Quem hoje imagina enfrentar fila para fazer uma chamada telefônica? Soa até ridículo, principalmente aos mais jovens. Muitos deles, provavelmente, não sabem nem o que é um orelhão.
Entretanto, os mais vividos conhecem e, possivelmente, em tempos longínquos, já precisaram comprar as famosas fichas, que na década de 1990 foram substituídas pelos cartões telefônicos para usar o serviço de telefone público em algum lugar do país.
O Brasil atingiu o apogeu dos orelhões em 2001, com 1,38 milhão de unidades. No ano passado eram 188,465 mil e hoje, duas décadas depois do auge do telefone público, são apenas 170.435 aparelhos. Deste total, 37.608 estão em manutenção, ou seja, 77,93% estão disponíveis para uso da população. O Paraná é o Estado da região Sul onde existe o maior número de aparelhos, com 8.668 orelhões disponíveis.
Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), em Marechal Cândido Rondon existem 49 orelhões e cinco deles estão em manutenção, o que representa disponibilidade de 89% do total de aparelhos.
Mas, apesar destes aparelhos constarem no site da Anatel como aptos para serem usados, muitos deles já foram retirados por conta de vandalismo ou acidentes envolvendo automóveis. Porém, quase nunca ocorre o conserto, visto que o serviço de telefones públicos não tem mais procura como antes.
Atualmente, em Marechal Rondon, os orelhões são encontrados próximos a hospitais, instituições de ensino e no terminal rodoviário.
Orelhão x celular
Achar alguém que já tenha realizado ligações de um orelhão não foi tão difícil, mas encontrar uma pessoa que ainda utilize o serviço em meio a tanta tecnologia oferecida pelos smartphones foi quase como “encontrar uma agulha em um palheiro”.
Entretanto, quando parecia que as chances estavam se esgotando, a reportagem do Jornal O Presente encontrou a Silmara Pacheco dos Santos, uma rondonense de 37 anos que há cerca de três meses busca uma vaga de emprego na área de serviços gerais.
Silmara conta que costuma utilizar o telefone público com frequência, especialmente depois que perdeu o emprego. “Muitas vezes quando vou buscar trabalho, eles passam o telefone fixo e usar o celular para isso consome muitos créditos e do orelhão consigo ligar ser gastar nada”, comenta.
Além disso, ela relata que quando utiliza o celular para ligar para fixo a qualidade da ligação não é boa. “Às vezes, fica com chiado e acontece de cair a ligação, mas quando uso o orelhão a voz fica limpinha”, expõe.
Silmara ressalta a importância dos telefones públicos, mesmo com a utilização em massa do celular pela população. “Acho que precisa ter orelhão, porque nem todas as pessoas têm celular e, por exemplo, uma pessoa de idade pode usar o aparelho para ligar para um filho que está distante. Isso facilita”, avalia.
A rondonense diz que, além de utilizar outros aparelhos em diferentes locais da cidade, como o que usava no momento da entrevista, nas proximidades da Escola Municipal Érico Veríssimo, usa também o orelhão próximo a sua casa, em frente ao Colégio Estadual Frentino Sackser, no Bairro Botafogo, o qual, segundo ela, funciona perfeitamente.

Rondonense Silmara Pacheco dos Santos: “Acho necessário ter orelhão por que nem todas as pessoas têm celular ou telefone fixo” (Foto: Sandro Mesquita/OP)
Onde tem
Mas será que todos os orelhões que ainda resistem ao tempo estão funcionando?
A reportagem do O Presente se dirigiu a muitos telefones públicos espalhados pela cidade para saber as condições dos aparelhos. Entre os locais visitados, na maioria dos telefones é possível realizar chamadas, com exceção dos localizados em frente ao Hospital Rondon, no Hospital Municipal Dr. Cruzatti e na Escola Municipal Criança Feliz.

Orelhão encontrado em frente à Escola Municipal Bento Munhoz da Rocha Neto não funciona atualmente (Foto: Sandro Mesquita/OP)
Usuários
No terminal rodoviário existem dois telefones públicos, um adaptado para cadeirante, localizado do lado externo, e outro instalado no corredor interno, que, segundo a proprietária de uma lanchonete que fica dentro do terminal, Cenilda Fridrich, é o mais utilizado por pessoas que frequentam a rodoviária. “Quem ainda usa são pessoas que chegam aqui e às vezes não têm bateria no celular e precisam ligar para família vir buscar”, exemplifica.
O último cartão de telefone público vendido em sua lanchonete foi há cerca de dois meses. A comerciante menciona que não pretende comprar mais cartões para revender. “Eu comprava uma quantidade grande e como demorava muito para vender não vou comprar outros”, menciona.
Ela relata que os cartões eram adquiridos de um vendedor de Cascavel, mas como a última compra feita por ela foi há bastante tempo, a comerciante não soube informar se ainda é possível encontrar cartões telefônicos para comprar.
Muitos destes cartões, a maioria sem créditos, foram parar nas mãos de colecionadores, pois são admirados pela infinidade de temas que vinham estampados, como datas festivas e pontos turísticos, entre outros.

Comerciante Cenilda Fridrich: “É uma coisa boa, porque quando vem uma pessoa com dificuldade para fazer ligação, pode usar o orelhão e se for para fixo local não precisa nem pagar” (Foto: Sandro Mesquita/OP)
Recordar é viver
O aposentado Egídio Pereira Rosa, de 74 anos, já fez muitas ligações de orelhões quando esta era uma das poucas formas de comunicação. “Quando eu saía quase sempre usava o orelhão”, mas atualmente, munido de seu smartphone – que ele confessa não saber para que serve a maioria das funções -, fazia uso da tecnologia enquanto aguardava o ônibus no terminal rodoviário com destino a Cascavel, quando foi abordado pela nossa reportagem. “Eu tô apanhando um pouco. Tem muitas coisas que eu não sei, mas devagarinho a gente vai aprendendo”, expõe.

O aposentado Egídio Pereira Rosa, de 74 anos, não utiliza mais telefones públicos, mas afirma que o serviço pode ser útil para muitas pessoas. “Quando eu saia quase sempre usava o orelhão” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Ligações de emergência, como para o 190 da Polícia Militar (PM), podem ser feitas de forma gratuita (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Telefone público próximo ao Hospital Rondon é um dos orelhões que precisam de manutenção (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Aparelho telefônico localizado em frente ao Hospital Municipal Dr. Cruzatti também não está funcionando (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Orelhão da Escola Criança Feliz é outro aparelho que está desativado (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Telefones públicos existentes no terminal rodoviário estão em funcionamento (Foto: Sandro Mesquita/OP)
Como utilizar um telefone público
É tão evidente o desuso dos orelhões que muitas pessoas não sabem como utilizar o aparelho. Mas, além das chamadas de emergência como para o190 da Polícia Militar, 193 do Corpo de Bombeiros e 192 do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), existem outras quatro formas de fazer ligação de um telefone público.
Ligação local para telefone fixo (grátis)
Quando o destino da ligação era um telefone fixo local, era necessário cartão telefônico para completar a chamada, porém, em 2015 a Anatel decidiu tornar grátis esse tipo de ligação porque a empresa de telefonia não ofereceu o número mínimo de aparelhos determinados para cada cidade.
Além do Paraná, a decisão passou a valer para outros 14 Estados brasileiros e, desde então, as ligações locais feitas de orelhões para telefone fixo se tornaram gratuitas.
A medida, provavelmente, também tenha contribuído para a escassez dos cartões telefônicos que eram encontrados em bares, panificadoras e lanchonetes. Hoje é praticamente impossível encontrar pontos de revenda.
Ligação local a cobrar
Outra maneira de realizar chamada local é fazendo uma ligação a cobrar. Todavia, essa forma de ligação não faz sentido no Paraná, uma vez que as ligações locais são gratuitas. Mas, se porventura, a pessoa estiver em um dos Estados que o serviço seja cobrado, é só proceder da mesma maneira que em uma ligação a cobrar feita do celular ou telefone fixo: disque 9090 + o número de telefone desejado.
Ligação a cobrar para outra cidade
Para ligar para outras cidades a cobrar de um telefone público, você deve seguir a mesma regra das ligações comuns.
Então, basta escolher a operadora que você prefere e discar 90 + código da operadora + DDD + número de telefone desejado.
Chamada a cobrar para outro país
Se, no seu caso, a pessoa com quem você precisa falar está em outro país, ainda assim esses equipamentos podem ser a sua salvação.
Para realizar chamada internacional a cobrar disque 00 + código da operadora + código do país + código da cidade + número de telefone desejado.
A origem do orelhão
O telefone público foi criado em 1971 pela arquiteta brasileira Chu Ming Silveira, quando foi chefe do Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira. Chu recebeu a missão de criar um protetor para os telefones públicos que fosse bonito e funcional.
Sendo assim, a arquiteta pensou que a partir do formato de um ovo, a acústica seria melhor mesmo em ambientes fechados.
Então, o projeto ganhou vida e foi fabricado em fibra de vidro, já que este é um material resistente tanto ao sol quanto à chuva, assim como às oscilações de temperatura comuns no Brasil. No entanto, o orelhão não chegou com esse nome.
Denominados de Chu I e Chu II, a população acabou criando apelidos para os dois primeiros projetos: orelhinha e orelhão. Por muito tempo, os telefones públicos eram o único meio de comunicação que as pessoas tinham para falar com alguém fora de casa. Contudo, esses equipamentos caíram em desuso depois da popularização dos aparelhos celulares.

Orelhão localizado em frente à Escola Municipal Jean Piaget funciona, mas, segundo relatos de professores, o aparelho quase não é utilizado (Foto: Sandro Mesquita/OP)
O Presente