A pandemia do coronavírus teve pouco reflexo no campo, uma vez que as atividades agropecuárias não podem parar. A afirmação é do presidente do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon, Edio Chapla. Segundo ele, o animal não deixa de crescer, bem como as plantas. “Então, praticamente seguimos com uma rotina normal. O agro não parou”, destaca.
Em entrevista ao O Presente, Chapla fez uma avaliação do ano de 2020 e explicou como a alta nos preços da soja e do milho refletiu na cadeia agropecuária. Ele também falou sobre a expectativa para a safra de verão e para a safrinha e revelou as pautas previstas para 2021. Confira.
O Presente (OP): Enquanto presidente do Sindicato Rural de Marechal Rondon, como o senhor avalia o ano de 2020?
Edio Chapla (EC): No início de ano tivemos uma safra de verão com boa produtividade, trazendo receita positiva ao agricultor. Depois, a safrinha passou por problemas climáticos que prejudicaram a remuneração. Nesse tempo tivemos que lidar ainda com a questão da pandemia do coronavírus, que acabou tirando muitas pessoas de uma rotina de trabalho, principalmente no meio urbano. No meio rural, nós tivemos também um pequeno reflexo na cadeia, mas nossas atividades não podem parar. Não tem como parar a pecuária e nem a própria agricultura. O animal não deixa de crescer e muito menos as plantas; o agro não para. Então, praticamente seguimos com uma rotina normal, respeitando o que pediam nas legislações decorrentes da Covid-19 quando houvesse necessidade e sentindo oscilações em mercados.
OP: A pandemia influenciou muitos setores, alguns de forma positiva e outros de forma negativa. Como foi para o agronegócio?
EC: Na questão de preços, tivemos uma “explosão” da soja e do milho. Vale salientar, contudo, que muitas vezes o quadro de preços divulgado não reflete com o que se pratica, pois nem sempre o produtor consegue aproveitar os preços em alta. Em alguns casos, coincidiu que o preço subiu depois que muitos produtores já haviam fixado e firmado contratos. E tanto a soja como o milho tiveram sua alta nos preços refletida nos preços da pecuária, tornando os custos elevados. Para a cadeia agropecuária, a elevação dos preços desses cereais não foi boa. A gente sabe que com os preços de soja e milho lá em cima os custos de produção também aumentam, é um ciclo. Quando o produtor vai fazer novamente a plantação, os preços dos insumos agrícolas ou agropecuários estarão elevados.
OP: Como foram os trabalhos do Sindicato Rural entremeio a esse contexto pandêmico? Como aconteceram os atendimentos e cursos?
EC: Nós tivemos que nos adequar aos decretos movidos tanto pelo governo estadual quanto municipal. Nos adequamos e continuamos atendendo o produtor rural e o associado de uma forma mais restrita. Mesmo com as restrições, não tivemos grandes problemas e não deixamos ninguém sem cumprir com questões que envolvem documentos e similares. O sindicato teve os cursos totalmente parados com a ascensão do coronavírus. No início de ano tivemos um ou outro curso, mas durante a pandemia nenhum dos cursos previstos pôde acontecer. Isso traz um certo prejuízo para o produtor por não poder, de repente, aprender uma nova tecnologia que surge, tanto na atividade agrícola como na agropecuária. No que diz respeito às demandas que foram surgindo no decorrer do ano, muitas reuniões aconteceram de forma remota, por meio das lives, momentos em que pudemos nos posicionar sobre questões que envolvem toda a cadeia do agro. Uma última questão tratada, por exemplo, foi a Tarifa Rural Noturna. Nós conseguimos uma grande mobilização através do meio eletrônico para que se mantivesse essa tarifa, que é de grande valor para o nosso produtor rural, principalmente na cadeia pecuarista, que utiliza muita energia elétrica durante a noite. Esse foi um dos pontos que fez com que nós encerrássemos o ano com benefícios ao produtor rural.
OP: Especificamente falando de Marechal Rondon e microrregião, qual é a sua análise em termos de produção, mercado, estiagem histórica?
EC: Chegamos ao final do ano com uma trajetória boa, uma safra boa de grãos. Por mais que no começo o clima não foi muito bom, com o passar do tempo o agricultor conseguiu plantar e hoje 99% da cultura de soja apresenta um stand muito bom. Por mais que tenha atrasado um pouco, o produtor seguiu as orientações, utilizou menos sementes por metro linear e o desenvolvimento está muito bom. As plantas estão excelentes e o produtor espera uma safra muito boa. Com os preços em alta, devemos ter uma boa remuneração por alqueire. A demanda da soja está alta, então, a perspectiva é que os preços se mantenham bem até o final da colheita da soja. A pecuária vem sofrendo há algum tempo com essa alta nos cereais, principalmente farelo de soja e de milho, que são dois produtos muito utilizados na composição das rações. Hoje o produtor que lida com gado leiteiro tem a maior parte dos custos de produção em suas mãos. Então, por mais que o preço do leite tenha subido, nós temos os custos altos de insumos. Na parte de suínos percebemos uma variação nos preços, com picos altos na remuneração do suíno, em que o produtor, principalmente nas UPLs (Unidades Produtoras de Leitões), até teve uma receita boa, ainda que no contexto geral as outras fases venham sofrendo mais com a alta na produção. Na questão do frango de corte, geralmente as propriedades trabalham no sistema de integração e as indústrias, por sua vez, tiveram com o dólar alto uma boa venda. Todavia, em muitos casos esse ganho elevado não foi repassado ao avicultor. De modo geral, a cadeia do frango segue estável, pois o produtor encerrou o ano recebendo o mesmo que recebia no início do período.
OP: Durante todo este período de pandemia ouvimos dizer que a nossa região não sofreu tantos impactos pelo fato de a economia ter como base o agronegócio. No seu ponto de vista, a pandemia ajudou a melhorar ainda mais a imagem da agricultura como parte essencial da economia municipal?
EC: Percebemos nos noticiários que a agricultura sempre esteve em pauta positivamente durante 2020. No Brasil, se analisarmos, a economia não teve um reflexo tão negativo quanto outras devido ao agronegócio brasileiro, que praticamente segurou as pontas no país. A economia municipal foi um tanto beneficiada nesse contexto de pandemia justamente por ter uma atividade agropecuária bastante diversificada. O agronegócio fez com que não parasse de girar a roda da economia, favorecendo todos os outros ramos.
OP: Quais são as expectativas para a safra de verão e para a safrinha?
EC: Temos uma perspectiva de safra boa, também para a safrinha, por mais que houve atraso no plantio, mas ainda plantamos dentro de uma época boa. Só lá na frente pode acontecer uma seca ou frio imenso que possa prejudicar as nossas atividades. Como arremate, esperamos uma produtividade muito boa de soja e, consequentemente, a tendência é que tanto ela quanto o farelo baixem de preço. No que diz respeito ao milho, só teremos milho em volume de julho para frente com a colheita da safrinha, porque agora no verão não há cultura de milho comercialmente em nossa região.
OP: O que esperar de 2021?
EC: Esperamos que no próximo ano as coisas se alinhem novamente e que tudo transcorra melhor do que foi esse ano, sem tantas restrições. Provavelmente a vacina chegará, o que torna mais dinâmicas as questões que envolvem cursos e atendimentos ao nosso associado. Além disso, em 2021 travaremos outras brigas. Uma delas trata da reforma tributária, em que o agro vai estar na linha de frente para que não se onere ainda mais o produtor rural. Temos a questão dos pedágios, acontecerão as audiências públicas e estaremos atentos, quem sabe até de forma presencial. Vamos pressionar deputados e quem sabe até o Governo do Estado, brigando por um preço mais baixo nas tarifas e para que contemplem nos contratos a questão de logística, de estrutura, terceira faixa e duplicação de vias, o que agrega mais qualidade na hora de escoar a produção agropecuária. Estamos também à espera da ação federal a respeito do Convênio 100, que trata sobre o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que será uma batalha muito grande em que estaremos acompanhando os desdobramentos junto à Federação da Agricultura (Faep) e alinhados com a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), em Brasília.
O Presente