Marechal

Pela primeira vez na história rondonense, Corpo de Bombeiros recebe soldadas

 

Mirely Weirich/OP

Apesar de ter passado a maior parte da vida em Cascavel e Santa Catarina, a bombeira Mayra Santos de Lima nasceu em Marechal Cândido Rondon, onde retornou para iniciar sua nova jornada profissional

 

A boa filha a casa torna. Mesmo o ditado sendo um clichê dito há muitos anos, a frase não poderia ter servido melhor para contar a história da bombeira Mayra Santos de Lima, 29 anos. Ela e mais uma mulher de pulso firme são as primeiras soldadas a colocarem a presença feminina no 3º Subgrupamento de Bombeiros de Marechal Cândido Rondon.

Historicamente, a presença de mulheres nas corporações é nova, e vista com mais frequência em Capitais e cidades maiores, como Curitiba e Cascavel, contudo, com o aumento do número de escolas para a formação de soldados, as bombeiras têm passado a atuar também em municípios do interior.

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Mayra está há apenas um mês em Marechal Rondon, tempo em que passou a atuar com mais autonomia na profissão que escolheu. Até então, ela passou 11 estudando para formar-se como soldada em Cascavel, município em que passou a maior parte de sua vida. Mas eu nasci em Marechal Cândido Rondon. Meus familiares acharam até curioso o fato de o primeiro lugar que eu vou atuar ser aqui, onde eu nasci. De certa forma estou retornando para cá, diz.

A vontade de se tornar bombeira sempre acompanhou Mayra. Além do pai, que foi policial militar, aposentou-se e hoje atua na Polícia Civil, da mãe que atua na área da enfermagem, outra inspiração é uma prima policial militar. Pela minha criação, eu sempre tive contato tanto com a segurança pública quanto com a área da saúde, e desde os 19 anos eu tenho contato com a área da saúde, voltado especificamente para o pré-hospitalar que é uma área em que o bombeiro também atua na segurança pública, explica.

Apesar de ser formada em Enfermagem e ter atuado como enfermeira pré-hospitalar por muito tempo, a admiração de Mayra pelo serviço prestado pelos bombeiros a chamou para o seu destino profissional em 2012, quando prestou concurso público para a vaga, concorrendo com mais de dez mil candidatos para 200 vagas na região Oeste. Ela passou pelo teste teórico, físico, pesquisa social, exames de saúde e o período de formação como soldada. Cada plantão tem a sua complexidade, a sua diferença, não é nada rotineiro. Exige muito da parte física, da parte psicológica, o conhecimento exige que você esteja sempre se atualizando e isso me despertou muito interesse, o perfil do profissional, que deve estar pronto para qualquer tipo de ocorrência física e psicologicamente, e eu queria isso para mim, revela.

Na avaliação dela, é evidente em uma ocorrência, por exemplo, que se um bombeiro não está preparado, ele não atenderá as vítimas de forma adequada. É claro que também há a questão da estabilidade, do orgulho de vestir uma farda, porque eu tenho isso em mim. Eu sempre admirei, quando soube que existia a presença de mulheres nas corporações, passei a treinar para tentar entrar, e como minha prima entrou na Polícia Militar ela me incentivou, bem como meus familiares, por isso eu optei por trocar de carreira e não me arrependo, sou muito feliz aqui e espero crescer muito, vislumbra. Não é impossível, mas você precisa ter preparação física e psicológica para merecer estar aqui, não tem segredo. E depois que você entra a dedicação é diária, completa.

 

Espaço feminino

Assim como em outras áreas que com o tempo deixaram de ser taxadas apenas como serviços masculinos, a profissão de bombeiro também abriu espaço para o ingresso de mulheres nas corporações há cerca de 11 anos no Paraná. Entretanto, Mayra aponta que, por ser algo novo, algumas pessoas ainda estranham a presença de uma mulher em um local até então só masculino. Mas esse estranhamento é superado pela competência profissional. É claro que as mulheres têm suas particularidades, assim como os homens, eles são diferentes, mas você pode se completar dentro de uma ocorrência, opina. Eu sou mulher, tenho minha característica física, mas eu também sei ser muito boa profissional e isso me completa e me ajuda muito, complementa.

Ela enfatiza que nunca enfrentou nenhum problema quanto ao fato de ser mulher, soldada e bombeira e que não enxergou diferença no tratamento entre homens e mulheres dentro da profissão, contudo, isso não significa que não tenha existido. São 11 anos da presença feminina em uma corporação que tem mais de 100, é claro que a mulher vai enfrentar em algum momento certa barreira, mas aos poucos você conquista seu espaço e a melhor forma de isso acontecer é mostrando um bom trabalho. Não existe outro caminho. Para uma mulher ganhar respeito dentro de uma corporação ela tem que trabalhar, ter capacitação e se completar dentro de uma ocorrência, afirma Mayra.

Na visão da soldada, entre si, todas as pessoas apresentam diferenças, mas isso não é motivo para atrapalhar a atuação profissional. Pelo contrário, pode até aumentar a possibilidade de ter uma ocorrência melhor atendida. Eu defendo que independente do gênero, nós somos profissionais. Quem está aqui no momento é o profissional e não o gênero. Eu quero representar muito bem a classe feminina e por isso tenho essa conduta de que não é porque eu sou mulher, que sou menos, pontua.

 

Frutos

Mesmo com pouco tempo de atuação, Mayra já contabiliza diversos momentos que marcaram seu tempo na corporação, não só em Marechal Cândido Rondon, mas também durante sua formação, quando estagiou a campo. Houve situações como alguns acidentes, um ataque por abelha em que eu tive que entrar em um ambiente de risco e sabia que enfrentaria algo em que poderia me tornar a vítima se não tomasse cuidado, relembra.

Apesar de afirmar que há vários momentos que a fazem reafirmar a escolha pela profissão, ela diz que todo agradecimento recebido em uma ocorrência valida a entrada na corporação. São coisas pequenas que se tornam grandes, diz.

Em Rondon, Mayra nota que a principal característica da população é ser agradecida, especialmente em situações como vendavais, em que as pessoas buscam no Corpo de Bombeiros o primeiro auxílio. Quando cai uma árvore ou destelha uma casa, os muito obrigada que você recebe quando entrega um material para cobrir um móvel é algo tão simples, mas pessoas realmente agradecem, e isso me marcou bastante, conclui.

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