A necessidade de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus trouxe enormes desafios aos mais variados setores da sociedade, inclusive o educacional. Diante de escolas fechadas por tempo indeterminado, as redes de ensino têm nas mãos a missão de encontrar solução para milhares de estudantes, num território marcado por diferenças econômicas, sociais e culturais. Seja na rede pública ou na particular, pelo menos um ponto é comum: o que pais e alunos estão vivenciando, indiferente do nível de ensino, é totalmente novo.
“Em todo o mundo, os sistemas educacionais têm se debatido em formas de dar continuidade ao processo educacional escolar. E as alternativas encontradas são desafiadoras”, destaca a conselheira e membro da Câmara do Ensino Médio e Educação Profissional do Conselho Estadual de Educação do Paraná, rondonense Shirley Piccioni, que também é diretora de Projetos Educacionais do Grupo de Apoio Educacional de Marechal Cândido Rondon.
Em entrevista ao O Presente, ela chama a atenção para dois conceitos que estão sendo utilizados como sinônimos, mas não são. “As atividades educacionais não presenciais são ferramentas poderosas, que podem e devem ser utilizadas. E eu não estou falando em educação a distância, estou falando em atividades não presenciais. Embora esses dois conceitos têm sido utilizados, de modo geral, como sinônimos, eles não são”, ressalta.
Para Shirley, o atual momento demanda sabedoria e traz elementos para muito aprendizado. “Penso que a humanidade toda está aprendendo com esse momento, não somente a escola. E espero que, ao fim deste processo, olhemos para trás e possamos concluir que melhoramos como seres humanos, como humanidade”, enaltece.
O Presente (OP): A pandemia do novo coronavírus ocasionou mudanças generalizadas nos mais diversos setores, os quais, em sua maioria, não estavam preparados para encarar os desafios que se apresentam. Como a senhora, com tamanha experiência e dezenas de anos dedicados à educação, vê esse fenômeno inédito?
Shirley Piccioni (SP): De fato, a pandemia impactou os diversos setores sociais, o mundo todo e a cada um de nós, no nosso dia a dia, nossas relações pessoais e de trabalho. Percebemos que, como em qualquer momento histórico ou qualquer outra circunstância, uns estão mais preparados que outros para o enfrentamento dos desafios desse momento. Felizmente, um dos setores mais preparados é justamente o das ciências ligadas à saúde e da área farmacêutica. Em pandemias anteriores, como a Influenza, cólera, levou-se muito tempo, anos e até décadas para se identificar os agentes transmissores das doenças, as formas como elas eram transmitidas. Ainda não havia todo o recurso terapêutico que se tem hoje. Graças ao desenvolvimento da ciência e da técnica, o vírus foi rapidamente isolado, teve seu DNA decifrado em poucos meses e alguns institutos de pesquisa já estão desenvolvendo possíveis vacinas. Enquanto isso, os especialistas em doenças comunitárias, com base em estudos epidemiológicos, orientam os distintos poderes das nações quanto às formas de prevenção da doença e como evitar sua propagação, ao mesmo tempo em que os serviços médicos e hospitalares possuem uma série de recursos farmacêuticos que têm obtido êxito em tratamentos e em prolongar a vida dos afetados. A ciência e o processo educativo estão na base de tudo isso. O primeiro contato com a ciência, com o conhecimento sistematizado, acontece na escola, desde a idade mais tenra. Ou seja, a educação em nível mundial conseguiu colocar a humanidade em condições de enfrentar mais este desafio e com rapidez.
OP: Sem aulas, estabelecimentos de ensino têm adotado a educação a distância (EAD) com uso de computadores e atividades complementares para dar continuidade ao aprendizado de crianças e adolescentes. Qual a sua opinião sobre esse processo?
SP: Em todo o mundo, os sistemas educacionais têm se debatido em formas de dar continuidade ao processo educacional escolar nesse momento em que o isolamento físico é necessário. As atividades educacionais não presenciais são ferramentas poderosas, que podem e devem ser utilizadas. E eu não estou falando em educação a distância, estou falando em atividades não presenciais. Embora esses dois conceitos têm sido utilizados, de modo geral, como sinônimos, eles não são. No Paraná, por exemplo, está permitido o uso de atividades não presenciais, a critério das instituições e redes de ensino e com a avaliação dos professores das turmas e disciplinas e das comunidades escolares, Conselhos Escolares no caso das escolas públicas. Essa avaliação é que vai apontar em que proporção as atividades utilizadas possibilitam a implementação do currículo iniciado neste ano letivo de 2020. Já a educação a distância é uma modalidade educacional prevista legalmente e tem princípios, condições de funcionamento e requisitos de ensino e de aprendizagem específicos. E esse conjunto não se forma, não se cria em uma semana ou em um mês. Somente como exemplo cito a formação dos professores para esta modalidade, que se faz em cursos de média duração. Da mesma forma, nem todas as etapas educacionais e alunos reúnem todos os requisitos para que essa modalidade educacional seja efetiva e possa ser considerada como efetivo trabalho escolar. A educação a distância requer um desenvolvimento físico, psicológico, intelectual e social que nem todas as crianças, jovens e adultos possuem. Por isso, não pode ser utilizada indiscriminadamente para todos os cursos e faixas etárias.
Para uma atividade escolar que não requer o acompanhamento direto e presencial do professor é necessário que o aluno já tenha desenvolvido a autonomia, a maturidade e a disciplina para o estudo, o que as crianças de menor idade, por exemplo, não possuem. O mesmo pode ser dito para determinados segmentos de jovens e adultos que não frequentaram a escola em momento adequado. Ler, interpretar, fazer operações, sentar e estudar não são aptidões naturais dos seres humanos. Ninguém nasce com essas capacidades. Elas são adquiridas com o aprendizado e conforme as capacidades físicas, mentais e sociais das pessoas e que são desenvolvidas na escola. Além disso, o processo educacional é um processo social. Requer proximidade, discussão, observação, debate, experimentação entre outros. É a escola que cria o ambiente para que essas condições se realizem e que disponibiliza o profissional qualificado, o professor, responsável pela sua realização. Depois do ambiente familiar, a escola é a segunda instituição em que o processo de socialização acontece. É nela que as crianças começam a conhecer diferentes realidades, pontos de vista, valores, gostos, ou seja, onde elas começam a conhecer a diversidade e heterogeneidade do mundo em que vivem.
OP: Há críticas e há elogios diante desse novo cenário, em que busca-se apresentar caminhos para dar sequência ao ano letivo. A senhora vê que as alternativas que estão sendo implantadas, tanto no ensino privado quanto no público, são positivas?
SP: As escolas e redes de ensino estão diante de duas alternativas: suspender o calendário escolar e retomá-lo posteriormente, na sua totalidade, e oferecer atividades não presenciais como alternativa para cumprir, ao menos em parte, o calendário de 2020. As duas alternativas são desafiadoras e a decisão da instituição de ensino por uma ou por outra deve ser assegurada. Ninguém melhor do que a escola, independentemente do nível ou etapa educacional, se pública ou privada, para tomar essa decisão, porque é a escola que conhece a totalidade de seus alunos, suas condições de vida, tipo de suporte de suas famílias, condições materiais e econômicas etc. Para que qualquer decisão seja tomada, mais do que nunca, as escolas necessitam ter conhecimento da realidade de seus alunos e suas famílias. E qualquer decisão que elas venham a tomar tem que ser com base nesse conhecimento. Não se pode admitir, por exemplo, que se utilize como atividade educacional a realização de jogos digitais que estimulam o raciocínio matemático, quando nem todos os alunos possuem ou têm condições de adquirir equipamentos condizentes com o programa que estes jogos requerem. Ou então, sem que todos tenham autonomia e as bases educacionais necessárias para que seu raciocínio matemático avance. Uma decisão como esta pode até atender a maior parte dos alunos, mas se não atender à totalidade, ela não poderá ser considerada como atividade educativa e como período letivo. Ainda nessa questão, tem-se a mediação do professor nas atividades oferecidas. Voltando ao exemplo do jogo, se não houver possibilidade de interação, acompanhamento do professor no trabalho com o jogo e se ele não tiver condições de avaliar a efetividade desse recurso frente ao seu plano de curso, a atividade também não permitiu o cumprimento dos objetivos previstos nos currículos dos cursos. É por isso que temos afirmado que as atividades não presenciais são ferramentas importantes nesse momento de distanciamento físico. Contudo, tão logo este período de isolamento físico se encerre, cada professor deverá resgatar todo o material oferecido aos alunos e conferir, avaliar se eles cumpriram, e em que medida eles cumpriram, as previsões que constam no projeto pedagógico da escola e em um plano de curso. Essa responsabilidade é do professor de cada disciplina ou de cada turma e o resultado deve ser aprovado pelas comunidades escolares. Assim, a positividade ou não das alternativas não presenciais deve ser avaliada em cada escola e para cada professor. Não é possível uma resposta genérica a esta questão para todo o município, Estado ou país.

Conselheira e membro da Câmara do Ensino Médio e Educação Profissional do Conselho Estadual de Educação do Paraná, Shirley Piccioni: “Que esse momento sirva de reflexão para todos. Que todos os setores e agentes envolvidos com a educação se debrucem sobre suas potencialidades e incapacidades de lidar com o imprevisto e com o emergencial”
OP: O ano letivo de 2020 será comprometido, considerando que todos estão tendo que lidar pela primeira vez com uma situação inusitada (governos, escolas, pais e alunos), e isso também demanda aprendizado?
SP: Certamente o ano letivo já está comprometido para todas as instituições escolares, tendo elas suspendido o calendário ou não. Um ano letivo é muito mais do que horas e dias de aula. Mesmo que as propostas pedagógicas e planos de cursos das escolas não sejam alterados, já tivemos uma interrupção extemporânea do processo educativo escolar, mudança de métodos de ensino (presencial e não presencial) e o próprio conteúdo foi atravessado por um tema importante, o da pandemia, que deve estar sendo trabalhado em todas as escolas e disciplinas. Este momento nos demanda sabedoria e nos traz elementos para muito aprendizado. Penso que a humanidade toda está aprendendo com esse momento, não somente a escola. E espero que, ao fim deste processo, olhemos para trás e possamos concluir que melhoramos como seres humanos, como humanidade.
OP: Temos acompanhado, ano a ano, o crescimento da educação a distância no país. A senhora acredita que depois deste fenômeno que vivemos ela vai firmar ainda mais raízes e tomar proporções ainda maiores daqui para a frente?
SP: Acredito que sim. Temos, inclusive, que refletir sobre esse período para avaliar as atividades escolares não presenciais e a própria educação a distância, identificar suas potencialidades e suas inaptidões. Temos uma trajetória de estabelecimento de requisitos de autorização da educação a distância, particularmente no Paraná, no sentido da valorização dessa modalidade educacional e da seriedade com que ela tem que ser ofertada. Em momentos de confusão, como o que vivenciamos atualmente, podem surgir tentativas de aproveitamento da situação para corromper a qualidade educacional em geral e da educação a distância. É isso que precisamos evitar com todos os nossos esforços. Ao contrário, temos que avaliar os benefícios e os problemas decorrentes da aplicação dessas ferramentas em larga escala para identificar o que deve ser incorporado como política educacional e pela legislação da área.
OP: É possível pensar em um novo cenário educacional pós-pandemia da Covid-19?
SP: Sim. Já teremos um cenário diverso no futuro imediato que precisaremos administrar, que é o cumprimento do ano letivo de 2020, que irá comprometer o ano letivo de 2021. Também, muitas experiências e ferramentas educacionais irão emergir desse momento e muitas serão propostas para serem aplicadas nos sistemas de ensino. Isso vai requerer dos gestores educacionais muita habilidade e sabedoria para lidarem com o novo e os princípios educacionais que regem a educação nacional. Além disso, saber distinguir o que é momento emergencial e excepcional do que é do cotidiano escolar. Essas também serão tarefas desafiadoras e vão demandar participação da sociedade em suas definições.
OP: Muito do que vemos hoje sendo implementado ou apresentado como alternativa de ensino/aprendizagem deve permanecer?
SP: Em nível de cada escola, os recursos utilizados nesse momento dependem de avaliação dos professores e comunidades escolares. É importante mencionar que o projeto pedagógico é de autonomia de cada instituição de ensino, assim como o plano de curso é responsabilidade de cada professor. Isso é o que determina a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ou seja, é um comando legal. Então, antes de tudo, o uso dos recursos disponibilizados para as escolas pelas suas mantenedoras nesse momento passa, necessária e obrigatoriamente, pela avaliação dos professores deste país, assim como pelas comunidades escolares. Eles é que devem, em primeiro lugar, ver a pertinência de cada uma delas na educação escolar. E eles é que serão, principalmente, os definidores da continuidade ou não das ofertas educacionais neste momento. Temos ouvido depoimentos de professores favoráveis e contrários ao uso de atividades não presenciais, tanto nas escolas públicas quanto pelas escolas privadas. Outro segmento que será crucial nessa definição são os pais ou responsáveis pelos alunos. Entre eles, há os que são muito favoráveis ao material disponibilizado pelas escolas, mas há também aqueles que têm apontado dificuldade para acompanhar e dar o suporte necessário a seus filhos nesse momento. Isso é perfeitamente compreensível. Pela Constituição Brasileira, a educação é responsabilidade da família, Estado e sociedade. As pessoas aprendem com suas famílias e na vida social. Mas estamos falando em educação escolar. E este tipo de educação requer uma qualificação e condições que são as escolas, as instituições de ensino em geral que reúnem. Portanto, é natural que os pais tenham dificuldade com a realização das atividades educacionais que estão sendo ofertadas para seus filhos, enquanto eles estão em casa. Mesmo aqueles que possuem níveis educacionais mais elevados não possuem o conhecimento didático e metodológico que embasam o processo de ensino e de aprendizagem.
OP: Qual o aprendizado que esse cenário vai deixar para o setor educacional?
SP: Espero que seja o de valorização da escola, da educação, do professor e da ciência. É o conhecimento, que se aprende, se desenvolve e se constrói nas escolas em todos os níveis, junto da solidariedade, que nos permitirá sair dessa pandemia sem muitas perdas.
OP: Qual será o legado disso tudo? O que esperar daqui para frente especialmente no setor educacional?
SP: Espero que seja a humildade e a necessidade do diálogo, a tolerância, o respeito pelo outro e suas opiniões. Não há uma verdade neste momento. Há muitas verdades e precisamos reuni-las para superarmos este e outros momentos. Quanto ao setor educacional, eu espero que esse momento sirva de reflexão para todos. Que todos os setores e agentes envolvidos com a educação nacional, estadual, municipal, de cada escola, se debrucem sobre suas potencialidades e incapacidades de lidar com o imprevisto e com o emergencial. E que o principal resultado desse processo seja o setor educacional fortalecido e com sua importância reconhecida pela sociedade.
O Presente