Vindo de família simples, de pequenos agricultores de Santo Cristo, interior do Rio Grande do Sul, aos 13 anos de idade Amário José Zimmermann, ingressou no seminário. Hoje, aos 78 anos, padre da Paróquia Santa Margarida, interior de Marechal Cândido Rondon, ele celebra junto à Diocese de Toledo, familiares e amigos seus 50 anos dedicados ao sacerdócio.
A celebração eucarística na qual foram elevados os agradecimentos a Deus pelos 50 anos de sacerdócio de padre Amário aconteceu no sábado (30), na Igreja Santa Margarida, em missa presidida pelo bispo diocesano Dom João Carlos Seneme. Na mesma data, o sacerdote celebrou seus 78 anos de idade.
Trajetória
Antes de entrar no seminário, Amário trabalhou junto com os irmãos e a mãe no sítio da família – seu pai faleceu quando ele tinha apenas sete anos.
Em sua caminhada para chegar à Diocese de Toledo, o pároco trilhou caminhos em diversos municípios gaúchos, tendo estudado, além de Filosofia, Teologia e Pedagogia.
A ordem sacerdotal veio em 29 de junho de 1968, durante celebração presidida por Dom Aloísio Lorscheider, bispo de Santo Ângelo (1962-1973). Ele conta que, logo após a ordenação, iniciou seu trabalho pastoral na Paróquia de Santo Cristo, sendo transferido no ano seguinte para atuar como vigário paroquial na Catedral de Santo Ângelo e, dois anos depois, foi designado para Caibaté, onde permaneceu por quase nove anos. “Somente deixei a comunidade por um chamado do bispo que incentivava as missões para acompanhamento dos imigrantes no Paraguai, tendo em vista a Campanha da Fraternidade da ocasião”, relembra.
Lá, ele permaneceu por quatro anos nas paróquias de Corpus Christi e Catuetê. “Na volta ao Brasil ‘encalhei’ em Toledo”, diz, com bom humor. “O bispo de Toledo, Dom Geraldo Agnello, pediu que ficasse, uma vez que a família estava residindo na região. Ele conversou com o bispo de Santo Ângelo, e eu fiquei. Depois de dois anos, pedi incardinação na Diocese de Toledo”, comenta.
Caminhada no Oeste
Antes de chegar ao distrito rondonense, o ministério presbiteral de padre Amário passou por municípios como Formosa do Oeste, Entre Rios do Oeste, Pato Bragado, Nova Santa Rosa, Marechal Cândido Rondon e Nova Aurora.
As viagens e instalação em diferentes municípios, ainda que próximos, segundo ele, nunca foram motivo de dificuldades de adaptação. “Encontrei-me com pessoas vindas de todas as partes do Brasil. Fiz o trabalho pastoral como deveria ser. Procurei sempre estar integrado”, salienta.
Para ele, uma das bases que contribuiu para isso foi ter estudado no Centro de Orientação Missionária, em Caxias do Sul (RS). “Lá, como se diz, tomei como decisão ser uma pessoa sem muitas exigências. Meu lema sacerdotal é ‘Sacerdote a serviço do povo’. Devemos estar a serviço para as necessidades que o povo tem. Isso é a Igreja em saída que o papa Francisco nos fala”, enaltece.
Um desses exemplos é de que, enquanto padre na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, de Marechal Rondon, padre Amário iniciou os preparativos para a criação da Paróquia Maria Mãe da Igreja, localizada no Bairro Botafogo. “Havia sugerido ao bispo para que fosse declarada a paróquia no ano 2000, pela passagem do milênio, mas não foi possível”, menciona.
Da igreja para as quadras
Seus 78 anos de idade chegam com muita vitalidade. Padre Amário é o sacerdote mais idoso da
Diocese e com maior tempo de ordenação. Mesmo assim, pratica o vôlei gigante há mais de duas décadas. Em Margarida, joga toda terça-feira à tarde no ginásio de esportes, pelo menos duas partidas de 21 pontos, e já participou inclusive de competições. “Sempre fui desportista. Jogava futebol, vôlei, futebol de salão, tênis de mesa. Lembro-me de um torneio de tênis de mesa na Colômbia. Eu e um padre de Brasília chegamos à final. Como cheguei primeiro, fiquei observando o jogo dele. Assim consegui dominar a partida e fiquei campeão”, recorda com muita alegria. “Todo atleta não deve olhar só na bola, mas observar o adversário. Com isso, consegui ser campeão ‘sul-americano’ de tênis de mesa entre os padres”, evidencia.
Para ele, o esporte tem semelhança com a atividade pastoral. “Geralmente, o esporte é comunitário, com várias pessoas juntas. Cria-se uma amizade grande. Claro, sei que errei muitas vezes. Num jogo eu ‘explodi’ e uma pessoa disse ‘esse padre está bravo’. Mas é porque lutei contra uma injustiça. Lógico que é preciso pedir desculpas a quem eventualmente ofendemos. De todo modo, o esporte sempre ajudou no relacionamento com as pessoas”, avalia.
Essa disposição que o torna um padre desportista vem de uma rotina: a indispensável caminhada matinal diária de 45 minutos que realiza, segundo ele, “desde o milênio passado”. Um hábito que mantém nas primeiras horas do dia. “Eu tento preservar minha saúde. Nunca fui de beber ou de comilança. Venho de uma família simples e assim quero viver, sem preocupações com esnobar nada”, pontua. “Acredito que algumas pessoas não vivem muito porque são pessoas de ‘almofada’, ou seja, pouco exercício, pouca convivência e, pior ainda, passamos na rua por pessoas que nem nos enxergam porque estão no celular. Não sou contra que as pessoas tenham, mas que saibam usar com moderação”, ressalta.
Reflexões sobre o futuro
Na visão de padre Amário, pensar no futuro da sociedade e da Igreja exige profunda reflexão. Ele compara a ação evangelizadora “Cada comunidade uma nova vocação” ao recordar fatos do passado, quando as famílias eram numerosas e alguns adolescentes ou jovens ingressavam no seminário ou convento feminino para o período do discernimento vocacional. Ele recorda de um batizado de quadrigêmeos feito em Marechal Rondon, com duas meninas e dois meninos. “Eu logo disse: ‘um menino para padre’. Mas a gente sabe que é feita a vontade de Deus”, observa.
Ele também recorda de um simples fato ainda no Rio Grande do Sul. “Um senhor convidou-me para jogar canastra. Ele chamou o filho e eu convidaria outra pessoa. Enquanto jogávamos, havia uma criança no canto, com
uns oito anos, e eu disse: ‘menino, tu podia ser padre’. Falei de longe, brincando. Não é que quando estava como pároco em Entre Rios do Oeste recebi o convite para o sacerdócio dele? Ele me disse depois: ‘foi tu que me provocou. Aceitei o desafio e estou aqui’”.
Padre Amário salienta que é preciso rezar, tomar decisões e agir na vida para o bem do povo. “Deus age. A oração, a preocupação e os bons exemplos influenciam bastante”, destaca.

Na foto, padre Amário (primeiro da esquerda para a direita) relembra o dia de sua ordem sacerdotal: 29 de junho de 1968 (Foto: Arquivo pessoal)
Com Revista Cristo Rei