Marechal Herói rondonense

“O Daniel era um filho de ouro. Perdeu a vida fazendo aquilo que amava”, contam pais do soldado Trarbach

Pais do soldado Trarbach, que morreu recentemente em combate durante patrulhamento no Rio Paraná, destacam a paixão do filho pela vida militar, carreira que desejava seguir, mas que foi interrompida por bandidos. Comprometido e apaixonado pelo Exército, ele não se importava com os perigos da profissão; pelo contrário, gostava da adrenalina vivida nas operações e honrava com orgulho a farda que usava (Foto: Sandro Mesquita/OP)
  • Medalha do Exército Brasileiro recebida pela família em homenagem a Daniel, o soldado Trarbach (Foto: Sandro Mesquita/OP)

  • A imagem do filho na estante da sala ajuda a diminuir um pouco a saudade que família sente de Daniel (Foto: Sandro Mesquita/OP)

  • Honrarias militares recebidas em Brasília durante as homenagens prestadas ao soldado Trarbach (Foto: Sandro Mesquita/OP)

  • Ivan Engelmann: “Nos disseram que ele não será esquecido”, diz o pai de Daniel, referindo-se à homenagem prestada ao filho em Brasília (Foto: Sandro Mesquita/OP)

  • Liane Engelmann, mãe de Daniel: “É muito difícil aceitar um negócio desse. Saber que bandidos tiraram a vida dele” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

  • Pais do soldado Trarbach, que morreu recentemente em combate durante patrulhamento no Rio Paraná, destacam a paixão do filho pela vida militar, carreira que desejava seguir, mas que foi interrompida por bandidos. Comprometido e apaixonado pelo Exército, ele não se importava com os perigos da profissão; pelo contrário, gostava da adrenalina vivida nas operações e honrava com orgulho a farda que usava (Foto: Sandro Mesquita/OP)

  • (Fotos: Divulgação)

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“Orgulho”. Essa palavra define o sentimento de Ivan e Liane Engelmann, pais de Daniel Henrique Trarbach Engelmann, soldado rondonense que morreu recentemente em combate durante patrulhamento no Rio Paraná.

À reportagem de O Presente, eles falaram sobre a infância do filho, os sonhos e seu amor pelas Forças Armadas. Também contaram como foi receber a notícia que o filho estava desaparecido e sobre os cinco dias de angústia até a confirmação do falecimento do jovem.

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Hoje, quase dois meses sem ele, Ivan e Liane destacam a tristeza de saber que Daniel se foi tão cedo e dos desafios em aceitar a reaprender a viver sem ele.

A imagem do filho na estante da sala ajuda a diminuir um pouco a saudade que família sente de Daniel (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

SONHO DE CRIANÇA

Na foto em destaque na estante da sala, o jovem aparece vestido com a farda do Exército Brasileiro, instituição da qual se orgulhava em fazer parte.

O soldado Trarbach, como era chamado no quartel, perdeu a vida fazendo aquilo que na infância sonhou ser quando se tornasse adulto. “Ele sonhava em entrar para o Exército”, conta Liane.
Emocionada, ela diz que o filho era sempre alegre e divertido, e isso lhe rendia muitas amizades.

“Como a minha filha Camila costuma dizer: onde passou ele plantou uma semente. Era um filho de ouro”, enaltece.

Liane Engelmann, mãe de Daniel: “É muito difícil aceitar um negócio desse. Saber que bandidos tiraram a vida dele” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

INFÂNCIA

Na infância, Daniel teve muitos sonhos. O pai relata que ao dez anos ele queria fazer bicicross, mas a ideia não teve muito apoio devido ao risco que oferecia. “Na época achei um esporte meio arriscado por causa da idade dele”, comenta Ivan.

A mãe lembra que por volta dos dez anos o filho começou a jogar futebol. “Vivia com a bola no pé. Às vezes, ficava o dia inteiro fora de casa, mas nunca recebemos uma reclamação dele”, expõe.
O pai recorda que durante a adolescência Daniel treinou na Associação Atlética Cultural Copagril (AACC). “Ele ia de bicicletinha até lá três vezes por semana para treinar. Se dedicava muito”, menciona.

Ivan conta que uma lesão no joelho e a idade-limite para poder treinar na AACC mudaram os objetivos de Daniel. “A partir daí ele passou a sonhar com a vida militar”, salienta.

O pai comenta que após se alistar no Exército o filho pediu demissão do emprego, antes mesmo de saber se seria aceito. “Era o que ele realmente queria. Estava focado nisso”, enaltece.

Segundo ele, depois do primeiro ano servindo o Exército, Daniel decidiu continuar nas Forças Armadas. “A ideia dele era seguir a carreira militar”, compartilha.

Ivan revela que quando jovem tinha o mesmo desejo do filho de ser militar, mas um problema de visão o impediu de entrar para o Exército. “Eu acabei meio que realizando um sonho com meu filho, e é claro que dei todo o apoio”, ressalta.

Ivan Engelmann: “Nos disseram que ele não será esquecido”, diz o pai de Daniel, referindo-se à homenagem prestada ao filho em Brasília (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

COMPROMETIMENTO

O rondonense diz que a disciplina militar aumentou no filho o senso de responsabilidade. A mãe relata que nos dias em que Daniel estava mais cansado, devido ao trabalho e às viagens quase que diárias para Guaíra, ele pedia para ela ligar o despertador, pois tinha medo de perder o ônibus e se atrasar no dia seguinte. “Eu acordava, levantava da cama e corria para acordar ele, mas quando eu chegava no quarto ele já tinha ido”, relembra.

Conforme Liane, o comprometimento de Daniel com as obrigações no trabalho lhe rendiam elogios dos próprios militares. “A gente não tinha noção do quanto ele era querido no quartel”, expõe.

De acordo com a mãe, a paixão do filho pela vida militar ficava mais evidente nos dias que antecediam as operações realizadas na fronteira com o Paraguai, as quais, segundo ela, deixavam Daniel eufórico. “Ele queria adrenalina, ficava muito alegre. Eu ficava até meio sentida porque sabia que isso era perigoso, mas como era o que ele queria, nós não dizíamos para não ir”, compartilha.

Liane comenta que quase sempre acompanhava Daniel até o portão para se despedir do filho. “Eu só pedia: Deus ilumine ele, era só o que eu podia fazer”, menciona.

Ela sabia dos riscos que a profissão de Daniel oferecia, porém, o comprometimento do filho e a alegria demostrada por ele a faziam aceitar os perigos enfrentados durante o trabalho. “Ele honrava e tinha muito respeito pela farda”, evidencia.

Honrarias militares recebidas em Brasília durante as homenagens prestadas ao soldado Trarbach (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Medalha do Exército Brasileiro recebida pela família em homenagem a Daniel, o soldado Trarbach (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

A FAMÍLIA

Filho mais velho do casal Engelmann, Daniel unia a paixão pela carreira militar com o amor que sentia pelos pais e pelas irmãs Camila e Jaqueline.

As cansativas viagens, quase que diárias para Guaíra, onde atuava na 15ª Companhia de Infantaria Motorizada (15ª Cia Inf. Mtz.), não diminuíam a vontade de estar em casa.

A mãe de Daniel conta que orientava o filho a não voltar para casa todos os dias por conta do desgaste que isso causava. “Eu falava pra ele: ‘filho, você não precisa vir pra casa. Lá tem cama, dorme lá, assim você não cansa tanto’. Aí ele falava assim: ‘Ah, mãe, eu prefiro vir pra casa porque eu gosto de ficar com vocês’”, lembra Liane.

 

NAMORADA

Além do amor pela família, Daniel namorava com Maria Luiza, carinhosamente chamada por todos de “Malu”, com que se relacionava há aproximadamente oito meses.

Liane comenta que o filho pretendia tornar a relação mais séria, e para isso havia escolhido o dia 14 de maio, data do aniversário da namorada. Todavia, como trabalharia naquela semana, preferiu deixar a homenagem para o dia 16, após retornar de Guaíra. “Ele entregaria a ela uma aliança de compromisso, mas não deu tempo”, pontua.

 

O DESAPARECIMENTO

Na madrugada do dia 10 de maio, um domingo, a família foi acordada repentinamente por militares do Exército que aguardavam no portão da residência. “Quando abri a janela e vi eles ali fora meu chão se abriu”, conta Liane.

Assim que chegou ao portão, o medo da mãe de que algo ruim havia acontecido com Daniel se confirmou. “Eles falaram para nós que tinha acontecido um acidente e ele estava desaparecido”.

Depois de receber a notícia, o casal foi com os militares até Guaíra para acompanhar as buscas pelo filho. “A chance de que ele pudesse estar vivo foi a primeira coisa que pensei”, relembra.

 

AS BUSCAS

Na segunda-feira, 11 de maio, dia seguinte ao desaparecimento de Daniel, Ivan e Liane permaneceram no quartel, sempre acompanhados por militares, que, segundo ela, deram todo o apoio durante a espera por notícias do filho. “Tinha um médico, um pastor e um sargento sempre junto, nunca nos deixaram sozinhos”, relata Liane.

Ela destaca que a angústia causada pela espera lhe fez sugerir ao marido para que voltassem a Marechal Rondon para pegar o barco da família e ajudar nas buscas pelo filho. “O comandante falou que se pudessem colocar mais embarcações eles colocariam, mas que o Lago já estava cheio de barcos procurando”, conta.

Na tarde de segunda-feira, o casal decidiu voltar para Marechal Rondon para ficar com as filhas enquanto aguardavam por notícias de Daniel.

Liane menciona que durante a angustiante espera o coração de mãe apertava ainda mais quando chegava às 18 horas, pois ela imaginava que as buscas seriam interrompidas. “Mas depois ficamos sabendo que eles não paravam de procurar mesmo à noite”, expõe.

As buscas pelo soldado Trarbach se estenderam por cinco dias, mas cada minuto sem informações sobre o paradeiro dele aumentava a aflição da família. “Sempre tivemos esperança de encontrar ele vivo, mas conforme os dias iam passando a esperança diminuía”, salienta o pai.

 

FIM DAS BUSCAS

A incansável busca pelo soldado Trarbach contou com a participação de mais de 100 oficiais das forças de segurança, entre eles integrantes da Marinha do Brasil, Exército Brasileiro, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros do Estado do Paraná e da Polícia Militar do Estado do Mato Grosso do Sul, além de dezenas de embarcações e helicópteros que auxiliaram nas buscas.

O trabalho dos resgatistas só parou na manhã do dia 15 de maio, sexta-feira, quando o corpo de Daniel foi localizado nas águas do Rio Paraná, em Guaíra.

 

A AUSÊNCIA

Desde a confirmação da morte de Daniel, a família está reaprendendo a viver sem a presença dele em casa, algo que causa muita saudade entre os amigos e familiares. “Às vezes parece que eu vejo ele entrar pela porta. Ele faz tanta falta”, enfatiza Liane.

Visivelmente inconformada com a morte prematura do filho, Liane tenta buscar forças para aceitar a perda. “Eu fico pensando qual é o propósito de Deus com tudo isso. Ele tinha uma vida toda pela frente”, lamenta.

 

O INCIDENTE

A ação militar que culminou na morte do soldado Trarbach aconteceu no dia 10 de maio durante um patrulhamento no Rio Paraná, no contexto das operações Covid-19 e Hórus.

A embarcação da Polícia Federal onde ele estava, em companhia de outros dois militares do Exército, foi atingida propositalmente por uma embarcação clandestina, em alta velocidade, que transportava produtos ilícitos. Logo após a colisão a embarcação clandestina, que transportava drogas, fugiu do local.

Após o ocorrido, os militares foram socorridos e levados à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Guaíra e Daniel desapareceu nas águas do Rio Paraná. O corpo do jovem só foi encontrado cinco dias após o incidente.

 

RESPONSÁVEIS

O falecimento prematuro de Daniel e a forma violenta como tudo aconteceu causou forte comoção entre familiares, amigos, companheiros de farda e na população em geral.

Em resposta à morte do soldado Trarbach, a Polícia Federal (PF) de Guaíra deflagrou no dia 20 de maio a Operação Homem Anjo com o objetivo de cumprir mandados de busca e prisões de indivíduos suspeitos de envolvimento com o tráfico transnacional de drogas e também na morte de Daniel.

Durante a operação foram cumpridos mandados de prisão e de busca e apreensão na região de Guaíra e Itaquirai (Mato Grosso do Sul).

Dentre os investigados, a PF chegou na identificação do provável proprietário da droga, bem como de pilotos das embarcações envolvidas e demais auxiliares da organização criminosa.

A ação foi desenvolvida com apoio de policiais federais de Naviraí (MS), do Grupo de Pronta Intervenção do Paraná, da Coordenação de Aviação Operacional (CAOP) da PF, Pelotão Cobra do Batalhão de Polícia de Fronteira, Grupos Tigre da Polícia Civil, entre outras forças de segurança.

 

HOMENAGENS

Na semana em que completaria 20 anos, Daniel se tornou herói e a imagem do jovem foi a primeira a entrar para a Galeria dos Heróis do Programa VIGIA, inaugurada em Brasília no dia 25 de junho.

A cerimônia aconteceu no Ministério da Justiça e contou com a presença dos pais do soldado Trarbach, Ivan e Liane Engelmann, das irmãs Camila e Jaqueline, do presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, do ministro da Justiça, André Luiz de Almeida Mendonça, do gerente da Operação Hórus, tenente-coronel Saulo de Tarso Sanson Silva, entre outras lideranças e autoridades.

O sargento Douglas Pascoal Ripp e o soldado Fernando Borghes Zwikcker, ambos do Exército Brasileiro e que estavam na mesma embarcação ocupada pelo rondonense, também foram homenageados.

Segundo o pai de Daniel, a homenagem traz um pouco de conforto para a família. “A gente se conforma porque ele partiu fazendo aquilo que gostava”, afirma.

De acordo com a mãe, foi uma honra para a família receber a homenagem em Brasília. “Ficamos muito honrados com isso, mas não dá pra aceitar. Ele era tão novo, tinha tantos sonhos”, lamenta Liane.

O sentimento de perda e a saudade só não são maiores que o orgulho que a família de Daniel sente pelo filho amado e irmão carinhoso que partiu, mas que será sempre lembrado como um herói que dedicou a vida em defesa da Pátria.

 

PROGRAMA VIGIA

O Programa Nacional de Segurança nas Fronteiras e Divisas (VIGIA) é um dos projetos estratégicos do Ministério da Justiça e Segurança Pública, coordenado pela Secretaria de Operações Integradas (Seopi) e que envolve diferentes instituições no combate ao crime organizado nas fronteiras e divisas.

 

POESIA IMPRESSA NA PLACA QUE HOMENAGEIA DANIEL 

“Um rio separando países
Águas que formam fronteiras
Divisa de tempos felizes
Jovens em novas trincheiras

Soldado, guerreiro, menino
Os sonhos de toda uma vida
O crime encurtando o destino
Sua alma, nos céus, acolhida

Restou uma farda valente,
Sua vida em defesa da gente,
A saudade que não tem igual

Que a fé num plano divino
Traga a paz de que hoje, o menino
Se tornou uma alma imortal”

(Alexander Boeing Noronha Dias)

 

JURAMENTO

Trecho do juramento feito por Daniel Trarbach ao ingressar no Exército Brasileiro:

“(…) prometo dedicar-me inteiramente ao serviço da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderei com o sacrifício da própria vida”

 

CONFIRA A ENTREVISTA EM VÍDEO:

O Presente

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