O prejuízo amargado por muitos empresários de Marechal Cândido Rondon, por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus, tem afetado inclusive aqueles que não precisaram fechar as portas.
O isolamento social de parte da população diminuiu a circulação de veículos pelas ruas e consequentemente o movimento nos postos, que apresentam redução de até 70% na venda de combustíveis.
Gerente de um posto de combustível no município rondonense, Luiz Carlos de Souza conta que viu o movimento cair consideravelmente desde o início do isolamento provocado pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Ele acredita que muitas pessoas estão receosas com o que pode acontecer daqui para a frente e estão preferindo economizar na hora de abastecer. “Isso gera uma situação difícil porque as despesas fixas não diminuíram. Estamos trabalhando para passar por isso que está acontecendo, mas não está fácil”, ressalta.
Souza acredita que o retorno dos consumidores aos postos deve acontecer a partir de agora, que o comércio foi reaberto. “Mas é lógico que com a reabertura do comércio, as pessoas devem seguir as regras para se prevenir contra a doença”, salienta.
DIFICULDADES
De acordo com o professor de Economia da Unioeste em Toledo, Flávio Braga de Almeida Gabriel, os postos de combustíveis que não têm caixa emergencial para se manter durante o isolamento social provocado pela pandemia terão muita dificuldade para permanecer no mercado.
Segundo ele, não é possível afirmar até quando essa situação deve permanecer, contudo, se for considerado o tempo que países como China, Itália e Espanha, que ainda passam pela crise, tudo indica que o período de restrições sociais dure ao menos três meses. “Levando em conta os primeiros casos registrados no Brasil, devemos ter ainda mais ou menos 75 dias de redução de mobilidade social”, sugere.
Conforme Braga, mesmo após superada a crise na saúde, a economia brasileira não será retomada do ponto em que se encontrava antes da pandemia. “Isso significa que os meses seguintes à crise serão tempos conturbados”, prevê o professor.
Ele cita que até o fim deste ano a situação no país deverá ser muito complicada e para os postos de combustíveis não será diferente. “Se a crise se agravar, alguns postos da região podem entrar em colapso devido à falta de demanda e à impossibilidade de bancar os custos durante o período de isolamento, o que tende a provocar a falência dos estabelecimentos”, considera.
GUERRA COMERCIAL
O professor de Economia da Unioeste diz que um dos principais fatores que contribuiu para a diminuição do preço dos combustíveis para o consumidor brasileiro, observada atualmente, foi a guerra comercial entre dois dos principais produtores de petróleo do mundo: a Arábia Saudita e a Rússia.
Por conta da diminuição do consumo de combustível causada pela crise mundial provocada pela pandemia do novo coronavírus, os sauditas tentaram reduzir o volume de petróleo produzido, e para isso propuseram um acordo sem sucesso com a Rússia. “Como forma de retaliação, a Arábia Saudita aumentou a produção e diminuiu o preço cobrado por barril, o que gerou redução de quase 60% do barril produzido pelos sauditas”, explica.
Antes da crise o valor do barril de petróleo era de US$ 70 e atualmente o valor gira em torno dos US$ 30.
FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A QUEDA DA DEMANDA
A política de preço da Petrobras é baseada no valor internacional do barril de petróleo, ou seja, se o valor diminui, a Petrobras repassa a redução para as refinarias e o reflexo é sentido pelo consumidor final.
De acordo com Braga, a queda no valor de repasse da gasolina negociada pela Petrobras junto às refinarias foi de 43% e do diesel 31%.
Algo muito significativo, mas então por que o preço cobrado pelos postos na bomba não acompanhou essa queda?
O economista explica que os postos não têm como custo produtivo somente o valor pago pelo combustível. Eles possuem outras despesas, como mão de obra, energia elétrica e tributos, por exemplo. “Por conta disso os postos têm uma certa liberdade de colocar o preço que acham interessante”, menciona.
Conforme o professor, por causa da concorrência entre os postos, eles precisam acompanhar o valor praticado na praça para não perder clientes. Ainda assim, a queda nos combustíveis na região chegou a cerca de 15%.
Braga lembra que aliado a isso existe a queda na demanda por combustíveis, o que obriga a diminuição do valor do produto.
A queda da gasolina obrigou as usinas de cana-de-açúcar a diminuir a produção do etanol hidratado (usado em veículos) que priorizaram a produção do etanol anidro (misturado a gasolina antes da venda), o que também puxou para baixo o preço do etanol.
As usinas o etanol tiveram este ano decréscimo de aproximadamente 28% e o litro está sendo vendido hoje nos postos em média a R$ 2,87, 0,50 centavo mais barato que o preço praticado em janeiro.
Em Marechal Rondon a redução média no preço da gasolina comum para o consumidor foi de R$ 0,40, queda que começou antes do período de quarentena provocado pelo novo coronavírus, reflexo do mercado internacional que já sofria com o excesso de oferta, mas se acentuou nos últimos dias com o isolamento social.
Entretanto, a redução para o consumidor poderia ser ainda maior se a carga tributária não estivesse tão elevada, é o que aponta o Sindicato dos Revendedores de Combustíveis e Lojas de Conveniências do Estado do Paraná (Sindicombustíveis – PR). “Atualmente, mais da metade do valor pago pelo litro na bomba é imposto”, diz a instituição. De acordo como sindicato, uma das causas é que o chamado “preço de pauta”, utilizado pelo Estado para calcular o ICMS, está muito acima do preço médio praticado no mercado.
MOVIMENTO MENOR
Sócio-proprietário de um posto de combustíveis em Marechal Rondon, Ricardo Arnhold diz que nem mesmo com a redução de R$ 0,40 o litro da gasolina comum para o consumidor estimulou o aumento no movimento, que apresenta queda de cerca de 40% em seu estabelecimento.
Ele acredita que mesmo após a retomada da economia local, deve demorar para as vendas voltarem ao patamar de antes da pandemia. “Mesmo depois que todo o setor produtivo, ou seja, o comércio e prestação de serviço retomarem suas atividades, não teremos garantia que de voltar a trabalhar no patamar que tínhamos antes da crise”, lamenta.
O empresário explica que com a queda no faturamento a direção do posto teve que tomar algumas medidas para não prejudicar o capital de giro do estabelecimento. “Tudo o que podíamos cortar de custos e despesas já fizemos. Essa foi a primeira medida. Também reduzimos o horário de atendimento, o que expõe menos nossos colaboradores a riscos e diminui os custos. Estamos operando com estoque um pouco mais baixo”, conta.
Ele revela que além dessas adequações implantadas no posto, caso a queda nas vendas persista por muito tempo, será necessário reavaliar o que mais poderá ser feito.
Ademar Batschke, dono de um posto de combustível no centro rondonense, é da opinião que o movimento este ano não deve atingir o patamar observado antes da pandemia. “A crise causada pela doença trouxe uma influência negativa muito agressiva, portanto, as pessoas estão com medo do amanhã e a incerteza provoca o resguardo financeiro”, afirma.
Com o setor desaquecido, muitos empresários são obrigados a utilizar o capital de giro para equilibrar as despesas com funcionários e reposição de estoque, por exemplo. “Os postos estão com o capital de giro no limite inferior de sustentabilidade. São poucos os empresários com guarda monetária”, pontua Batschke.
O cenário preocupa o Sindicombustíveis – PR. “A situação do setor é gravíssima. Estamos em contato com diferentes instâncias dos governos federal e estadual para minimizar os efeitos da crise. É provável que muitas empresas não terão capital de giro para sobreviver a uma redução tão brusca de faturamento, caso novas medidas de apoio não sejam implementadas”, diz a instituição.
Segundo o Sindicombustíveis – PR, até o momento, os governos federal e estadual, bem como diferentes órgãos municipais, sinalizaram com algumas medidas de apoio ao setor, as quais, todavia, são insuficientes diante do tamanho da crise.
Apesar das dificuldades, conforme o sindicato, o setor segue trabalhando, ciente também de sua função social. “Os serviços dos postos são essenciais para manter em circulação ambulâncias, carros de bombeiro, viaturas policiais, transportes de trabalhadores e também o abastecimento de alimentos, remédios e muitos outros itens essenciais”, completa.
O Presente