Vinte e três alunos do 1º ao 5º ano da rede municipal de ensino de Marechal Cândido Rondon têm dislexia. Embora o número seja considerado baixo quando comparado aos 3,6 mil alunos matriculados nas 17 escolas municipais, ele traz preocupação à Secretaria Municipal de Educação.
A dislexia é um distúrbio genético que dificulta o aprendizado e a realização da leitura e da escrita. O cérebro, por razões ainda não muito bem esclarecidas, tem dificuldade para encadear as letras e formar as palavras, e não relaciona direito os sons às sílabas formadas. Como sintoma, a pessoa começa a trocar a ordem de certas letras ao ler e escrever.
Com a finalidade de debater o tema, a Secretaria de Educação promove no próximo dia 10 uma mesa-redonda, quando colocará em pauta a identificação precoce, avaliação, o atendimento e os impactos da dislexia na vida escolar e social. O encontro acontecerá às 19h30, na Associação Comercial e Empresarial (Acimacar), tendo os profissionais da educação e os pais desses alunos como público-alvo.
Segundo o fonoaudiólogo da equipe multidisciplinar da Secretaria de Educação, Fagner Mallmann, a Semana da Dislexia será lembrada de 07 a 13 de outubro no Brasil, com o slogan “Inclusão e aprendizagem para todos”. “Nós pensamos em uma mesa-redonda para conversar com os professores sobre identificação precoce até avaliação desses alunos que serão atendidos depois disso. É preciso pensar como as escolas podem se organizar em relação à inclusão desses alunos e oferecer condições para que eles aprendam a ler, escrever e interpretar”, ressalta.
Mallmann diz que durante o evento será trabalhado sobre a caracterização da dislexia, o que ela é de fato, o que o distúrbio implica na vida dessas crianças e adolescentes, bem como o que existe hoje de tratamento através da terapia fonoaudiológica e dos instrumentos utilizados para melhorar a leitura dessas crianças. O debate será conduzido pelo fonoaudiólogo Mallmann, pela psicóloga Débora Pesavento e pela psicopedagoga Eliane Grisa. À psicóloga Débora caberá abordar as questões emocionais envolvidas nesse processo de dificuldade de leitura e escrita. Já a psicopedagoga Eliane vai discorrer sobre os desafios da aprendizagem da criança que apresenta dislexia.
“Qual o papel da escola em relação a isso, como o professor pode ser um mediador e um facilitador da aprendizagem, quais adaptações devem ser feitas em âmbito escolar, que tipo de atendimento a criança tem direito conforme a Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Também haverá uma conversa mais direcionada aos pais. Como eles, pais, podem auxiliar, porque geralmente a criança que tem dislexia é muito frágil, tanto no processo de ensino e aprendizagem como emocionalmente. Família e escola devem ser parceiras neste processo”, enfatiza Eliane.
No caso de Marechal Rondon, os 23 alunos da rede municipal que têm dislexia frequentam a sala de recurso multifuncional. Muitos deles fazem terapia fonoaudiológica com Mallmann, enquanto outros não frequentam a sala devido a outro sistema de atendimento, via plano de saúde. Nas dez salas de recurso multifuncional ocorre o direcionamento do processo de ensino e aprendizagem a partir da avaliação com a criança, do grau em que ela se encontra utilizando recursos e metodologia específicos para possibilitar o aprendizado da leitura e da escrita.
REFERÊNCIA
Para que o diagnóstico da dislexia seja feito corretamente, todas as crianças precisam passar pelo programa Resposta e Intervenção (RTI), que consiste na aplicação de atividades em sala de aula pelo professor e depois por um protocolo com as crianças e quem não evoluir retorna ao RTI.
“O RTI é a chave para a gente fazer o diagnóstico diferencial e hoje 630 crianças são contempladas dentro do programa. Nossa cidade é referência nacional na prevenção e intervenção precoce da dislexia na educação pública, com um programa largamente utilizado nos países de primeiro mundo. Aqui todas as escolas desenvolvem o programa RTI”, enfatiza Mallmann, acrescentando: “A importância do projeto é justamente a intervenção, porque previne futuras dificuldades. A ideia é trabalhar o desenvolvimento de novas habilidades na criança antes que o problema se instale. Este programa está em plena atividade nas 17 escolas municipais”.
DIAGNÓSTICO
A psicopedagoga Eliane destaca que a identificação da dislexia ocorre no processo de alfabetização, no 2º ou 3º ano por meio da preocupação quando a criança apresenta dificuldades na leitura e na escrita. “Se este aluno do 2º ou 3º ano ainda não adquiriu o processo de leitura e escrita e encontra dificuldade significativa, já passou pelo processo de RTI, frequenta aulas de reforço e salas de apoio e ainda a dificuldade persiste, nesse caso a escola encaminha para nós. A gente faz o processo de avaliação das habilidades acadêmicas da criança para verificar e investigar quais são os indícios que causam essa dificuldade na criança. Se dentre as causas há sinais de transtorno de leitura e escrita, primeiramente a gente encaminha a criança ao fonoaudiólogo, que faz a avaliação de identificação ou descarta se for negativo”, explica.
Entre as características do disléxico está a falta de fluência a partir da leitura silabada, lenta, sem ritmo e sem entonação. “Há dificuldades na escrita e na interpretação. Como a leitura envolve todas as áreas, às vezes a criança apresenta dificuldades em outras disciplinas”, detalha a profissional.
Mallmann menciona que quando a criança chega até ele já com a demanda da psicopedagoga, é conversado sobre o que foi levantado na avaliação. “Conversamos com os pais e levantamos dados do desenvolvimento da linguagem oral. Uma criança que teve dificuldades para falar pode ser um sintoma de uma dislexia aos sete ou oito anos. São aplicados protocolos validados em nível de Brasil, que avaliam as principais áreas da leitura e da escrita. É necessário avaliar como a criança nomeia objetos e a velocidade disso. É preciso avaliar se a criança consegue identificar o nome e o som das letras, o que a gente chama de consciência fonológica. A partir disso é feito o diagnóstico, se essa criança é uma criança com dislexia pura, que é o transtorno de leitura, ou se ela pode ter um transtorno global de aprendizagem, leitura, escrita, matemática, atenção, fala ou fica na questão da dislexia. Se a criança pode ter uma questão grave, emocional cognitiva, ela é encaminhada para um psicólogo, mas antes ao pediatra para analisar e medicar o Transtorno de Atenção e Hiperatividade (TDAH), porque nesse último caso não é dislexia”, expõe.
Em se concretizando o diagnóstico de dislexia, a criança passa a fazer terapia com intervenção fonoaudiológica e psicopedagógica. “O psicopedagógico é feito nas salas de recursos das escolas, já o fonoaudiológico é feito comigo mesmo. Nós trabalhamos consciência fonológica, fluência de leitura, nomeação automática rápida, a própria escrita, as regras do Português para a criança aprender isso e se efetivar na escrita, bem como a própria compreensão da leitura. A terapia contempla essas áreas para a criança poder interpretar o mais próximo do esperado, porque a dislexia não tem cura, ela é um transtorno neurobiológico”, expõe. “Com os modelos formais adotados nós observamos melhoras nos leitores da quarta etapa que já leem, conseguem escrever e compreender. Estas mudanças positivas também são percebidas nas escolas que se adequaram à proposta”, amplia.
O Presente

Fonoaudiólogo e psicopedagoga da equipe multidisciplinar da Secretaria Municipal de Educação, Fagner Mallmann e Eliane Grisa: “Nossa cidade é referência nacional na prevenção e intervenção precoce da dislexia na educação pública, com um programa largamente utilizado nos países de primeiro mundo. Aqui todas as escolas desenvolvem o RTI” (Foto: Joni Lang/OP)