O Presente
Marechal

Quando tudo vira escândalo e ninguém quer discutir o essencial

calendar_month 22 de janeiro de 2026
3 min de leitura

Hoje, um episódio envolvendo o prefeito de Marechal Cândido Rondon ganhou repercussão regional: ele foi conduzido à delegacia após deixar os filhos em uma escola pública durante a madrugada, enquanto aguardavam vaga em um processo de matrícula. A ocorrência foi registrada, a apuração segue seu curso legal, como deve ser em um Estado de Direito. Até aqui, fato.

O que chama atenção, no entanto, não é apenas o caso em si, mas a forma como ele passou a ser tratado. Entre silêncios convenientes e barulhos seletivos, o debate público foi rapidamente empurrado para um terreno raso, moralizante e pouco interessado em contexto.

Vale começar pelo óbvio: a lei existe para ser cumprida. O Estatuto da Criança e do Adolescente e o Código Penal são claros ao estabelecer deveres objetivos de cuidado. Havendo indícios, a autoridade policial tem obrigação de apurar. Isso não é perseguição, não é escândalo, não é exceção. É procedimento.

O problema começa quando a apuração vira sentença social instantânea.

Pouco se discutiu, por exemplo, um detalhe central do caso: não houve privilégio. Os filhos do prefeito estavam em escola pública, submetidos ao mesmo processo que qualquer outra família. Não furaram fila. Não receberam tratamento especial. Pelo contrário: estavam exatamente onde estavam outras crianças e adolescentes, enfrentando uma realidade conhecida de quem já disputou vaga em escola pública neste país.

Esse ponto, curiosamente, incomoda. Incomoda porque desmonta duas narrativas fáceis: a de que político sempre dá um jeito e a de que todo episódio precisa, obrigatoriamente, de um vilão claro.
Há ainda um choque geracional evidente. Para muitos brasileiros, especialmente em cidades do interior, dormir em fila de escola, revezar lugar, levar lanche, assumir pequenas responsabilidades desde cedo nunca foi tratado como abandono. Era parte da vida. Era aprendizado. Era autonomia. Eu mesmo, quando garoto, dormi em fila para garantir vaga na quinta série do Colégio Mondrone. Não fui exceção. Fui regra.

Isso não significa negar avanços na proteção da infância, nem relativizar riscos reais. Significa apenas reconhecer que nem toda situação concreta cabe em rótulos morais automáticos.
Em cidades onde “todo mundo se conhece”, a escola não funciona como um espaço anônimo e impessoal, como em grandes centros urbanos. Ela é um ambiente comunitário. Professores conhecem famílias, funcionários conhecem alunos, pais conhecem outros pais, e o Conselho Tutelar faz parte dessa rede cotidiana de relações. Trata-se de uma convivência construída ao longo do tempo, baseada em proximidade, diálogo e reconhecimento mútuo.

E, claro, há a política. Seria ingenuidade fingir que não existe. Alguém viu. Alguém se incomodou. Alguém acionou as autoridades. Isso faz parte do jogo democrático. O que não deveria fazer parte é reduzir o debate público a munição, em vez de reflexão.

No fim, este caso diz menos sobre um pai específico e muito mais sobre como a sociedade passou a julgar, rotular e condenar antes de compreender. Diz sobre a judicialização da vida cotidiana. Sobre o medo de discutir nuances. Sobre a dificuldade de sustentar debates adultos.

Não foi apenas um episódio policial. Foi um espelho. E talvez seja justamente por isso que tanta gente preferiu o barulho fácil à discussão honesta.

Giuliano de Luca é editor-chefe de O Presente Rural e O Presente Pet

 
Compartilhe esta notícia:

Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.
Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.