Imagine você entrando em um mundo desconhecido, onde todo som, cor, cheiro e sabor é uma novidade. Seus olhos e ouvidos absorvem o que as pessoas fazem e dizem. Você quer tocar, observar, sentir, explorar o ambiente e cada mínimo detalhe aguça sua curiosidade. Natural que esse primeiro impacto tenha fugido à sua memória, mas esteja certo de que é mais ou menos essa a perspectiva de um bebê, do momento em que nasce até completar seis anos de vida. Essa etapa, batizada de primeira infância, é pura descoberta e aprendizado.
Porém, além da aprendizagem, é também uma fase em que a criança se encontra em sua forma mais vulnerável e frágil, necessitando de cuidados que garantam seu desenvolvimento saudável.
É necessário, portanto, que pais, mães e toda a sociedade entendam melhor a importância dessa fase da vida das crianças e aprendam como estimular e acolher, proporcionando a elas as melhores condições possíveis para se desenvolverem. E é assim, com esse objetivo, que surge o projeto Universidade da Criança.
De autoria da deputada Leandre Dal Ponte (PV-PR), o projeto foi apresentado às entidades rondonenses em abril deste ano e, hoje (08), às 19h30, terá seu lançamento oficial, junto ao auditório da Associação Comercial e Empresarial de Marechal Cândido Rondon (Acimacar).
Foco na infância
A Universidade da Criança surge como um desdobramento do Marco Legal da Primeira Infância (lei federal 13.257/2016), que dispõe sobre as políticas públicas para a primeira infância e altera aspectos do Estatuto da Criança e do Adolescente (lei 8.069/1990), do Código de Processo Penal (lei 3.689/1941), da CLT (decreto-lei 5.452/1943), da lei 11.770/2008 (programa Empresa Cidadã, destinado à prorrogação de licença-maternidade mediante incentivo fiscal) e da lei 12.662/2012, que assegura validade nacional à Declaração de Nascido Vivo (DNV).
Segundo integrantes do grupo gestor, Marta Schumacher, Angelica Cristina Henick e Aline Juliane Breunig, o projeto é destinado a toda sociedade civil organizada, com o objetivo de que todos estudem todo o processo e compreendam o desenvolvimento da criança na primeira infância. “A ideia central é contribuir para a criação de uma cultura de cuidados das nossas crianças”, destaca Marta, acrescentando: “O cuidado aqui tem um significado muito mais amplo do que aquele que nos vem à cabeça. Muitas vezes, se entende por cuidar de uma criança a questão do proteger para que ela não caia, não se machuque, esteja segura, com saúde, educação, alimentação, bem-estar, mas vai muito além disso. Se trata também de afastar essa criança de situações e pessoas violentas”.
De acordo com elas, o projeto nasceu como uma forma de colocar a lei em prática e, desde que foi apresentado no município, trabalhos de sensibilização da comunidade entre os diversos setores, instituições e Poder Público vinham sendo realizados. “Precisamos do apoio deles e sabemos que há vários projetos em andamento e não queremos intervir, mas apoiar e caminhar junto com o que já vem sendo realizado e intensificar aonde se percebe alguma dificuldade para que nossas crianças tenham um desenvolvimento pleno e garantido”, salientam.
As integrantes do grupo gestor também reiteram que isso garante a construção de geração futura mais saudável, equilibrada e que contribua com o desenvolvimento do município. “Queremos que outras cidades da região também adotem o projeto, porque as famílias e crianças migram de uma cidade para outra. Se os municípios vizinhos não terem o mesmo trabalho, talvez não consigamos atingir aquilo que é possível em nossa região em termos de desenvolvimento infantil”, destacam.
Por conta disso, o grupo pede para que lideranças ou pessoas interessadas pela primeira infância venham conhecer o projeto para começar uma mobilização e levar a proposta para outras cidades. “Fazemos questão de compartilhar o que já aprendemos. Ainda estamos começando e tomando conhecimento de todo o trabalho a ser feito, que vai se abrir em um leque de ações muito grandes, mas para isso precisamos de pessoas”, enaltecem.
Com a evolução do projeto, a ideia final é a criação de uma política pública da primeira infância para o município. “O objetivo é que assim possamos garantir que esse trabalho tenha continuidade”, ressaltam.
Princípios do projeto
Embora o projeto tenha como foco a criança, o grupo também destaca a importância de se trabalhar com os adultos, para que estes cuidem melhor das crianças. “As políticas para a primeira infância têm que ter as crianças como sujeito e não como objeto das ações. São os direitos delas que têm que ser atendidos. São as necessidades delas que devem ser satisfeitas. Não é rara a existência de certos programas e ações que objetivam resolver os problemas e desejos dos adultos em prejuízo das crianças atendidas”, comenta Angelica.
Além disso, as integrantes reforçam o fato de a primeira infância ser um momento muito decisivo na construção do indivíduo. “Assim como podem ficar coisas boas, também há as ruins. Conforme os pais estão sensibilizados, orientados, maduros, equilibrados e afetivos, teremos adultos com uma capacidade social, emocional e profissional muito melhor”, expõe Marta.
Elas também enfatizam a preocupação com a parte estruturante da infância. “Em detrimento a todos os problemas que ouvimos nas escolas, a dificuldade encontrada pelos professores, a própria violência na sociedade e outras coisas que vêm acontecendo mostram que alguma coisa precisa ser feita. E se nós, adultos, não fizermos, quem vai fazer? Estamos abraçados nessa causa pela nossa própria sociedade”, afirmam.
Planejamento de ações
A partir do momento em que o projeto foi apresentado no município, os membros do grupo gestor, que é constituído por diversas pessoas dos mais variados segmentos, se reuniram por diversas vezes para conhecer o Marco Legal da Primeira Infância. Agora, o caminho é continuar reunindo as pessoas que tenham interesse no projeto e dialogar com cada setor e instituição trazendo para o debate o seu olhar, suas experiências e conhecimentos. “E juntos reunir ideias, que articuladas em um conjunto harmônico vão desenhar essa política integrada que estamos buscando”, frisa Marta, emendando: “É como a montagem de um grande quebra-cabeça. Cada peça tem seu lugar e função necessária para completar a imagem”.
Para isso e visando dar visibilidade o projeto no município, algumas ações já estão sendo planejadas. “São ações direcionadas à parte do brincar e o fortalecimento dos laços entre as famílias. Outra questão vai ser trabalhar essa sensibilização diretamente com os pais nas escolas e Cmeis, por meio do filme ‘O começo da vida’, por exemplo, que mostra a importância da presença dos pais no desenvolvimento dos filhos”, revela Angelica.
O grupo pretende também trabalhar com ações direcionadas aos pais dentro das próprias empresas que se engajarem no processo.
Da mesma forma, ações nas comunidades estão sendo discutidas. “Depois de trabalhar o filme nas comunidades, há um roteiro de reflexão, fazendo um processamento adequado, para que as pessoas absorvam a ideia central”, comenta Marta.
A frente de trabalho foi até o momento dividida em sete grupos. Há aqueles que trabalharam nas empresas, outros na escola, na área da saúde e assim por diante. “Paralelo a isso, vamos continuar estudando para estarmos sempre mais preparados e com engajamento de mais pessoas para fortalecer o grupo”, finalizam.