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Marechal

Milho safrinha na microrregião de Marechal Rondon tem perdas de 60% com a geada

calendar_month 2 de julho de 2021
6 min de leitura

Gramados, plantações e telhados brancos formaram a paisagem de Marechal Cândido Rondon na terça (29) e quarta-feira (30). Enquanto muitos aproveitavam para fotografar a geada, outros começavam a calcular os prejuízos do gelo. Os agricultores, que já vinham sofrendo com a estiagem e seus reflexos na produtividade da safrinha 2020/2021, viram o milho praticamente definhar.

Ao avaliar as plantações de milho da região, o engenheiro agrônomo Cristiano da Cunha estima um alto prejuízo em virtude da geada que, segundo ele, acometeu tanto as área baixas quanto as elevadas. “Não víamos algo tão forte há muitos anos. As geadas foram extremamente severas. Áreas com milho mais atrasado terão prejuízo de 100% e outras, com milho adiantado, perda inferior a 10%. A maioria das lavouras estava com o milho verde, ou recém passando dessa fase, e serão afetadas de 50% a 60%. Em média, estimo prejuízos na ordem de 60%”, calcula.

Engenheiro agrônomo Cristiano da Cunha: “Não víamos algo tão forte há muitos anos. As geadas foram extremamente severas. Tenho plena certeza de que haverá falta de milho no mercado e isso vai afetar toda a cadeia produtiva” (Foto: Arquivo/OP)

 

PERDAS PODEM PIORAR

Se o cenário não é nada favorável diante da alta perda nas plantas de milho, a situação ainda pode se agravar. O alerta é do membro da Comissão Estadual de Cereais e secretário do Sindicato Rural Patronal de Marechal Rondon, engenheiro agrônomo e produtor Cévio Mengarda. “Os danos são imensuráveis e podem piorar. Há gente falando de 100% de perda com as duas geadas, é correto. Se tivermos índices pluviométricos elevados nos próximos dias, o prejuízo pode se elevar: o milho vai brotar, ‘vai arder’, e fica complicado para colocá-lo no mercado”, expõe ao O Presente.

Contudo, as previsões futuras parecem estar ao lado do agricultor, considera Mengarda. Ontem (1º) e hoje (02) as temperaturas subiram no município e a tendência é de que sigam assim. “O clima deve ser favorável e seco. O milho não se desenvolve mais, mas ao menos aquilo que está formado se consolida em um grão menor e com menos peso, produzindo alguma coisa”, explica.


Membro da Comissão Estadual de Cereais e secretário do Sindicato Rural Patronal, engenheiro agrônomo e produtor Cévio Mengarda: “A cotação deve subir, porém é muito mais interessante ter o produto do que ter um preço extremamente elevado” (Foto: Divulgação)

 

PREJUÍZO ACUMULADO

O produtor destaca que o prejuízo na safrinha se acumula pelos fatores climatológicos e foi intensificado por conta do atraso na semeadura, que aconteceu no final de fevereiro e começo de março. “Quem plantou ainda no final de fevereiro deve ter perdas de 20%, mas são poucos – cerca de 10% do total. O restante das lavouras, plantadas até meados de março, chegam a perdas de 70%. Vejo uma perda média de 50% devido à geada, mas já tínhamos uma perda projetada de 50% por causa da seca. Somando as duas ocorrências, o prejuízo mínimo deve ser de 70%, um número bastante alarmante”, afirma.

Registro de lavoura de milho ontem (1º), em Marechal Rondon, depois de dois dias seguidos de geada (Foto: Divulgação)

 

30% DE ÁREAS NÃO ASSEGURADAS

Cunha salienta que boa parte das lavouras estão asseguradas, seja por seguro particular ou via ProAgro. “Com o seguro das lavouras, diminui um pouco a perda do produtor. Porém, há uma parcela, cerca de 30% das áreas, que não estão asseguradas e o agricultor acaba amargando prejuízo total”, frisa, emendando: “O produtor deve acionar o seguro e acompanhar as lavouras na colheita. Resta ao produtor plantar novamente, porque, mesmo com as intempéries, a agricultura não vai parar”, destaca.

 

COTAÇÃO VERSUS DISPONILIBIDADE

O representante rondonense na Comissão Estadual de Cereais menciona que, mesmo com a perda da produtividade, o encarecimento do milho deve fazer com que o agricultor cubra os gastos. “A cotação deve subir, porém é muito mais interessante ter o produto do que ter um preço extremamente elevado. Com uma produção elevada de milho, toda a cadeia se beneficia, inclusive o consumidor final. Boa parte das áreas ainda produzirá, mas não significativamente. Com preços elevados, acredito que deve cobrir os custos”, opina.

Profissional que produz a céu aberto, o agricultor é ciente dos riscos, ressalta Mengarda. “É obvio que há uma tristeza pairando entre os produtores, pois a perda é grande e esse era o ano em que conseguiríamos bons resultados”, lamenta, acrescentando: “O momento é de cautela, aguardar os próximos cenários e a colheita. Não fazer dívidas ou investimentos altos, porque a situação vai ser delicada”.

Apenas 15% dos 45 mil hectares cultivados com milho safrinha na região Oeste não devem sofrer com a geada, de acordo com a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

LAVOURAS QUE ESCAPARAM

Apenas 15% dos 45 mil hectares cultivados com milho safrinha na região Oeste não devem sofrer com a geada, de acordo com a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep). Na estimativa de Cunha, na microrregião de Marechal Rondon as lavouras que escaparam do fenômeno foram poucas.

“Aquelas áreas semeadas cedo, em que o agricultor fez silagem do milho verão e plantou milho novamente, foram acometidas pela seca e o produtor cortou novamente. Em percentual com perda zero na região são no máximo 5% das lavouras”, pontua.

Afetada pela estiagem e pela geada, safrinha acumula prejuízos de ordem climatológica e vê produtividade se esvaindo (Foto: Sandro Mesquita/OP);

 

FALTA DE MILHO DEVE ENCARECER AINDA MAIS O GRÃO

Questionado sobre a possibilidade de falta de milho no mercado, acenada por grandes cooperativas da região em virtude da estiagem, Cunha ressalta que o grão já está escasso e o possível desprovimento é um ponto preocupante. “A geada traz problemas de qualidade no grão e, com isso, há problemas depois na ração animal em função das microtoxinas. Tenho plena certeza de que haverá falta de milho no mercado e isso vai afetar toda a cadeia produtiva”, prevê o engenheiro agrônomo.

Tendo em vista que o ciclo da suinocultura e da avicultura não é rápido, o desabastecimento pode repercutir por muitos lotes. “Quando faltar cereal, as empresas vão diminuir o alojamento e até que isso se recupere será preciso de mais uma ou duas safras. É coisa de mais de um ano para frente. Inclusive, podemos ter escassez na oferta de carne, bem como impactos na exportação por não termos matéria-prima para ração”, amplia.

Depois da geada, lavouras da região mudaram de tom: o verde deu lugar a plantas secas: “Mais dois dias e estará tudo seco”, comenta o agrônomo Cristiano da Cunha (Foto: Divulgação)

 

REFLEXO NOS PREÇOS
Se nas lavouras as plantas levam certo tempo para de fato mostrarem os efeitos da geada, os preços do milho tiveram impacto quase simultâneo, o que, no entendimento de Mengarda, se deve ao medo do desabastecimento. “Houve uma alta de 10% em dois dias, algo significativo. Isso é o receio do mercado de que falte o produto”, indica.

Segundo ele, a falta total de produto é difícil de acontecer, mas o encarecimento do grão é certeiro. “O Brasil é grande e temos regiões produtoras que, tirando o efeito da seca, ainda terão uma produtividade significativa. O problema é o preço que esse produto vai chegar no mercado local. Nossa região é extremamente agrícola, pecuária e consome muito milho; com certeza teremos dificuldades”, opina.

 

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