Marechal Cândido Rondon entra no quinto mês de pandemia de coronavírus mantendo-se no nível de baixo risco de contágio. O município tem atualmente 281 casos confirmados de Covid-19. Entre todas as confirmações, a maioria são em pessoas do sexo masculino (cerca de 195). O principal sintoma relatado entre os positivados é a cefaleia.
Conforme análise do Setor de Epidemiologia, até o momento não há relação de casos positivos com o retorno gradual das atividades da saúde, como agenda de consultas, exames e cirurgias eletivas, retomadas no início de agosto.
De acordo com a secretária de Saúde, Marciane Specht, nestas primeiras semanas após a retomada dos agendamentos, em determinada especialidade, por exemplo, 171 pacientes não compareceram no dia e horário marcados. “Isso pode estar diretamente relacionado ao medo de se deslocar por conta do cenário atual de pandemia, por não ter mais a necessidade do atendimento ou talvez ainda pelo esquecimento ou outro contratempo”, avalia.
Em entrevista ao O Presente, a secretária também falou sobre o Hospital de Campanha, que até o momento não precisou ser utilizado e segue mantido pelo município junto ao Centro de Eventos, e fez considerações em relação ao fato de Marechal Rondon não ter Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e não ter recebido nenhuma neste período pandêmico, como ocorreu em muitas outras cidades da região. Confira.

Secretária de Saúde, Marciane Specht: “Saímos de uma epidemia de dengue no mês de fevereiro com média de 154 atendimentos (por dia) e neste período de Covid-19 o fluxo caiu para uma média de 65 pacientes/dia. Desta forma, houve uma redução de 57% nos atendimentos prestados na rede de urgência/emergência” (Foto: O Presente)
O Presente (OP): Os agendamentos de exames, consultas e cirurgias eletivas, suspensos em março devido à pandemia de Covid-19, foram retomados no começo de agosto. Como está sendo a retomada? Tumultuada, tranquila?
Marciane Specht (MS): A retomada está sendo dentro do planejado, de forma gradual, alinhada com os postos de saúde. Os servidores entenderam a necessidade do retorno tomando todos os cuidados em relação às medidas preconizadas, mantendo o distanciamento entre as pessoas. A abordagem na porta de entrada das unidades conta com um protocolo de triagem, pois agora, com a retomada da agenda de cuidados, em especial nas linhas guias de estratificação de risco dos hipertensos, diabéticos e outras necessidades que surgem diariamente, se faz necessário esse olhar ainda mais voltado para as questões respiratórias, uma vez que são usuários do SUS (Sistema Único de Saúde) que ficaram por um determinado período sem vir para a unidade e precisam dessa abordagem para percepção de uma necessidade que pode ter ficado sem atendimento. Pensamos em proteger as pessoas que poderiam estar mais expostas pelas suas condições de saúde.
OP: Os atendimentos, atualmente, estão acontecendo em menor ou maior quantidade do que o normal?
MS: Desde meados de março, com a situação da pandemia, o que mudou em relação aos postos de saúde foi a orientação para agendar pacientes eletivos e evitar trazer para as unidades pacientes que são vulneráveis pela sua própria condição de saúde e por comorbidades associadas. Um dos fatores que auxiliou muito neste sentido foi a prorrogação das datas de validade das receitas dos medicamentos de uso contínuo. Neste período o programa Remédio em Casa mostrou sua importância, evidenciando sua utilidade e eficiência, atendendo as demandas da população que, por vezes, tem dificuldades de ir até a unidade ou na Farmácia Básica para retirar seus medicamentos. Este programa foi fundamental também para o envio dos medicamentos às pessoas que foram colocadas em isolamento por conta dos protocolos estabelecidos dos sintomáticos respiratórios, atendendo a necessidade da nossa população. Antes da retomada, o atendimento era prestado através do acolhimento à demanda espontânea, ou seja, atendia-se o que chegava na unidade, agora, estamos agendando pacientes manhã e tarde e programando novamente as ações de uma agenda de cuidados, pautados nas linhas estabelecidas pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria de Estado de Saúde.
OP: Os fluxos estão como antes da pandemia ou menores?
MS: O fluxo caiu em todos os pontos de atenção da rede. A procura foi muito baixa em especial no final de março, abril e maio. Saímos de uma epidemia de dengue no mês de fevereiro com média de 154 atendimentos (por dia) e neste período de Covid-19 o fluxo caiu para uma média de 65 pacientes/dia. Desta forma, houve uma redução de 57% nos atendimentos prestados na rede de urgência/emergência (Unidade de Pronto Atendimento – UPA). Essa diminuição de pessoas circulando e solicitando atendimentos se deu pela conscientização da população em relação à pandemia que assola o mundo. Com todos os munícipes conscientes e fazendo parte desse cenário, estamos nessa evolução baixa dos casos positivos em nosso município. Nas unidades de saúde, a retomada está sendo gradual, variando de dez a 25 atendimentos por dia na especialidade médica. Na área de pediatria, ao comparar o mês de abril de 2019 com abril deste ano, houve uma queda de 85% na busca de atendimentos. O Setor de Epidemiologia fez uma análise e, até o momento, não encontrou relação de casos positivos com o retorno gradual e com a agenda de consultas, seja no município ou fora dele. No que tange às demandas das especialidades, a retomada é gradual e está acontecendo de forma organizada em conjunto com a oferta de serviços através do Consórcio Intermunicipal de Saúde Costa Oeste do Paraná (Ciscopar) pelos profissionais concursados e prestadores de serviços, sejam consultas, exames e/ou outros procedimentos. É de conhecimento de todos que no momento o atendimento não é o mesmo de antes, é menor. As clínicas também precisaram se adaptar a essa nova realidade, caso do Ciscopar, que fez uma reorganização de agendas divididas por município consorciado. Vale lembrar que todas as medidas adotadas devem continuar sendo o princípio norteador, como o distanciamento social, uso de álcool gel, de máscara e higienização das mãos. Isso é fundamental para que possamos seguir com segurança.
OP: A retomada de atendimento abrange todas as especialidades médicas?
MS: As especialidades médicas que foram retomadas via município ou Ciscopar são a ortopedia, urologia, psicologia, nefrologista, angiologista, cadiologista, pneumologista, psiquiatria, dermatologia, endocrinologista, gastroenterologista, oftalmologista, otorrinolaringologista e neurologista. Os exames retomados são: endoscopia, colonoscopia, ultrassonografias, exames cardiológicos, exames audiométricos, tomografia computadorizada, ressonância magnética e demais exames de imagem. É importante lembrar que os atendimentos são com demanda reduzida e há também questões relacionadas à restrição devido à idade do paciente. Observamos que neste período específico, analisando as agendas de uma determinada especialidade, em 15 dias houve falta de 171 pacientes. Isso pode estar diretamente relacionado ao medo de se deslocar por conta do cenário atual de pandemia, por não ter mais a necessidade do atendimento ou talvez ainda pelo esquecimento ou outro contratempo.
OP: Marechal Rondon conta com um Hospital de Campanha para auxiliar no atendimento de casos de coronavírus. Contudo, até o momento ainda não precisou ser utilizado. Até quando a municipalidade deve mantê-lo?
MS: O Hospital de Campanha foi projetado para o atendimento da população positiva ou suspeita de Covid-19, de habitual, de baixo risco e de risco intermediário. O hospital está sendo mantido pelo município, com toda a questão de logística, manutenção e limpeza. A decisão de manter ou não e por qual período ainda será decidida em conjunto entre a equipe técnica da Secretaria da Saúde e o COE (Centro de Operações de Emergência) do município. Ainda não temos uma previsão exata de quando iremos desativá-lo. As deliberações não têm data para acontecer por conta de outras demandas que devem ser tratadas anteriormente. Assim como foi a retomada da saúde, a retomada dos esportes, agora temos a projeção de retomada ou não da educação. Então, ainda não há um dia específico.
OP: Muitos municípios da região com o mesmo porte de Marechal Rondon contam com UTIs e outros tiveram seu sistema de saúde incrementado com unidades de terapia intensiva durante a pandemia. Por que Marechal Rondon não possui UTIs? Este período de Covid-19 não seria propício à implantação destas unidades?
MS: Fomos bastante questionados por que Marechal Cândido Rondon não recebeu UTI. Então, é preciso deixar claro que hoje nós temos um hospital estruturado que atende à demanda de baixo risco para gestação e de risco intermediário, mas não podemos pensar em simplesmente receber os leitos de UTI sem ter uma estrutura física adequada e, principalmente, a capacidade de gerir esse hospital nas 24 horas com cobertura de plantão, médico, capacidade instalada de equipamentos, materiais e a manutenção para dar uma qualidade de assistência prestada, como nós estamos fazendo nos demais atendimentos. UTIs demandariam do município um grande volume de recurso financeiro e uma capacidade instalada. Hoje estamos sendo muito bem atendidos, em específico na área de Covid-19, com a ampliação dos leitos no Hospital Bom Jesus, em Toledo, e no Hospital Micheletto, em Assis Chateaubriand. Essa demanda não tem viabilidade, porque nós estamos muito bem atendidos nas nossas referências. Não podemos ser irresponsáveis de querer receber uma estrutura hospitalar com quantidade de leitos sem fazer um planejamento. Este momento não é para isso por conta de termos uma referência clara. Temos, sim, que fazer um planejamento para dar um passo com responsabilidade, com conhecimento técnico, pensando nesse momento, como já foi dito em outras oportunidades pelo prefeito Marcio Rauber, da ampliação do Hospital Cruzatti para que possamos evoluir mais e com qualidade nos atendimentos que devemos prestar à nossa população.
OP: Em relação aos casos confirmados de coronavírus no município, há como traçar um perfil das pessoas que tiveram necessidade de internamento? Onde elas ficam internadas? São homens, mulheres, idosos… Teve algum caso grave ou com maiores complicações?
MS: A partir de um mapeamento semanal, podemos dizer que a maior incidência de casos confirmados de Covid-19 é do sexo masculino. Na reunião semanal de quarta-feira (12), a análise de risco e os dados mostravam que 192 pessoas confirmadas com Covid-19 eram do sexo masculino e 83 do sexo feminino. Ressalta-se que a semana epidemiológica é a da semana passada, número 31. A semana número 32 não está fechada. Isso quer dizer que a quantidade de casos suspeitos e a deliberação dos exames ainda não tinha sido liberada na quarta-feira, então, a semana 32 está aberta em relação à análise de risco. Continuamos, pela semana epidemiológica número 31, com uma incidência baixa em relação aos casos de positividade, matriz de risco, sendo que o nosso risco continua sendo baixo. Viemos desde o início da pandemia classificado pelo Ministério da Saúde e por outros órgãos no nível baixo e assim continuamos, graças ao envolvimento da sociedade civil organizada, juntamente com o Poder Público, com o COE, com as lideranças, com os meios de comunicação. Coletivamente, foi possível demonstrar de forma muito clara, com responsabilidade, a situação da pandemia em nível de Paraná e em nível de Marechal Rondon e, com certeza, todos esses fatores juntos levaram à conscientização da nossa população para que tivéssemos essa evolução positiva de casos, não tendo os picos em um pequeno período de tempo, situação que poderia colapsar o sistema de saúde local. Felizmente, isso não aconteceu. Em relação à faixa etária, a maior incidência dos casos é de 25 a 29 anos, seguida da faixa etária 20 a 24 anos e após de 30 a 34 anos. Outra situação que conseguimos rastrearé o sintoma dos pacientes confirmados. O que mais tem acontecido de sintoma relatado ou aferido em Marechal, dados de 12 de agosto, é a cefaleia, relatada por 134 pessoas. Depois temos a febre, a dor de garganta e a tosse. Outro sinal que aparece muito é a perda do olfato ou do paladar. Também temos o acompanhamento dos casos confirmados por ocupação, que é um dos fatores de análise semanal. O trabalhador do comércio essencial na semana passada era de 1% e esta semana é 2%, o trabalhador da indústria de grande porte manteve-se em 3%, as forças de segurança eram 4% e agora passaram para 3% e o trabalhador do comércio não essencial manteve-se em 4%. Esses são os números mais expressivos.
O Presente