O atual cenário na macrorregião Oeste do Paraná, com leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) praticamente lotados todos os dias e enfermarias quase no limite da capacidade de atendimento, trouxe à pauta novamente a possibilidade do Hospital de Campanha de Marechal Cândido Rondon entrar em funcionamento.
O Hospital de Campanha está instalado desde maio no Centro de Eventos junto ao Parque de Exposições e tem capacidade para 76 leitos (enfermaria). A estrutura do local foi adaptada com a instalação de divisórias, portas, chuveiros, torneiras, pintura de paredes, rede de oxigênio, locação de estandes, aquisição de enxoval como lençóis, travesseiros e cortinas. A Associação Comercial e Empresarial (Acimacar) pagou o material utilizado para as divisórias necessárias para a montagem dos 76 leitos da unidade hospitalar emergencial.
“Se houver a necessidade de uma única pessoa precisar de leito de enfermaria, podemos abrir o hospital de campanha. Ele está lá à disposição da população”, afirmou o prefeito Marcio Rauber ao O Presente.
Em entrevista ao O Presente, na quinta-feira (25), a secretária municipal de Saúde, Marciane Specht, enaltece que o hospital está pronto para ser utilizado a qualquer momento. “Se tiver que abrir, vamos abrir. Montamos ele por precaução e diante do cenário atual, com a taxa de uso de leitos na Macro Oeste com 99% de ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e 84% de ocupação de leitos de enfermaria até quarta-feira (24), se precisar, ele está pronto para uso, caso os nossos pacientes não tenham mais acesso ao sistema de saúde por falta de leitos”, destaca.
Marciane diz que, se necessário, a ala Covid da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) será utilizada para atendimento de pacientes com necessidade de ventilação mecânica e cuidados intensivos, possibilitando a manutenção da vida do paciente até que ele possa ser encaminhado ao serviço de referência regional. “O efeito cascata pode acontecer com a lotação máxima das UTIs, lotação máxima de leitos de enfermaria e a taxa de ocupação da UPA no limite, servindo como ambiente de suporte ventilatório ou de enfermaria Covid”, menciona.
Segundo a secretária, o panorama das vagas regionais é acompanhado constantemente. “Acompanhamos diuturnamente. Um dos primeiros grupos que acesso pela manhã é o da Macro Oeste, que nos permite ter um parecer de como será o dia em relação às possíveis vagas e ao esgotamento do sistema”, comenta.

Secretária de Saúde, Marciane Specht: “O hospital foi projetado como suporte complementar, de forma que nenhum rondonense fique sem amparo em termos de leitos de enfermaria. Quando o paciente positivar pela doença e a situação se agravar, ele terá um local de internamento” (Foto: Joni Lang/OP)
EQUIPE PREPARADA
Ela salienta que a equipe da Saúde está preparada e orientada para uma eventual entrada de funcionamento do Hospital de Campanha. “Fizemos visita para conhecer a estrutura e todos estão preparados, caso haja necessidade do hospital ser aberto. A quantidade de leitos dependerá da demanda”, informa, acrescentando que a equipe que atuará no hospital, caso ele seja colocado em funcionamento, será composta por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, pessoal da limpeza, apoio e segurança.
RETAGUARDA
De acordo com Marciane, o Hospital de Campanha foi projetado como suporte complementar, a fim de que nenhum rondonense fique sem amparo em termos de leitos de enfermaria. “Quando o paciente positivar pela doença e a situação se agravar, terá um local de internamento. Caso houver indicação médica na UPA, automaticamente ele é ‘clicado’ na central de leitos para transferência para as unidades de referências, mas se o sistema estiver na sua capacidade máxima de lotação, ou seja, taxa de ocupação em 100%, sem condições de receber pacientes em UTI e enfermaria, terá o hospital de campanha como retaguarda com profissionais de saúde capacitados”, assegura.
Em relação aos leitos de UTI no município pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a secretária de Saúde diz que há dez instalados na UPA, dois incluídos recentemente pela demanda especial de suporte ventilatório. Até o meio-dia de ontem (25), cinco deles estavam ocupados e três pacientes em ventilação mecânica aguardavam vaga para as referências.
COLABORAÇÃO
Marciane pede para que a população colabore quanto ao cumprimento dos protocolos de prevenção à Covid-19, como usar máscara, lavar as mãos e passar álcool gel e evitar aglomerações, problema registrado nos municípios da região. “O que a população precisa é se conscientizar que o vírus não tem fronteiras, não tem cor, raça e nem condição socioeconômica. A conscientização e a sensibilização são a única forma de ultrapassarmos esse momento de pandemia. O Poder Público, através da Secretaria de Saúde, implementou vários fluxos de atendimento, estruturou as unidades e ampliou o atendimento. As equipes estão cansadas e por isso solicitamos prudência e bom senso a todos no que diz respeito às medidas sanitárias em vigência. O colapso somente será evitado se todos fizerem seu papel enquanto cidadãos, de seguir as orientações e restrições impostas pelos órgãos de saúde. Tudo isso está sendo feito em prol da saúde de cada cidadão”, ressalta.

Leito Covid preparado no interior do Hospital de Campanha
CALL CENTER
Ela lembra que em caso de sintomas a pessoa não deve ir diretamente à UPA ou em uma unidade de saúde. Inicialmente deve manter contato com o call center, pelos números (45) 99152-1700 ou (45) 99113-9532, com atendimento das 07 às 19 horas, de segunda-feira a domingo. “Dependendo da situação apresentada, o paciente será orientado via telefone (telemedicina) ou será orientado a se dirigir para atendimento na UPA ou unidade de saúde mais próxima de sua residência”, explica.
NOVAS MEDIDAS
Conforme a secretária, novas medidas para conter o avanço da Covid-19 podem ser implantadas no município. “Isso está sendo analisado para ser discutido na reunião do Centro de Operações de Emergências (COE) prevista para o final da tarde de hoje (26). Até lá também deve haver um novo decreto do Estado”, comenta.
VACINAÇÃO
Seiscentas novas doses de vacina contra o coronavírus devem chegar ao município até a data de hoje. “Elas serão destinadas para imunização de idosos entre 80 e 89 anos”, relata.

Área interna do Hospital de Campanha: 76 leitos estruturados
PRÉ-COLAPSO
Na opinião de Marciane, o atual cenário regional pode ser avaliado como de pré-colapso no sistema de saúde. “Isso tem gerado extrema preocupação na 20ª Regional de Saúde, da qual Marechal Rondon faz parte, bem como em nível de Estado. Em reunião na CIB (Comissão Intergestores Bipartite) Estadual esta semana, o doutor Vinícius Filipak, da Sesa (Secretaria de Estado da Saúde), expôs que deverá haver ampliação de novos leitos de UTI em Foz do Iguaçu, mas a quantidade não foi definida”, revela.
Todavia, ela observa que somente o aumento de leitos por si só não resolve a situação pandêmica. “Não há mais capacidade humana de atuação para atendimento por parte das equipes. É sabido que a saúde não se faz apenas com a ampliação de leitos, seja estrutura física e equipamentos. É fundamental termos profissionais de saúde para atender com condições os pacientes que serão encaminhados para as referências”, enaltece.
Ela reitera que a capacidade de leitos, equipamentos e recursos humanos está no limite. “A única forma que temos é a conscientização e a sensibilização de toda a população, indiferente de local. Não basta uma cidade restringir e fiscalizar se a outra não seguir as normas e os decretos do Estado e não fiscalizar. Isso precisa ser de fato um conjunto de ações integradas e fiscalizadas, por isso peço para as pessoas que neste momento se conscientizem e contribuam ao máximo para que possamos ultrapassar esse momento crítico”, enfatiza.
PREOCUPAÇÃO
A variante do coronavírus, presente em vários Estados do país, inclusive no Paraná (Curitiba), é um fator a mais para preocupação. “A Capital e a Região Metropolitana acabam sendo referências para a grande maioria dos nossos municípios e o deslocamento das pessoas, mesmo que para as situações de saúde, pode ser um dos motivos para esse aumento vertiginoso do número de casos”, alerta, emendando: “É preciso fazer análise também quanto à situação ocorrida em semanas anteriores, quando o Paraná deu suporte ao Estado do Amazonas, trazendo inúmeros pacientes para atendimento, o que também pode ter ocasionado esse aumento gigante do número de casos no nosso Estado”, avalia.
Ela alerta que essa variante tem um poder de transmissão significativamente maior se comparada às variantes anteriores, com aumento estimado de transmissibilidade de até 70%. “Ressalta-se a importância das medidas de controle e prevenção da disseminação do vírus já estabelecidas, especialmente na quarentena para pessoas procedentes de locais de risco e nesse caso necessitamos mais uma vez a ajuda de toda a população brasileira que esteja retornando do Reino Unido, Grã-Bretanha e Irlanda do Norte nos últimos 14 dias que poderão entrar no país com a obrigação de realizar quarentena de 14 dias. Ainda mediante a identificação da nova variante em Manaus, pessoas procedentes daquela Capital nos últimos 14 dias também deverão realizar quarentena pelo mesmo período”, salienta.

Centro de Eventos do Parque de Exposições abriga o Hospital de Campanha desde maio (Foto: Joni Lang/OP)
ESCOLHA DE PACIENTE
Marciane afirma que, diante do atual quadro, pode acontecer de, em breve, os profissionais da saúde terem que escolher qual paciente ocupará um leito de UTI por não haver disponibilidade para todos. “Essa pauta já foi trazida em várias discussões em nível regional, pois estivemos em momentos anteriores também com superlotação de leitos nas referências hospitalares, nos hospitais municipais e também nas UPAs em diversos municípios da regional de saúde. Esse protocolo foi apresentado em reuniões e debatido sobre seu uso ou não, também já apresentado em discussões no Grupo de Trabalho da Rede de Urgência e Emergência”, comenta. “Nenhum profissional de saúde gostaria de utilizar este protocolo, por isso é solicitado mais uma vez que toda população faça sua parte de conscientização e sensibilização na causa contra a Covid-19. A chegada das vacinas não significa que a doença acabou. Teremos um longo caminho a percorrer até que a grande maioria das pessoas estejam vacinadas”, destaca.
PRÓXIMO DECRETO
O novo decreto do Estado publicado na sexta-feira (26) é ainda mais restritivo e os municípios acabaram acatando, uma vez que a situação da saúde no Paraná até quinta-feira era de pré-colapso. “Isso está evidente nos boletins diários emitidos pela Macro Oeste Cascavel, onde ontem (quinta) a taxa de ocupação de leitos de UTI estava em 98% e leitos enfermaria em 83%, com total de 42 pacientes à espera por leitos de UTI e 51 pacientes na espera de leitos de enfermaria”, finaliza.
O Presente