Depois de encerrar 2021 com crescimento de 4,6% na economia, o Brasil iniciou 2022 com novos desafios, além de ter que lidar com preocupações antigas e que ainda não se resolveram.
Pandemia, crise hídrica, menor produção agrícola devido à quebra da safra de verão e elevação das taxas de juros receberam uma nova “parceira” neste ano: a guerra no Leste europeu. Apesar de longínquo, o conflito armado tem “bombardeado” as economias mundo afora e por aqui não foi diferente.
“Apesar disso, o crescimento previsto ainda é positivo, em 0,3%, conforme a equipe econômica do Sicredi. Daqui para frente podem surgir novas variáveis, fazendo com que isso oscile para cima ou para baixo, mas essa é a previsão atual. Um movimento para cima seria relacionado à valorização das commodities, que tem chegado a preços históricos”, expõe o diretor executivo da Sicredi Aliança PR/SP, Fernando Barros Fenner.
Tendo em vista que os dados econômicos são apresentados trimestralmente, ainda não há dados para comparar o desempenho do primeiro trimestre deste ano com o de 2021. No entanto, o diretor executivo da Sicredi Aliança diz que se não houvesse guerra “o país estaria em um cenário de retomada”.
E a estagflação?
Diante da atual conjuntura, alguns economistas preveem um cenário de estagflação, isto é, combinação de estagnação econômica e aumento da inflação. Para Fenner, contudo, este é quadro transitório. “É o que nós estamos passando agora, mas é preciso salientar que isso se deve aos muitos estímulos que tivemos para aumentar o consumo durante a pandemia. A economia não reagia bem e agora esses incentivos foram retirados no pós-pandemia. Depois dessa retirada, esperava-se que a inflação diminuísse e o mercado até chegou a sentir isso, porém nos deparamos com a guerra”, pontua, afirmando que o conflito no Leste europeu pressiona o preço dos alimentos e do combustível pelo risco de escassez.
A nova “intempérie” econômica fez com que as previsões de normalização da inflação fossem postergadas. “Acreditamos que este cenário seja transitório e já percebemos que deve haver um declínio de inflação e dos juros”, avalia.
Conforme Fenner, atualmente os economistas conseguem fazer previsões diferentes, comparado à década de 70, por exemplo. “Depois que criaram as políticas econômicas e o regime de metas da inflação, passou a ser possível desenhar cenários e ter uma visão mais realista de curto, médio e longo prazo”, enaltece.
Reflexo local
O dirigente comenta que a inflação alta e as atividades econômicas desaceleradas refletem no consumo das pessoas localmente. “Até mesmo por conta da seca, o montante que é gerado a cada safra não circula com a mesma intensidade e diminui o consumo, principalmente em regiões como a nossa, essencialmente agrícola”, expõe.
Na opinião de Fenner, diante do quadro econômico atual a tendência é a inadimplência aumentar. “Estamos na menor inadimplência da história e, então, é tendência que ela aumente”, prevê.
Previsão de inflação
Antes da guerra, a equipe econômica do Sicredi previa uma inflação entre 4% e 5% em 2022, percentual próximo à meta proposta. “Com a guerra, a previsão para o cenário de inflação passou para acima de 6,7%, o que vai consumir recursos das famílias e apertar mais a economia até que não haja um cessar fogo”, ressalta o diretor executivo.
Segundo ele, a reabertura da economia e o pleno funcionamento de todos os setores da sociedade garantem amparo aos consumidores. “Melhora o poder de compra das pessoas também, porque vamos ter um cenário de desemprego menor. Do contrário, quando há inflação e desemprego altos, as pessoas competem por salários baixos em posições pouco valorizadas, que é o cenário que estamos passando agora”, relaciona.
Juros de 13,25%
No que diz respeito aos juros, Fenner considera que os índices não devem superar as maiores taxas já verificadas no país, de 14%. “Antes da guerra, ajustamos a previsão da taxa de juros para 12,5% com uma queda ainda durante 2022, todavia, com a guerra, essa redução não deve acontecer. Aliás, nossa projeção ficou em 13,25%, podendo chegar em 13,5% em um cenário pouco improvável”, aponta.
Ele frisa que o Brasil perde dinamismo com os juros altos, assim como retrai o crescimento e perde velocidade. “Para 2023 almejamos um cenário com os juros caindo, chegando inclusive a um dígito. Estima-se para o fim do ano que vem que a taxa de juros volte a patamares como 8% e 9%. Isso, claro, se tivermos um cenário construtivo nas eleições”, estima.
Impacto das eleições
De acordo com o diretor executivo da Sicredi Aliança, pelo fato de 2022 ser um ano eleitoral já se percebe certa redução no volume dos investimentos vindos de fora. “Isso acontece porque paira uma incerteza sobre o futuro do país. Existe muita especulação entre oposição, situação e terceira via, o que acaba ‘atrasando’ o investimento de quem tem dinheiro”, explica.
O modelo de reformas, menciona ele, é um bom começo para alavancar a economia brasileira. “Historicamente, nossa economia vem de altos e baixos e crescemos pouco nos últimos 20 anos, sempre abaixo de países emergentes. Acreditamos que com o controle da inflação e a retomada de reformas importantes e das privatizações que foram interrompidas pela pandemia, nossa economia vai caminhar para uma posição melhor”, analisa.
Estabilidade econômica
O cenário econômico, afirma Fenner, está em compasso de espera. “É preciso esperar por uma resolução da guerra no Leste europeu, posto que o conflito gera implicações na economia global; pelo controle da pandemia e pelos resultados das eleições brasileiras”, enumera.
Na opinião dele, a volta da estabilidade econômica depende do modelo de política do próximo governo. “Se for reformista e de privatizações, esse prazo será mais curto devido ao risco Brasil, porque demonstraremos ao mundo que aqui é um lugar bom para investir, de baixo risco e que estamos preocupados com a ‘empresa Brasil’, não apenas com o aspecto social. Se o governante não olhar para o teto de gastos e der flexibilidade a esse controle, pode ser que a nossa ‘volta por cima’ atrase”, avalia.
Qual é a dica para o investidor?
O diretor executivo da Sicredi Aliança destaca que todo plano de investimento depende do perfil do investidor. “O investidor conservador e moderado é aconselhado a continuar em rendas fixas, porque a taxa Selic está alta e tende a aumentar. Até o fim do ano deve haver uma taxa muito atrativa ao investidor de renda fixa”, ressalta.
Aos investidores com perfil de risco, Fenner orienta: é preciso avaliar muito bem o cenário a longo prazo. “Aplicações em bolsa de valores ou fundos de investimentos que têm ações apresentam risco em curto prazo. É preciso fazer uma avaliação da rentabilidade ou dos ativos a longo prazo, de 24 meses para mais”, aconselha.
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