotografia passou por muitas fases até ser como é hoje. “Naquela época eu tirava foto de algumas pessoas e ia numa bacia com o revelador. Em uma salinha escura cortava, revelava e colocava no fixador, tudo os dedos dentro dos químicos. Hoje isso é tudo feito com máquina”, compara.

Também a transição da fotografia analógica para digital foi um obstáculo superado. Como as máquinas mais tecnológicas custavam muito, Milton apostava nas intermediárias e seguia até conseguir ter as melhores. “O que ajudou a nos manter no mercado foi que eu me casei com uma costureira. Um dia eu falei: ‘roupa tem tudo a ver com foto’ e, num estalar de dedos, unimos os ramos”, enaltece. A locação de roupas funciona até hoje em conjunto com a empresa de fotos.

Mais tarde, um novo baque ao ramo: os celulares com câmeras embutidas. “No início afetou um pouco, mas, por outro lado, as pessoas passaram a tirar mais foto também, o que nos favorecia. Querem postar fotos bonitas e o olhar do fotógrafo faz diferença. Ainda assim, quem tira foto no celular e quer revelar precisa da gente. A tecnologia é maravilhosa, mas nem todo mundo consegue acompanhar”, considera.

 

De longe, mas de olho

Falar sobre passado, presente e futuro da Foto City enchem os olhos de Milton de orgulho. “Modéstia à parte, eu sou o responsável por isso. Precisa saber conquistar o seu filho, mostrar para ele a importância da tradição e, sobretudo, fazê-lo querer ficar por legítima vontade”, disse ao O Presente.

Hoje, aos 63 anos, Milton deixou o comando da empresa para os seus sucessores, mas, de longe, observa e está pronto para agir. “Enquanto está tudo indo bem, eu não meto a colher. Se tem problema, quero saber o que é e ajudo a resolver. O mais idoso vai colaborando com a experiência daquilo que passou, mas quem puxa a frente são eles”, menciona.

 

A sucessão

Não foi de um dia para o outro que Milton passou as responsabilidades da empresa para os filhos, afirma Rodrigo, de 37 anos. “Aconteceu gradualmente. Estamos aqui desde novinhos, a par de tudo e sabendo como funcionam as coisas. Sabemos como agir e nos aperfeiçoamos. O negócio é não parar, atualizar o que precisa e não deixar de investir”, assegura o filho mais novo.

Os atuais responsáveis por administrar o negócio de família enaltecem que o bom relacionamento é fundamental e está sempre presente. “Assuntos de casa na empresa e da empresa dentro de casa. Ambos acontecem, porque uma vez que você segue uma linha as coisas se cruzam. A gente até se diverte falando de trabalho”, frisa o pai deles.

Persuasivo para o bem, Milton já tem olhos para uma quarta geração da família na fotografia. Ele tem três netos, que desde já animam os espaços da empresa. “A fotografia pode adentrar uma quarta geração. Quem comanda são os pais, mas nós estamos todos os dias juntos e estou influenciando-os desde já. O lugar é nosso. O que pode dar errado? Só depende de fortes relações humanas. Se isso estiver resolvido, o resto vem de carona”, opina o rondonense.

Kauê diz que a sucessão familiar seria algo muito simbólico, mas garante que a decisão ficará a cargo dos filhos. “Trabalhar ao lado do meu filho, assim como eu e meu pai; dizer com orgulho que ele é a quarta geração de fotógrafos da família é algo muito feliz. A fotografia é uma profissão que me trouxe e ainda me traz muitas alegrias”, exalta.

 

O Presente

Clique aqui e participe do nosso grupo no WhatsApp

 
Compartilhe esta notícia:

Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.
Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.