O comércio tido como não essencial está fechado desde sábado (27) em praticamente todo o Paraná, após decreto emitido na última sexta-feira (26) pelo governador Ratinho Junior. A medida objetiva evitar um colapso no sistema de saúde, uma vez que a taxa de ocupação de leitos Covid e de unidade de terapia intensiva (UTI) beira a totalidade em todas as regiões do Estado.
Além de exclusivamente o comércio essencial poder abrir as portas, tais empresas estão obrigadas a manter os cuidados com higienização, uso de álcool gel, distanciamento, entre outros. O Estado ainda ampliou o toque de recolher, que vigora das 20 às 05 horas do dia seguinte. O decreto segue até segunda-feira (08), podendo ser prorrogado, caso haja necessidade.
Procurados por O Presente, lideranças rondonenses reconhecem se tratar do pior momento da pandemia de coronavírus desde março do ano passado e entendem que a medida foi adotada para impedir o colapso total do sistema de saúde, porém avaliam que o fechamento do comércio poderá acarretar em impactos severos ao setor empresarial, gerando prejuízos às finanças e resultando em desemprego.
CRÍTICA COMPREENSÍVEL
O prefeito Marcio Rauber diz ser compreensível que a maioria dos empresários e inclusive os seus colaboradores critiquem o novo fechamento do comércio, por ser uma medida que ninguém gostaria que fosse tomada, mas o momento exige esse cuidado. “Por maioria absoluta na semana passada a Amop (Associação dos Municípios do Oeste do Paraná) decidiu seguir as recomendações do decreto estadual. O que se torce é para que o pico de casos, considerando os números assustadores da última semana, recue e se possa relaxar esse fechamento. É o momento que a responsabilidade de cada um deve estar acima de tudo e o que havia ao alcance do governo é tentar fazer esse número baixar porque o sistema de atendimento na saúde está estrangulado. Essa é a grande preocupação”, pontua.
Em relação ao impacto que esse novo fechamento pode causar aos empresários e à economia, o prefeito declarou torcer para que seja o menor possível. “Por isso que se cada um fizer sua parte nós vamos conseguir superar. Estamos à espera para o que essas medidas vão provocar em termos de números para poder relaxar o fechamento. Acredito que o governo possa prorrogar o lockdow dependendo dos números, mas a torcida é para que os números permitam não prorrogar esse fechamento”, destaca.
Segundo Rauber, a orientação interna desde sexta à tarde é de que todas as secretarias municipais se organizassem e fizessem um rodízio, uma escala de funcionários, a fim de aumentar o distanciamento entre os servidores. “Os serviços não param e muitas atividades não podem parar. O atendimento externo está fechado, mas o interno continua com escala de servidores. Ficamos na torcida para que isso seja passageiro e consigamos contornar esse que está se apresentando até agora como o pior momento da pandemia”, enaltece.

Prefeito Marcio Rauber: “Torço para que o impacto que esse novo fechamento pode causar aos empresários e à economia seja o menor possível. A torcida é para que os números permitam não prorrogar esse fechamento” (Foto: Arquivo/OP)
ORGANIZAÇÃO DA RETOMADA
A avaliação do presidente da Associação Comercial e Empresarial (Acimacar), Ricardo Leites de Oliveira, é de que os efeitos da pandemia chegaram com força total na região. “Nós não temos mais leitos de UTI para atender toda a população não só de Marechal Rondon, mas de toda a Macrorregião Oeste e de todo o Estado. Isso fez com que o governador decretasse a proibição das atividades não essenciais durante o período de dez dias. Infelizmente isso vai impactar bastante na economia local, na região e no Estado”, pontua. “Nós entendemos que o governador editou o decreto pensando na saúde das pessoas, mas vai impactar financeiramente nas empresas. Nós sabemos que não são nas empresas que as pessoas estão se contaminando, mas, sim, em aglomerações, eventos e festas fora do horário de trabalho”, amplia.
Oliveira prevê que se a situação pandêmica de pré-colapso na saúde paranaense não melhorar durante estes dias de lockdown, há possibilidade do governador prorrogar o decreto. Por isso, ele destaca o quão importante é a colaboração de toda a comunidade em respeito às medidas restritivas e sanitárias. “Cada um precisa fazer a sua parte. Temos que batalhar para evitar a prorrogação”, ressalta.
De acordo com o presidente, a Acimacar ainda não tem uma posição definida e se reuniu hoje (02) “com o prefeito para analisar de que forma poderemos organizar a retomada das atividades sem deixar de respeitar o decreto estadual e fazendo com que as empresas também possam trabalhar de maneira correta”.

Presidente da Acimacar, Ricardo Leites: “Nós sabemos que não são nas empresas que as pessoas estão se contaminando, mas, sim, em aglomerações, eventos e festas fora do horário de trabalho. Vamos batalhar para evitar a prorrogação do lockdown” (Foto: Arquivo/OP)
PREÇO CARO
O presidente do Sindicato do Comércio Varejista (Sindicomar), Ademar Bayer, entende que a decisão drástica do Estado veio para frear o aumento significativo da demanda do sistema de saúde do Paraná em função de complicações da Covid-19 em pacientes positivados e do crescente número de confirmações de casos, fator que, segundo ele, causou extrema preocupação nos governantes. “Contudo, novamente, quem está pagando caro por esta conta é o empresário do comércio de bens, serviços e turismo, empresário este que procurou se adaptar de todas as formas para conter a disseminação do vírus, fazendo valer todas as orientações até então sugeridas e impostas. Este novo fechamento, para o mesmo setor já penalizado anteriormente, num início de mês, com impostos, folhas de pagamento e outros compromissos batendo à porta, com certeza vai impactar de forma muito triste na nossa economia e possivelmente teremos um aumento na taxa do desemprego e o fechamento de pequenos comércios”, alerta.
Para Bayer, o lockdown em vigor, previsto para encerrar segunda-feira, deve ser estendido. “É um prazo curto para ter impacto positivo na demanda do setor de saúde. Com dor no coração, a orientação do Sindicomar é de que os empresários respeitem o decreto, para que não sofram outras punições financeiras ainda mais severas para seus empreendimentos. Vamos juntos sensibilizar nossos representantes da importância de ampliar os horários de atendimento do comércio visando criar alternativas de horários e diminuir a concentração de pessoas nos estabelecimentos e não apenas fechar as portas”, salienta.
Ele pontua que o momento exige a compreensão e a colaboração de todos, mas afirma: “sou defensor de quem gera empregos, renda e impostos e, desta forma, sou totalmente contra o fechamento”.

Presidente do Sindicomar, Ademar Bayer: “Entendemos que o momento exige a compreensão e a colaboração de todos, mas sou defensor de quem gera empregos, renda e impostos e, desta forma, totalmente contra o fechamento” (Foto: Arquivo/OP)
DECEPÇÃO
A vice-presidente do Comércio da Acimacar, empresária Geovana da Silva Krause, enaltece que a situação da saúde pública está crítica e que o Brasil vive o auge de uma nova cepa, mas diz que medidas como o lockdown são pesadas ao empresariado. “Existe, sim, uma decepção muito grande dos empresários, pois entendemos que todo serviço é essencial e nós, empresários, fazemos a nossa parte. Nós cuidamos com o uso de máscaras, seguimos todas as orientações, mas infelizmente a população não se ateve às normas. Muita gente não evitou aglomerações. Há muita gente viajando, fazendo festas e deixando de cuidar no ambiente familiar e com isso acaba colaborando para a propagação alarmante do vírus. Hoje a classe produtiva está pagando por um descaso da grande maioria”, lamenta.
Geovana considera o fechamento das atividades tidas como não essenciais pelo governo uma injustiça com os empresários. “Nós temos que pagar funcionários e manter as empresas em pé. Entendemos que se fizesse um lockdown deveria ser de forma generalizada, fechando instituições bancárias, fechando tudo e pedindo para que toda população ficasse em casa, pois temos parte funcionando e parte não. As pessoas estão circulando e vemos que muita gente não está levando a sério e não se cuida, o que nos preocupa porque existe a possibilidade da prorrogação do lockdown. Muitas empresas estão com dificuldades e sabemos que economicamente teremos grandes problemas. Vai aumentar o desemprego porque muitos empresários simplesmente vão ter que fechar suas portas”, evidencia.
“Sabemos da gravidade do problema hoje, em que muitas pessoas estão morrendo. Infelizmente nosso país tem um descaso com toda questão de saúde. Estamos vivendo isso há um ano e o que foi feito durante este um ano? Essa realidade outros países já passaram, nós sabíamos que isso poderia acontecer, mas não foi tomada nenhuma posição por parte das lideranças para solucionar e prever o não fechamento do comércio nesse momento. É desesperadora a situação do empresário e existe grande revolta sim, pois entendemos a gravidade da saúde, mas também sabemos da gravidade financeira das nossas empresas”, amplia Geovana.
Segundo ela, é mais um início de mês para pagar impostos, contas e as empresas estão impedidas de produzir. “O grande problema é que nos impedem de todas as formas, não deixando nem a gente trabalhar com portas fechadas. É complicado! Como empresário a gente desanima porque vê que na hora de pagar o tributo é você quem faz a economia rodar, porém na hora de ser auxiliado pelas lideranças colocando medidas que permitam produzir a gente infelizmente não tem o apoio que precisava. Mas vamos torcer, cuidar um do outro e o meu pedido como empresária é para que a população se cuide, siga as normas, use máscaras, que todos ajudem para que vençamos esse vírus e possamos retomar as atividades o quanto antes para que nosso país não quebre, para que nossa cidade e nossas empresas não quebrem. Nós precisamos de produtividade e isso só é possível com a colaboração de todos”, finaliza.

Vice-presidente do Comércio da Acimacar, Geovana Krause: “Existe, sim, uma decepção muito grande dos empresários, pois entendemos que todo serviço é essencial e nós, empresários, fazemos a nossa parte. A classe produtiva está pagando por um descaso da grande maioria” (Foto: Arquivo/OP)
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