Depois de 14 anos como pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, de Marechal Cândido Rondon, o padre Solano Tambosi se despede da comunidade católica neste fim de semana, com a celebração de três missas na matriz: uma no sábado (20) à noite e duas no domingo (21), pela manhã e à noite.
De mudança para Tupãssi, onde vai assumir a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, padre Solano destaca a engajada parceria dos fiéis em sua trajetória em Marechal Rondon e enaltece a generosidade dos rondonenses, os quais, garante, levará em seu coração por toda a vida. “A despedida sempre traz emoções. Fico feliz com todo o carinho que tenho recebido do povo. Só tenho uma coisa a dizer aos rondonenses: gratidão. Eu fui e sou feliz em Marechal Rondon. Eu amei e amo essa comunidade”, destaca.
O padre não esconde o desejo de um dia, quem sabe, retornar ao município. “A possibilidade, amanhã ou depois, é a Paróquia Maria Mãe da Igreja, mas não sei. Isso tem que estar no coração de Deus”, salienta.
Em entrevista ao O Presente, Solano falou do sentimento de deixar uma comunidade pela qual é bastante querido e da expectativa para os trabalhos em Tupãssi. Discorreu ainda sobre os desafios da igreja nestes tempos de pandemia, revelou que, mesmo em outra comunidade, continuará participando do projeto que prevê a construção de um santuário e deu um conselho aos fiéis rondonenses. Confira.
O Presente (OP): Como o senhor recebeu o anúncio da sua transferência da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Marechal Rondon, para a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, em Tupãssi? Esperava esta mudança ou foi uma surpresa? Imaginava que seria neste ano?
Solano Tambosi (ST): São 14 anos em Marechal Rondon. Sou o padre que mais tempo ficou no município, que mais tempo está à frente de uma paróquia. O normal é a gente ficar seis anos. Nós somos nomeados por seis anos em cada paróquia, mas esse tempo pode ser prolongado. Em função do Colégio Cristo Rei, que precisava ser reorganizado, acabei ficando mais tempo do que o normal em Marechal Rondon. É interessante que anos atrás eu comentei com vários padres de que o dia que eu saísse de Marechal Rondon, uma das paróquias que eu gostaria de atuar seria Tupãssi. Deus ouviu a minha prece. Então, vou feliz para lá.
OP: Qual é o sentimento em deixar uma comunidade pela qual o senhor é bastante querido, não somente por católicos, por sinal, mas por cidadãos de diferentes denominações religiosas?
ST: Eu fui e continuo sendo feliz em Marechal Rondon. Por todos os lugares que passei, sempre tive muito claro no meu coração: eu vou em nome de Jesus, vou para aquela comunidade para amá-la, e sempre deu certo. Quando vamos em nome de Jesus, para amar a comunidade, a gente é feliz. Eu sou feliz em Marechal Rondon.
OP: Como estão os preparativos para a mudança? Já caiu a ficha que restam poucos dias em Marechal Rondon?
ST: Parece que a ficha ainda não caiu. Por enquanto, estou me despedindo das comunidades. Já me despedi da comunidade do Jardim Marechal, São Lucas, São Francisco, no Ana Paula e em outras também. A despedida sempre traz emoções, porque não sei se ainda vou atuar com essas comunidades. Tanto no São Francisco como no São Lucas, as capelas estavam lotadas. A gente fica feliz com esse carinho do povo.
OP: Quando será a sua última missa em Marechal Rondon?
ST: Vou me despedir da comunidade da matriz no dia 20, sábado à noite, e no dia 21, no domingo, nas duas missas. Na missa das 08h30 haverá batizados. Tem cerca de 20 para fazer.
OP: Por falar em números, o senhor tem ideia de quantos batizados, casamentos, primeiras comunhões e crismas realizou nestes 14 anos na Paróquia Sagrado Coração de Jesus?
ST: Eu estava fazendo um levantamento essa semana (semana passada). Até me questionei, será que eu fiz tudo isso? Batizados passaram de 2,5 mil, primeiras comunhões foram quase 1,7 mil, crismas em torno de 1,5 mil e casamentos chegam a 560.
OP: Nesse tempo em que esteve em Marechal Rondon, como o senhor define o seu relacionamento com a comunidade católica local?
ST: Eu amei e amo a comunidade de Marechal Rondon. Primeiro lugar, porque é uma comunidade fervorosa, participativa. Eu sempre elogiei. Há muitas lideranças que realmente arregaçam as mangas e participam. Uma outra virtude da comunidade local é a generosidade. Em todas as campanhas que fizemos em prol de pessoas necessitadas sempre houve muito engajamento. Nós atendemos em torno de 40 a 50 famílias que são visitadas. Vemos a necessidade delas. Temos um trabalho de promoção humana, de arrumar serviço para essas pessoas, e damos cestas básicas por três meses, para também não criar um círculo vicioso que acomode-as. A generosidade do povo de Rondon e a amizade são elogiáveis.
OP Qual é a sua expectativa quanto à paróquia que vai assumir em Tupãssi?
ST: Segundo informações que obtive, em Tupãssi há muitas pessoas nortistas e também pessoas de origem italiana; é um povo muito fervoroso, muito bom. Tenho certeza que vou ser feliz lá também, como estou sendo feliz aqui.
OP: O senhor tem esperança de voltar a ser pároco em Marechal Rondon algum dia? Há essa possibilidade?
ST: Normalmente, a gente não retorna à paróquia que trabalhou. A possibilidade, amanhã ou depois, é a Paróquia Maria Mãe da Igreja, mas não sei. Isso tem que estar no coração de Deus. Por enquanto, o que posso dizer é que eu volto para Marechal Rondon para passear.
OP: Com a chegada da pandemia de Covid-19, em março de 2020, todo mundo precisou se adaptar diante das medidas restritivas para conter o avanço da doença. Na Igreja, como foi essa experiência, que limitou por um bom tempo o contato presencial com os fiéis. Como o senhor lidou com essa situação inusitada de rezar missas sem público?
ST: Foi uma experiência de dificuldades, mas também muito rica. Você ter que celebrar missas sem público, você olhar para a igreja e só ver bancos, foi muito diferente. Eu procurava me concentrar, porque tinha muita gente nos acompanhando pelo Facebook e rádio. Agora a igreja está recomeçando. Muitas pessoas estão voltando a participar das celebrações. Eu nunca fiquei restringindo demais ou preso em medos e objeções. Seguimos todos os protocolos de saúde e segurança, tem álcool gel, distanciamento, as pessoas usam máscaras. Então, é deixar o pessoal participar e seja o que Deus quiser.
OP: Nas suas férias, agora em janeiro, o senhor pegou Covid-19. Confere?
ST: Testei positivo. Estava na casa da mãe, em Santa Catarina, e em cinco pessoas da família pegamos Covid-19. Posso dizer que não foi fácil. Talvez seja fácil para quem não tem sintomas, mas para quem tem, é duro. Eu tive vários sintomas, muita fraqueza, sono, diarreia, falta de apetite, entre muitos outros. Minha mãe, com 85 anos, tirou de letra. Os demais também tiveram sintomas, mas o que mais ficou fragilizado fui eu. Fomos ao médico e tomamos todos os remédios recomendados. Graças a Deus, estamos todos bem. Quem tiver a oportunidade, eu recomendo: tome a vacina. A vida precisa ser preservada, porque é um dom de Deus.

Padre Solano testou positivo para Covid-19 em janeiro: “Não foi fácil. Fiquei bastante fragilizado” (Foto: Ana Paula Wilmsen/OP)
OP: O senhor sonhava, juntamente com membros ativos da comunidade católica, tirar do papel um projeto que prevê a construção de um santuário. Os planos se findam, agora, com a sua partida para outra paróquia ou mesmo de longe o senhor segue sonhando com esse projeto?
ST: Nós tivemos vários projetos. Um dos projetos foi a recuperação do Colégio Cristo Rei. Graças a Deus, ele está indo muito bem. Nós tivemos projetos de recuperação de capelas, reformas. Hoje as capelas que pertencem à Paróquia Sagrado Coração de Jesus estão todas em ordem, bonitas, não só em termos de construção, mas também em termos de pastoral e participação na liturgia. Tivemos na Nossa Senhora do Perpétuo Socorro um trabalho muito bonito e a capela tem hoje uma participação bastante expressiva. É uma comunidade que está caminhando muito bem. Nós estamos em vias de conclusão da Capela São Francisco, que é bastante grande e bonita. A matriz está toda reformada. Pensou-se, sim, na construção de um santuário. A princípio, era para ser na Capela Perpétuo Socorro, mas depois, conversando com a diretoria, imaginou-se fazer esse santuário em um local de fácil acesso, para que as pessoas que estão viajando, os caminhoneiros, pudessem fazer uma parada, e também, é claro, para que qualquer família, qualquer cidadão pudesse visitá-la. Estamos pensando em achar um terreno às margens da rodovia. Digamos que as coisas ainda estão “cozinhando”. Colocamos no coração de Nossa Senhora, de Deus, e se for a vontade deles, com certeza a obra florescerá. Os recursos depois a gente vê. Eu falo sempre na igreja quando se quer fazer alguma coisa: “pessoal, nós vamos fazer tal coisa. O dinheiro nós já temos; está no bolso de vocês”. Deus proverá, mas estamos pensando seriamente, sim, em construir o santuário.
OP: O senhor pode falar um pouco mais sobre esse projeto?
ST: Queremos dedicar o santuário a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Há uma devoção muito grande a Nossa Senhora Aparecida. Ela é muito amada. Pensamos em edificá-lo em um local onde as pessoas pudessem chegar com facilidade, ter seu momento de oração, de preces, de agradecimento, de pedidos e, evidente, é claro, teremos que ter uma assistência religiosa, com a presença de um sacerdote ou mais, dependendo da demanda das pessoas. Nossa intenção é que o santuário seja um ponto de referência para Marechal Rondon, cidades vizinhas e por todos os viajantes, que seja um lugar de oração.
OP: Particularmente, acredita que este projeto vai sair do papel algum dia?
ST: Acredito que sim.
OP: Mesmo estando em outra paróquia, o senhor vai seguir envolvido no projeto?
ST: Sim, seguirei participando. Assumi esse compromisso com o Milton Becker, com toda a diretoria e com as pessoas que ficaram entusiasmadas com esse projeto.
OP: Apesar do padre Sérgio Rodrigues já ter atuado como vigário, ao seu lado, na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, anos atrás, e ter uma passagem de sete anos na Paróquia Maria Mãe da Igreja, nem todos os fiéis rondonenses lembram dele. Neste período de transição, do retorno dele para a matriz, agora como pároco, e da sua partida para Tupãssi, qual o conselho em termos de receptividade o senhor dá à comunidade católica?
ST: Nas comunidades que eu estou me despedindo faço essa recomendação: pessoal, vocês dizem que me amam, então acolham bem o padre Sérgio e o amem também. Ele ficou dois anos e meio comigo como vigário e fez um trabalho muito bonito na liturgia, porque o padre Sérgio é mestre em liturgia. Depois ele esteve no Botafogo, na Paróquia Maria Mãe da Igreja, e todas as capelas, enquanto ele esteve exercendo o ministério lá, foram reformadas e a matriz também. O padre Sérgio fez um trabalho muito bonito tanto na administração quanto no trabalho pastoral. Eu tenho certeza que ele vai fazer um trabalho muito bonito na Paróquia Sagrado Coração de Jesus. Cada um tem o seu jeito.
OP: Tem alguma mensagem, em especial, à comunidade católica de Marechal Rondon, da qual o senhor se despede nos próximos dias?
ST: Só tenho uma coisa a dizer: gratidão. Durante esses 14 anos é evidente que tive os meus defeitos, afinal, nem sempre a gente conseguiu acolher todas as pessoas como deveria. Peço perdão àquelas que, de repente, eu magoei. Tenham certeza de que procurei dar o melhor de mim. Amei o trabalho que eu fiz e seguirei amando o que eu faço. Me sinto feliz como padre. Sempre falo, por ocasião do Dia do Sacerdote, em agosto, que se Deus me permitisse nascer muitas vezes, eu agradeceria a Ele o chamado para ser padre, pois me sinto feliz como tal. A receita, não só para o padre, mas para todos, para os casais, para os filhos, para o trabalho que a gente exerce, é que quando a gente ama, mas ama de verdade, a gente é feliz. Então, eu fui feliz e continuo sendo feliz em Marechal Rondon. Deixo a minha gratidão a todos os rondonenses e um beijo no coração.

Padre Solano Tambosi: “Normalmente, a gente não retorna à paróquia que trabalhou. A possibilidade, amanhã ou depois, é a Paróquia Maria Mãe da Igreja, mas não sei. Isso tem que estar no coração de Deus. Por enquanto, o que posso dizer é que eu volto para Marechal Rondon para passear” (Foto: Ana Paula Wilmsen/OP)
TRAJETÓRIA
Nascido em Rodeio, Santa Catarina, em 19 de maio de 1957, Solano Tambosi sentiu-se tocado pelo sacerdócio desde pequeno. Ainda criança, despertou-se para a vocação inspirado em frei Felipe, um homem muito bom e de coração enorme que conhecia na época.
“A minha família é muito religiosa e sempre participávamos da igreja. Tínhamos contato com padres. No colégio, quem lecionava eram irmãs, catequistas e religiosas. Então, eu vivi num ambiente religioso. Ainda quando criança, eu queria ser igual ao frei Felipe”, conta.
Solano entrou no seminário aos 20 anos de idade, cursando Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em Curitiba. Fez o noviciado em Miracatu (SP) e Teologia em São Paulo (SP). Tornou-se diácono em março de 1986 e presbítero em novembro do mesmo ano.
Sua primeira missão, após a ordenação como sacerdote, foi como vigário paroquial na Catedral de Foz do Iguaçu. Depois, foi transferido para Curitiba para trabalhar na animação vocacional, onde também atuou como formador do propedêutico. Na sequência, foram 12 anos atuando na formação de futuros sacerdotes no Seminário Verbo Divino, em Toledo, e dois anos como padre em Nova Santa Rosa, até chegar em Marechal Rondon em 1º de fevereiro de 2007, onde sempre atuou na igreja matriz.
“Já são 34 anos de padre”, enfatiza Solano, que, aos 63 anos de idade, segue sua trajetória, comprometido no amor de Cristo e feliz pela escolha que fez 44 anos atrás.

Padre Solano Tambosi: “Só tenho uma coisa a dizer à comunidade: gratidão. Durante esses 14 anos é evidente que tive os meus defeitos, afinal, nem sempre a gente conseguiu acolher todas as pessoas como deveria. Peço perdão àquelas que, de repente, eu magoei. Tenham certeza que procurei dar o melhor de mim” (Foto: Ana Paula Wilmsen/OP)
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