O Presente
Marechal

Para pastores de Marechal Rondon, Igreja sairá fortalecida da era pós-Covid-19

calendar_month 5 de maio de 2020
14 min de leitura

As restrições determinadas para impedir o avanço do novo coronavírus também afetaram os templos religiosos, bem como os fiéis, que deixaram de frequentar as igrejas, onde participavam de cultos e missas. Com isso, as comunidades religiosas passaram a vivenciar um tempo nunca visto ou imaginado antes.

Assim como em muitos lugares, em Marechal Cândido Rondon, município de 53 mil habitantes e com igrejas das mais variadas denominações, os líderes espirituais usaram a criatividade para transmitir mensagens de fé, otimismo e levar a palavra de Deus aos cristãos por meio de programação nas rádios locais ou celebrações on-line em plataformas digitais, como Facebook e Youtube.

Em entrevista ao O Presente, o pastor da Igreja Evangélica Congregacional do Brasil (IECB), Dorival Seidel, e o pastor da Igreja de Deus – Ecos da Liberdade, Isaí Hort, falaram sobre o aprendizado oportunizado neste período de pandemia e fizeram uma projeção para o futuro, destacando a importância do trabalho da igreja em estimular a reflexão e orientar os cidadãos, assim como das pessoas buscarem e estarem próximas de Deus no decorrer das suas trajetórias.

 

DIVISOR DE ÁGUAS

Para Seidel, um dos maiores aprendizados deste período é que nunca se pensou que a humanidade seria tão frágil. “Ninguém imaginou que um vírus invisível viesse a destronar tantos delírios que a humanidade estava criando, parecendo que o ser humano era onipotente. Podemos fazer muitas reflexões quanto à pandemia pela qual estamos passando e eu creio que este é um divisor de águas, pois o tempo nunca mais será o mesmo de antes, comparado com o tempo que virá”, acredita.

Ele diz que o ocorrido leva à reflexão do quanto é necessário estar preparado para as surpresas da vida. “A humanidade é muito autoconfiante em si própria, a humanidade quer dar respostas a si mesma, quando as respostas que o ser humano precisa, em seu fundamento principal, está em algo superior, em Deus. Temos de aprender a dependermos mais e mais daquele que nos criou, daquele que nos deu e nos preserva a vida”, enaltece.

O pastor lamenta o fato da quarentena provocar o afastamento social, uma vez que a vida cristã se relaciona no afeto, no toque, no abraço. “É muito triste o quadro que nós temos dentro do espaço da vida cristã, quando a gente precisa, por amar o outro, se afastar, se distanciar. Queremos respeitar os decretos, mas está sendo um tempo muito difícil. Você não pode ter o trabalho com as crianças, que é uma vida dentro de uma comunidade e na igreja. Não pode ter o aconchego das pessoas acima de 60 anos por estarem no grupo de risco, além de respeitar o distanciamento sugerido”, aponta.

Segundo Seidel, a Igreja Congregacional, após semanas sem cultos, em respeito aos decretos federal, estadual e municipal, teve recentemente, com a flexibilização das regras, duas experiências em termos presenciais, respeitando as normas de prevenção. “São cultos com poucas pessoas, pois todas estão em toque de recolher e com sentimento de susto. Como as pessoas vão se expressar em louvor a Deus usando máscaras? Então há muitos aspectos analisados que são pesados. Porém, tem algo que destaco como muito positivo. Nesse período trabalhamos com muitos vídeos, muitas lives, muito contato com as pessoas por escrito, reflexões e assim por diante. Constatamos que nunca as pessoas estavam tão abertas ou tão voltadas a Deus como estão nesse período”, revela.

O pastor reforça que esse é um fato muito positivo. “Por exemplo, uma live alcançar dez mil visualizações. Eu não alcançaria isso em nenhum culto na cidade; alcançaria 200, 100 pessoas em um culto presencial. Não alcançamos os presentes dentro de um espaço geográfico, mas, sim, pessoas de outros países, do Paraguai, da Irlanda, da Alemanha. Isso também é gratificante! A gente percebe que nesse período as pessoas se apegam a Deus muito mais do que antes”, expõe.

 

Pastor da Igreja Evangélica Congregacional do Brasil, Dorival Seidel: “A igreja exerce papel determinante nesse período e para frente visando levantar o ânimo e a coragem das pessoas. Creio que elas estarão muito mais sensíveis à palavra de Deus. Também creio que a misericórdia e a bondade de Deus vão se inclinar sobre as pessoas” (Foto: Joni Lang/OP)

 

PROPÓSITO

Seidel espera não precisar acompanhar nenhum óbito resultante de Covid-19. “Continuo crendo que Marechal Rondon não vai ter óbitos por essa causa e, se tiver, continuo dizendo que é unicamente porque Deus tem propósitos a mostrar. Peso que o novo coronavírus é o mais eficiente missionário que Deus pode usar nesse tempo. Muitos e muitos púlpitos eram paisagens, muitos e muitos pastores, homens chamados com vocações sérias, vindas do céu, não estavam sendo ouvidos e Deus permite uma situação mundial em que as pessoas se voltam ao ser superior, a Deus, que é real, e que conduz a história da humanidade do início ao fim”, destaca.

Na opinião do pastor, Deus vai permitir que no período pós-Covid-19 as pessoas entendam melhor o seu propósito de vida. “Deus formou o ser humano para ser adorador nesse mundo material, assim como são os anjos no mundo espiritual. Acredito que as pessoas vão estar grandemente impactadas para, após esse novo coronavírus, demonstrarem uma nova realidade no seu relacionar ao criador”, entende.

Seidel destaca que a natureza de Deus é vida e bondade, e que nesse tempo de susto há pessoas alcançando a sua vida em favor dos outros como em nenhum período da humanidade. “Creio que o cristianismo vai aprender a amar de forma mais profunda, mais significativa, porque como cristãos também estávamos acomodados. Nós víamos necessidades e pensávamos que isso não importava conosco. Hoje estamos sensibilizados como em nenhum outro período. Uma pessoa de idade disse em uma fila de supermercado: ‘Pastor, esse tempo é muito mais impactante do que a 2ª Guerra Mundial que passei’. Que todos possamos tirar as devidas lições desse tempo e, se Deus nos permitir, uma caminhada futura podendo viver muito mais à luz de sua vontade”, reflete.

 

OBRA DIVINA

O pastor da Igreja Evangélica Congregacional acredita que Deus teve de intervir na história da humanidade de forma pesada. “São tantas práticas na humanidade que os céus estavam a rolar lágrimas”, pontua. Ele lembra que nos Estados Unidos foram registrados em torno de 140 mil abortos de janeiro a abril deste ano, enquanto a maioria dos países não terá esse número de vítimas pela Covid-19. Também evidencia o elevado número de pessoas que morrem devido à violência, drogas e outras doenças. “Não é o caso de se levar a extremos, mas creio que a Covid-19 é uma permissão para Deus poder fazer sua obra em meio à humanidade. O desafio é sermos sábios com ações inovadoras e perseverantes no que é certo e viável. O desafio de manter as pessoas na marcha é muito grande, pois a igreja trabalha com grande parcela de pessoas de idade. A igreja exerce papel determinante nesse período e para frente visando levantar o ânimo e a coragem das pessoas. Os membros fazem parte da sociedade e nós estamos preocupados como igreja local e nacional. Há municípios em que a igreja atua e 60% da população passa dos 60 anos. Como vamos agir para manter a jornada? Creio que as pessoas estarão muito mais sensíveis à palavra de Deus e à intervenção divina”, analisa.

Ele destaca o evento promovido no dia 27, em que cristãos de diversas denominações participaram do Ora Marechal, uns prestando atenção na celebração religiosa dentro de seus veículos e outros tantos acompanhando pelos meios de comunicação e internet. “Creio que a misericórdia e a bondade de Deus vão se inclinar sobre cada família, sobre a população da nossa cidade, do nosso Estado e do país. Deus acompanhe e esteja sobre a vida e sobre o lar de cada um”, enaltece.

 

PRIORIDADES

Na visão do pastor da Igreja de Deus – Ecos da Liberdade, o passar de cada semana deixou um legado. “Penso que o primeiro legado é a questão de reavaliarmos nossas prioridades entre terrenas e eternas. De repente vimos a fragilidade da humanidade. Por exemplo, um país de primeiro mundo como a Itália, com todos os recursos que supostamente tem, não evitou a grande tragédia. Isso sinalizou para o mundo que nós somos o pó e para o pó voltamos. O que tenho visto como pastor é que quando o ser humano se sente forte ele é fraco, mas quando se sente fraco aí sim ele é forte”, analisa Hort.

Ele acentua que Paulo, o apóstolo, faz esta comparação. “Quando entendemos nossa fragilidade é como se a força de Deus se instalasse em nós em um sentido bem equilibrado. Deus me fortalece, eu vou seguir com fé, porém sei que sou humano, preciso da graça Dele. Isso aumenta a dependência da humanidade em relação ao divino. Anteriormente não vimos um tempo como esse com tantas autoridades clamando a Deus. Poderosos governantes se veem nas suas limitações, então os mais altos escalões de poder e empresários que de repente tinham tudo em mãos hoje têm uma grande dívida, e tudo reverteu. Se percebeu que aquilo que é terreno de repente não vale nada”, aponta. Ele menciona como exemplo o petróleo sendo pago para que alguém leve embora. “O grande legado é a revisão de valores pela qual a humanidade passa”, considera.

 

PROXIMIDADE

No que tange às celebrações, Hort diz que neste período de quarentena foram realizados seis cultos on-line, cinco aos domingos e outro na Sexta-feira Santa. “Foi uma experiência diferente! Nós já éramos acostumados a transmitir, mas não ter público na igreja mudou tudo para nós. Para os pastores o desafio foi enorme em nível de Brasil, pois estávamos acostumados a subir no púlpito e pregar, quando de repente precisamos pregar diante de uma câmera. Quem fazia programa de rádio estava um pouco habituado, mas a grande maioria não. Eu senti que foi um período bom, a igreja continuava quente atrás da tela participando dos cultos. A gente incentivou os membros a escreverem mensagens uns para os outros”, comenta.

“A igreja é o corpo de Cristo, é comunidade, então eu não acredito que exista igreja 100% on-line, pois não vai funcionar. Igreja é abraço, olhar no olho. ‘Uns aos outros’ é o termo que mais aparece na bíblia. Então incentivamos as pessoas a fazerem isso, um mandava foto para o outro e isso gerou um reascender dos relacionamentos, foi muito bonito. Penso que de alguma forma o desafio foi bem aproveitado, pois recebemos vídeos de pastores da Europa e dos Estados Unidos dizendo como estavam. Houve uma conexão dos cristãos em um nível diferente, até produtivo, mas creio que isso deve ser temporal. A longo prazo a igreja não pode funcionar assim, é realmente uma situação muito pontual”, reflete.

O primeiro culto presencial foi celebrado no dia 26, no entanto teve menos de 1/3 da visitação normal, apesar de ser possível receber até 40% de pessoas nas igrejas, desde que distanciadas e respeitada a questão de grupo de risco. “Foi um sentimento estranho porque muitos idosos escreveram chorando que queriam estar na igreja, eles são os mais fervorosos, e nós lembramos deles de forma on-line com mensagens direcionadas a esse grupo, entretanto nossa igreja não forçou ninguém a vir. O período é delicado e as opiniões são muito diferentes. Queremos que os irmãos se sintam livres, então falamos: se você quiser vir, siga todas as regras, venha com máscara. Foi estranho, contudo nos habituamos, pelo menos vimos o olho do outro”, relata.

De acordo com o pastor, a principal reflexão é direcionada a Deus, no sentido das pessoas reverem suas prioridades. “O que era importante para mim? Uma coisa é alguém não ir à igreja porque não quer e outra é não ir porque não pode, ou seja, isso meche até com aquele que não era muito assíduo. Essa pessoa também começa a sentir falta e ver a importância da igreja na sua vida particular. Domingo preguei sobre hábitos cristãos que abençoam a nossa vida, e os três hábitos de Jesus que nós vemos nos textos bíblicos são: Jesus estava na sinagoga todos os sábados. Hoje nós praticamos no domingo porque Jesus ressuscitou no domingo, mas era um costume de Jesus todo sábado estar na sinagoga. Era um costume de Jesus praticar a leitura da palavra, focar na palavra de Deus. Nós temos que voltar a procurar a opinião de Deus, pois ali é a fonte de vida. O terceiro hábito é a oração, focar em Deus novamente. Precisamos repensar nossos valores e constatar o quanto Deus é importante na minha vida”, resume.

No entanto, Hort lamenta que o ser humano cresce mais na crise do que na prosperidade. “Quando está bem ele esquece de Deus, da família, mas quando bate uma doença parece que tudo muda. Agora uma doença bate à porta de todos, então estamos revendo nossos conceitos e isso é muito válido. O nosso pedido é que isso não esfrie conforme tudo for voltando ao que era antes, porque é a nossa tendência. A gente chora no dia do funeral, mas não dá duas ou três semanas todo aquele sentimento começa a esfriar novamente. Que não sejamos movidos por emoção, mas, sim, por princípios. Que vire rotina ler a Bíblia, falar com Deus, valorizar mais o meu próximo e que isso seja uma nova forma de viver”, ressalta.

 

Pastor da Igreja de Deus – Ecos da Liberdade, Isaí Hort: “A igreja sairá fortalecida desse período. Nós redescobrimos que Deus não se encontra somente na igreja, mas em nossas casas também. É uma das lições que tiramos desse período” (Foto: Joni Lang/OP)

 

FUTURO

Segundo ele, a expectativa é de que tudo volte ao normal o quanto antes e que o ser humano não mude no sentido de criar medo do próximo e também não se distancie do outro sob a desculpa de contaminação. “Espero que isso passe e que a gente não volte com medo do próximo e nem de se abraçar. Tivemos a experiência nesse período de pessoas em profunda depressão que já estávamos acompanhando, mas que foram fortemente impactadas pela falta do convívio e por falta da igreja. Espero que o quanto antes a igreja possa voltar à sua normalidade de ter coragem de abraçar, de olhar no olho e de estender a mão. Agora devemos ser sábios de respeitar os cuidados, mas que isso não mude o padrão de estar próximo de alguém, porque o ser humano precisa disso”, enfatiza.

Para o religioso, o abraço salva vidas. “Temporariamente a gente pode entender ser necessário se distanciar, porém o abraço continuará salvando vidas, ele vai continuar necessário. E que depois não tenhamos medo de colocar tudo isso em prática, pois é tão importante para a fé cristã”, reitera. “A tendência é a igreja sair fortalecida desse período, pois a Bíblia ensina que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Não consigo dizer de forma geral como será para todos nós. Para a igreja, para os que amam a Deus, vai cooperar para o bem, então será fortalecedor para aqueles que se apegarem em Deus, tenho certeza disso. Mas infelizmente outros que estavam na mornidão possivelmente não aprendam com a situação. Já o povo de Deus, a igreja verdadeira feita por uma lista divina, tenho certeza que sairá fortalecido”, frisa.

Hort deseja que esse tempo sirva de trampolim para o crescimento espiritual. “Nós redescobrimos que Deus não se encontra somente na igreja, mas em nossas casas também. É uma das lições que tiramos desse período. Jesus fala: entra no teu quarto, fecha a porta, ora e fala com teu Deus que está em secreto e Ele em secreto te recompensará. Que cada casa e cada lugar possa se tornar um lugar de culto”, finaliza o pastor.

 

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