Depois de tempos áureos, a Guarda Mirim de Marechal Cândido Rondon precisou se reinventar, após meses da pandemia da Covid-19 e suas consequências.
“Após a liberação das atividades escolares presenciais, voltamos a nos reunir, mas com baixa demanda. No entanto, vejo isso como natural, porque o nosso período de matrícula acontece de janeiro a julho e, portanto, não houve matrículas por três períodos. Quando retornamos, quase não tivemos adolescentes inscritos. É como se tivéssemos recomeçado do zero”, enaltece o presidente da Guarda Mirim rondonense, Victor Hugo Borgmann.
Para uma entidade com mais de 45 anos de história – atuante desde 1976 -, o recomeço não foi um problema e o desafio logo foi superado. Atualmente, cerca de 110 jovens estão inscritos no programa, incluindo também os já atuantes no mercado de trabalho.
De acordo com o presidente, o público-alvo da Guarda Mirim são adolescentes de 14 a 18 anos. “A maioria dos inscritos tem até 16 anos e neste ano há mais meninos do que meninas”, detalha
Sem fins lucrativos, a entidade tem como objetivo o encaminhamento de jovens ao primeiro emprego por meio de programas de aprendizagem profissional. “Temos uma parceria com o Poder Público municipal, que contrata os aprendizes. Por meio de convênio, parte do valor dos salários dos adolescentes é repassado e cobre as despesas da entidade”, explica Borgmann.
Juventude diferente
Muitos aspectos têm interferido na participação dos adolescentes na Guarda nos últimos anos, ressalta o dirigente. “É um fenômeno da juventude como um todo. Querem cada vez mais benefícios, mas se dedicam menos para conseguir. Como a Guarda é um meio de entrar legalmente no mercado de trabalho, os jovens nos procuram, mas acabam desistindo por causa do regime adotado, que é pré-militar”, expõe.
Apesar dessa tendência, Borgmann ressalta que a procura não diminuiu. “O que percebemos é que há uma maior desistência, justamente pela questão de os adolescentes não quererem passar pelo processo e olharem somente para o objetivo final”, considera.
Regime pré-militar
Com o lema “Ajudar, compreender e respeitar”, as atividades realizadas pela Guarda Mirim seguem regimes pré-militares, em que se destacam os princípios de educação, respeito, hierarquia, disciplina, ordem e comprometimento. “Os jovens são divididos em pelotões e treinam marcha e ordem unida, o que mostra a maneira de se posicionar com respeito aos que comandam, estimulando e, muitas vezes, ensinando a hierarquia e a disciplina. Também ofertamos aos integrantes alguns cursos de formação pessoal básica e de preparação para o mercado de trabalho”, destaca o presidente.
Além de momentos de descontração, jogos e convivência entre os jovens, a Guarda Mirim realiza parcerias com outras instituições para ações públicas, como o plantio de árvores junto ao Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) e cursos junto ao Serviço Social do Comércio (Sesc).

Primeiro emprego
A Guarda Mirim oferece um programa de dois anos e após esse período os contratos de trabalho são renovados. “Temos, em média, 60 vagas no mercado. Ou seja, cerca de 25% dos adolescentes são colocados formalmente pela Guarda no mercado de trabalho. Além disso, o fato de o jovem estar matriculado na Guarda Mirim conta de forma positiva para conseguir trabalho mesmo em empresas não conveniadas conosco, que pedem indicação de inscritos maiores de 16 anos que já podem ser registrados”, menciona, emendando: “O fato de empresas não conveniadas nos procurarem com o argumento que os meninos da Guarda são diferentes nos faz concluir que somos bons influenciadores na formação de boa personalidade e caráter”, evidencia.

Quer fazer parte?
As matrículas para ingressar na Guarda Mirim ocorrem de janeiro e julho, durante o período vespertino. “O adolescente precisa apresentar documentos pessoais, comprovante de residência, matrícula escolar e foto 3×4”, informa o presidente, salientando que a inscrição acontece presencialmente e o menor de idade precisa estar acompanhado pelos responsáveis legais.
A sede da Guarda Mirim de Marechal Rondon está localizada na Rua Rio Grande do Norte, número 333, atrás do Colégio Eron Domingues. O telefone para contato é (45) 3284-2151. As atividades acontecem aos sábados das 13h30 às 15h30.
Mais que pontapé inicial na carreira profissional, Guarda Mirim ajuda a decidir futuros
Desde 2015 e até agora, como voluntário, o rondonense Gustavo Scheneider faz parte da Guarda Mirim de Marechal Rondon, sendo hoje um dos mais antigos integrantes. “Quando me inscrevi já conhecia a instituição. Minha mãe e minhas tias foram mirins e eu ingressei pela vontade de conseguir meu primeiro emprego pelo programa jovem aprendiz”, conta.
Segundo ele, o programa de aprendizagem a que os jovens têm acesso por meio da Guarda Mirim é muito interessante. “Ele dá a oportunidade para ingressar no mercado de trabalho com o seu primeiro emprego e, a partir desse momento, o jovem inicia sua carreira profissional. Além desse primeiro passo profissional, a Guarda Mirim dá todo o suporte junto com o curso de aprendizagem profissional, que normalmente é realizado uma vez por semana no contraturno escolar. O jovem aprende sobre questões técnicas e administrativas, processos e situações que até então não tinha contato, como a questão comportamental, como se portar dentro de uma empresa, como tomar decisões e questões éticas. A instituição, por outro lado, dá todo esse suporte para que isso seja colocado em prática”, relata.

Carreira profissional
Foi tendo todo esse apoio que Scheneider iniciou sua carreira profissional por meio do primeiro emprego como jovem aprendiz. “Logo após ingressar, em 2015, consegui uma vaga na Associação Comercial (Acimacar), com um contrato de dois anos e quando encerrou eu fui efetivado. Esse período de jovem aprendiz trouxe muitas experiências e foi o meu primeiro contato com este ambiente de trabalho. Foi fundamental na escolha da minha profissão”, enaltece.
Depois de um ano como colaborador efetivado na Acimacar, ele novamente alçou novos voos. “Me candidatei a uma vaga de jovem aprendiz em outra empresa. Participei do programa jovem aprendiz da Sicredi, concorri à vaga com dezenas de outros jovens e consegui a oportunidade de trabalhar na sede regional da Sicredi, onde permaneço até hoje. Com certeza o diferencial de toda essa trajetória é o programa jovem aprendiz. Foi o algo a mais que eu tinha para entrar nas vagas”, expõe, acrescentando que mesmo no atual emprego sua vivência profissional o fez ir mais longe: “Percebi uma diferença muito grande em mim e me senti mais preparado para assumir outras situações”.
Moldando jovens
Quanto ao papel da Guarda Mirim em sua vida, Scheneider não poupa elogios: “É de suma importância”. Para ele, fazer parte de algo tão grande gerou muitas oportunidades para seu crescimento pessoal e profissional. “É uma fase em que estamos aprendendo e descobrindo muitas coisas. Então, se deparar com uma instituição que tem princípios tão fundamentais e que oferece oportunidades para o jovem ser inserido no mercado de trabalho mudou a vida. A Guarda Mirim com certeza moldou muito o Gustavo que hoje aqui está”, enfatiza.
É de profunda satisfação estar do outro lado da organização e poder contribuir com outros jovens, salienta o rondonense. “Sou muito grato à instituição e aprendo até hoje na troca de experiências e conhecimento. Quero continuar contribuindo com este trabalho enquanto eu puder”, frisa.
O Presente