Modelo de produção que tem se destacado ao longo dos últimos anos, a agricultura orgânica preza pela manutenção de toda vida natural. Afinal, o equilíbrio está justamente na convivência entre os diversos seres que compõem um ambiente.
Em 2021, o Paraná ficou em evidência em quantidade de agricultores orgânicos certificados, à frente de Estados com maiores áreas territoriais, como São Paulo, Bahia e Maranhão.
Somando 3.752 produtores certificados, o Estado fica atrás somente do Rio Grande do Sul, com uma diferença de 192 certificações emitidas. O modelo de produção é caracterizado por não utilizar fertilizantes sintéticos, agrotóxicos, sementes modificadas, reguladores de crescimento animal e intensa mecanização das atividades, visando reduzir os impactos ambientais, além de cultivar produtos alimentícios mais saudáveis.
De acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Marechal Cândido Rondon possui 38 produtores orgânicos. Livar Josué Kaiser é um deles. Logo ao clarear do dia, por volta das 06h30, ele está de pé cuidando de sua plantação. Em seus três hectares de terra, cultiva hortaliças em geral, folhosas e brássicas, tomate, pepino, tubérculos e abóbora.
Agricultor há 24 anos, Livar conta que a produção é relativa e depende do clima. No inverno é mais fácil, segundo ele, já que a temperatura favorece a produção e a baixa das pragas. Porém, no verão, a situação se inverte. “No inverno são produzidas em torno de duas mil unidades de verde, já de tomate são produzidos quatro mil quilos mensais. No verão, esses valores caem pela metade”, comenta.
O tomate, por sinal, é um dos mais procurados pelos consumidores. No entanto, devido à estiagem, o agricultor relata que a produção do legume foi praticamente paralisada. “Em função do forte calor e da alta infestação de pragas, a produção deu quase nada. Quase tudo o que plantamos foi cozinhado pelo calor”, menciona o agricultor, que fornece seus produtos na Associação Central de Produtores Rurais Ecológicos (Acempre), restaurantes e também nas refeições escolares do município, além de vendas diretas.


Agroindústria orgânica
Otmar Gabe trabalha com orgânicos desde 1982. Ele é o fundador da Orgânicos Paullinia (Moinho Ecológico Família Gabe), a primeira agroindústria certificada orgânica da região e a única de alimentos. “Começamos com arroz, milho e guaraná, ainda no Mato Grosso do Sul. Quando retornamos ao Paraná, em 1991, havia apenas 22 produtores de orgânicos. Destes, sobraram apenas um”, recorda ele, que tem a certificação de produção de orgânicos desde 2002.
Seu Gabe avalia que atualmente os orgânicos são vistos de outra maneira. “Deixou de ser um mito. Antes as pessoas não entendiam, achavam que alimentos orgânicos eram a mesma coisa que alimentos transgênicos. Agora há mais informações, inclusive, as pessoas até preferem consumir alimentos orgânicos. O problema é que muitas famílias não têm acesso”, aponta.
O valor mais elevado tem uma justificativa. Alimentos cultivados de forma orgânica exigem mais mão de obra manual. “É uma manutenção diária, capinas manuais e o produtor tem que se manter atento para possíveis manejos do início do plantio à colheita”, enaltece o rondonense. Além disso, ele conta que o alimento orgânico tem o preço basicamente fixo durante o ano inteiro, pois “geralmente não trabalha com oferta e procura, como os alimentos convencionais”.
O agricultor avalia que as lideranças municipais estão com um novo olhar em relação aos orgânicos. “O leque de Marechal ainda é pequeno, mas o incentivo está acontecendo. É preciso confiar que o orgânico dá certo e que esse modelo de agricultura é um jeito de fomentar a economia local”, frisa.


Escolha de vida
Quem consome orgânicos tem na ponta da língua o porquê da escolha. “É nítida a diferença. O sabor, a aparência”, reporta a bióloga Daniela Herrman. Segundo ela, “optar por alimentos orgânicos é optar pela saúde”. “Eu consumo alimentos orgânicos desde a infância, pois minha mãe é da área da saúde e sempre enfatizou a importância desta escolha. Atualmente, junto com a minha família, faço esta escolha diariamente por acreditar ser mais coerente”, comenta.
Ela diz que valorizar este tipo de produção é também valorizar o agricultor. “O produtor se empenha para que este alimento chegue até nós, e possibilita que ele se mantenha no campo e viva com dignidade. Portanto, mesmo que o preço destes produtos seja por vezes mais elevado, se há a condição de se fazer esta escolha, ela vale muito a pena”, realça.
Acempre
Em Marechal a Acempre fomenta a alimentação saudável por meio da venda de alimentos agroecológicos, produzidos por 82 famílias certificadas orgânicas e que residem tanto no município quanto em Mercedes, Pato Bragado, Quatro Pontes, Santa Helena, da região Sudoeste e Sul do Paraná.
“Há um cronograma dos dias em que cada família abastece a loja. Isso movimenta a economia local e o produtor recebe um valor digno pelo seu trabalho”, enfatiza a assessora técnica da Acempre, Raquel Rossi.
Os produtos não vendidos, mas em bom estado, são doados para entidades, como o Lar dos Idosos. “Já os alimentos que não podem ser utilizados para consumo humano são repassados para uma família que faz compostagem e também para a alimentação animal”, informa.

Lei dos Orgânicos
A Acempre também participa de atividades de gestão pública. Um exemplo disso é a Lei de Orgânicos, que garante a compra de alimentos proveniente dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para a alimentação seja adquirido não apenas da agricultura familiar, mas também da agroecologia.
Marechal Rondon é o 1º município do Paraná e o 2º do país a aderir à lei. Regulamentada em 2018, a meta era atingir 100% das compras. No entanto, com a pandemia e a suspensão das aulas, foram atingidos 83%. A aprovação da lei foi um processo popular, do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), e as famílias também tiveram participação efetiva na formulação do plano.
Agregação de valor
A lei prevê que os agricultores orgânicos recebam 30% a mais sobre o valor convencional do produto. “Vem crescendo o número de famílias que se certificam pensando nessa agregação do valor. A lei federal e até mesmo a estadual diz que o valor agregado pode ser de até 30%, mas Marechal está a um passo adiante, ofertando 30% completo”, evidencia Raquel.
“Além disso, para as famílias em transição, que saíram do processo convencional e estão aderindo às práticas orgânicas, a prefeitura paga 10% do valor. É uma forma de influenciar as famílias a se certificarem”, salienta a assessora técnica da Acempre.
Produtos coloniais também são vendidos na loja, mas ainda há uma lacuna neste quesito. “As famílias produzem de maneira não convencional, utilizando práticas agroecológicas que são historicamente acompanhadas pelo Capa (Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia) e que estão recebendo assessorias técnicas”, relata Raquel.
Capa
Em meio ao berço do agronegócio moderno, o Capa assume um protagonismo importante na região Oeste do Paraná. Desde 1997 em Marechal Rondon, o órgão presta assistência técnica e de incentivo à agricultura orgânica. “Ele surgiu no Brasil na década de 1970, motivado pela igreja luterana no Rio Grande do Sul, que, além da assistência eclesiástica, queria também prestar serviços de auxílio a pequenos agricultores”, explica o coordenador do Capa, Jhonny Luckmann.
Processo de certificação
Ao todo, já são mais de 800 famílias assessoradas pelo Capa na região e 1,2 mil certificadas em cerca de 28 municípios do Paraná. O título é obtido por meio da certificação participativa, em parceria com a Rede Ecovida. “Uma equipe de agricultores da própria rede visita as propriedades para certificar se a produção atende as normas e legislação do Mapa. Para isso, o Centro de Apoio orienta e apoia as famílias neste processo de agroecologia para que obtenham a documentação”, explana o coordenador.
Para ele, a agricultura orgânica é uma forma de combater o êxodo rural. “Este é um dos maiores desafios da agricultura, por isso é preciso estimular o jovem a permanecer no campo. O modelo orgânico é um mecanismo fundamental para que pessoas do campo tenham qualidade de vida e condições para produzir o alimento que vamos comer, buscando novas formas de conhecimento em cursos, palestras sobre o tema e cobrando o apoio governamental”, argumenta.
Números do setor
De acordo com o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, atualmente, o Brasil dispõe de 25.516 produtores orgânicos. Na região Sul, o sistema é composto, principalmente, por agricultores familiares, cooperativas e pequenas propriedades rurais.
No Paraná, os principais produtos orgânicos são: açúcar, café, erva-mate e soja. Os pequenos produtores também são os principais responsáveis pelo abastecimento interno de hortaliças, frutas e alimentos processados.
Na última década, a produção de alimentos orgânicos cresceu quatro vezes e, atualmente, há quase 20 mil agricultores familiares certificados.


O Presente
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