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Hábito de leitura permitiu rondonenses viajarem sem sair de casa na pandemia

calendar_month 5 de fevereiro de 2022
9 min de leitura

Bibliotecas públicas de Marechal Rondon registram bons índices de empréstimos durante o isolamento social

 

A leitura é uma das práticas mais poderosas de conhecimento e resistência. Em meio à pandemia, então, foi uma forma de imaginar e viver os tempos de isolamento, além de contribuir na formação intelectual, organização de ideias e desenvolvimento de argumentos.

E neste período em que a regra era “fique em casa”, o número de leitores aumentou no país. Afinal, um bom livro nos leva a vários lugares sem que a gente deixe o aconchego do nosso lar. De acordo com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), foram 39% em comparação ao ano anterior.

A rondonense Lisiane Figur afirma com todas as letras que os livros foram sua companhia durante a pandemia. “Quando as notícias eram tristes e tensas, eu mergulhava na literatura, pois livros são como o mundo com mundos por dentro”, diz.

Ela foi professora de Ensino Fundamental por 30 anos e desde 2016 está aposentada. Ao longo do ano passado leu 13 livros. O último foi Mentes Roubadas, de Roberto Campos Pellanda. Atualmente, está lendo Terra Vermelha, de Domingos Pellegrini. “Leio diariamente. Tenho até que me policiar para não exagerar e prejudicar meus afazeres diários”, conta, aos risos.

Ela lê vários gêneros, mas seus favoritos são crônicas, romances e livros históricos. “Os de ficção científica não me fascinam muito, embora eu leia às vezes”, relata.

E como ler é viajar sem sair do lugar, Lisiane se permite imaginar e ser quem ela quiser. Aliás, é isso o que a faz gostar de um livro. A rondonense vivencia o personagem como se estivesse em cena. “A leitura é para um intelecto o que o exercício físico é para o corpo”, explica, ao parafrasear Joseph Addison. “A leitura alimenta o intelectual e amplia meus horizontes. Se tornou um prazer. Acho que se o livro chegou até mim, então é porque ele deverá me trazer algum conhecimento. Dificilmente acho uma leitura ruim”, complementa.

Antes da pandemia ela já lia muitos livros e tinha até a ideia de criar um projeto de leitura com idosos. “Mas veio a pandemia e isso não se concretizou”, esclarece Lisiane, acrescentando que o hábito da leitura vem de seu pai, o professor Guilherme Carlos Figur. “Ele tinha uma biblioteca com vários livros. Era um lugar da casa que eu apreciava muito. Mais tarde, na universidade, optei pelo curso de História, que também exigia muita leitura. Tudo isso veio a calhar para que eu tivesse uma nova visão de mundo, abrindo muitos horizontes intelectuais, me tornando mais crítica e analítica”, declara.

Professora aposentada Lisiane Figur: “Leio diariamente. Tenho até que me policiar para não exagerar e prejudicar meus afazeres diários” (Foto: Divulgação)

 

Amor pela leitura

Outro rondonense leitor assíduo é o professor de inglês Bóris Becker Marques. Em 2021, ele leu 17 livros. Atualmente, está na obra “What Does This Button Do?”, que trata-se da autobiografia de Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, que foi uma das suas bandas preferidas da adolescência. “Leio todos os dias. Não somente livros, mas também artigos e coisas de internet. Como eu sou professor de inglês tenho que cultivar este hábito”, explica, citando ser amante da literatura clássica.

Em casa, ele tem uma estante com mais de 250 livros, que vão desde o boêmio e avesso Charles Bukowski, passando pelo universo fantasioso de J.K Rolling e até mesmo o filósofo Friederich Nietzsche. “Às vezes é a capa que me chama a atenção, às vezes eu leio umas dez páginas para ver se eu gosto, ou até mesmo um livro de autoajuda que vai resolver algum problema do meu dia a dia. São livros inéditos, ou algum que li em PDF, mas queria ter a edição física”, expõe Bóris.

Segundo o professor, sua história com os livros vem desde a infância. “Meus pais se separaram quando eu tinha sete anos de idade. Eu e meus irmãos fomos morar com a minha mãe, mas depois de um ano fui morar com meu pai, onde fiquei até os 20 anos de idade. Ele não era uma figura tão presente, então eu passava boa parte do tempo sozinho e lendo. Ele nunca deixou faltar livros, história em quadrinhos, videogame ou computador para mim”, lembra.

Bóris salienta que tinha uma professora que o incentivava a ir à Biblioteca Pública. “Eu ia com meu amigo e a gente pegava dois livros, líamos e trocávamos. Conheci um mundaréu de obras. Enquanto eu crescia, ia mudando os tipos de leitura conforme a minha faixa etária. Eu simplesmente amo ler”, ressalta.

O professor de inglês Bóris Becker tem uma estante em casa com mais de 250 livros (Foto: Divulgação)

 

E como o incentivo à leitura desde a infância é uma forma de melhorar o desenvolvimento dos pequenos, Salete Dreissig estimula a filha Evelin a embarcar no mundo da literatura e da criatividade. Aos nove anos de idade, a garota leu 11 livros ao longo do ano passado. “Adoro livros de história e aventura. Amo ver as imagens e imaginar os personagens. Todo dia vou à biblioteca pegar um livro, aproveitando que também faço várias oficinas lá”, diz a pequena.

A pandemia fez ela se apaixonar pelo universo literário. “Como não podíamos brincar com os amigos na hora do recreio, então os professores davam a opção de ler um livro na hora do intervalo”, relembra.

E a mãe Salete é a grande incentivadora. “Sempre dou livro pra ela. Depois eu peço para ela me contar a história do jeitinho dela. É uma forma de não deixá-la tão entediada durante o isolamento na pandemia. Enquanto ela não termina de ler um livro ela não fica feliz”, explica a matriarca.

Salete Dreissig estimula a filha Evelin a embarcar no mundo da literatura e da criatividade (Foto: Divulgação)

 

Biblioteca Cidadã Alice Weirich

A pandemia fez com que vários setores enfrentassem dificuldades. Em Marechal Rondon, por exemplo, a Biblioteca Cidadã Alice Weirich teve que suspender o atendimento ao público por tempo razoável. “Alguns projetos também não puderam ser realizados, tais como o Dia Nacional do Livro Infantil, Aprendendo com Lendas e eventos alusivos ao Dia da Criança”, explica a responsável Arlete Ruver Lopes.

Após a reabertura, o local teve que se adaptar à nova realidade. “A partir de então, divulgamos nas redes sociais a reabertura somente com o empréstimo e a devolução de livros, tomando todos os cuidados exigidos, como distanciamento, o uso de máscara e de álcool gel”, informa.

Ainda assim, no início a procura por empréstimos foi significativamente reduzida. “Aos poucos os leitores que já tinham o hábito, e alguns que não eram tão assíduos, voltaram a ler. Pelo fato de não poderem sair de casa optaram por frequentar a biblioteca”, explana Arlete.

A média de livros emprestados na instituição é de aproximadamente 450 obras ao ano. As mais solicitadas foram a coleção Diário de um Banana, de Jeff Kinney; a coleção O Pequeno Príncipe em quadrinhos, de Antoine de Saint-Exupéry; e Os Smurfs, de autoria de Stacia Deutsch. Já os livros com mais demanda na literatura adulta foram: Cidades de Papel, de John Green; O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini; e o clássico livro de Jorge Amado, Capitães de Areia.

Biblioteca Cidadã faz em torno de 450 empréstimos de livros anualmente (Foto: Divulgação)

 

Reformas

No ano de 2020, foi realizada uma pintura externa da biblioteca. Em 2021, novamente foi realizada uma remodelação no ambiente para a efetuação de projetos – piloto já desenvolvidos pela Escola de Artes -, que também passaram a ser ofertados pela Biblioteca Cidadã, tais como aulas de violão, circo, coral e teatro. “Para as oficinas de aulas estamos com as matrículas abertas. Interessados podem entrar em contato. O ambiente da sala de literatura infantojuvenil passou por uma reformulação para deixar o espaço mais atraente”, expõe.

A Biblioteca Cidadã Alice Weirich está localizada na Rua São Jorge, nº 540, no Bairro São Lucas. O telefone de contato é o (45) 3254-0739.

 

Biblioteca Martinho Lutero

Assim como a Biblioteca Cidadã, a Biblioteca Martinho Lutero também apresentou redução nos fatores que tangem à frequência de leitores, empréstimos e devoluções de livros. Com a reabertura, todos os cuidados sanitários são seguidos à risca para evitar a propagação do coronavírus.

“Durante a pandemia as pessoas não podiam frequentar o nosso espaço, que antes era ocupado por quem vinha para estudar, ler e se preparar para concursos e vestibulares”, contam as responsáveis pelo local, Elisabete Blein e Damaris Machado Souza.

As duas destacam os livros mais emprestados ao longo de 2021. Na literatura infantil foram a coleção Diário de um Banana, assim como na Biblioteca Cidadã; O Piquenique, de Mary França; e Os Smurfs, de Estácia Deutsch. Já na literatura infantojuvenil a coleção Harry Potter, de J.K Rolling, foi a mais requisitada, seguida pelo livro nacional De Volta Aos Quinze, de Bruna Vieira; e A Mediadora, da autora estadunidense Meg Cabot.

Os adultos também têm suas leituras favoritas. O último Passageiro, de Manuel Loureiro, foi o livro mais emprestado. Depois vem Morto Até o Amanhecer, de Charlaine Harris; e o romance A Última Música, do queridinho da literatura Nicholas Sparks.

“Inúmeras pessoas têm o hábito de ler na nossa cidade, o que é positivo por demonstrar o bom nível cultural e educacional. E os gostos são variados. Literatura brasileira, romance, mistério, terror, ficção e tudo mais”, salienta Elisabete. “Fica perceptível que deixar de lado o hábito pela leitura inibe a criatividade e a inovação, além de evitar a formação de cidadãos com senso crítico”, complementa Damaris.

A Biblioteca Martinho Lutero está localizada na Rua Sergipe, nº 255, ao lado da Câmara de Vereadores, no centro da cidade. O telefone de contato é 3284-2913.

 

 
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