Copagril
Marechal

Quaresma à risca

Mirely Weirich/OP
Mesmo causando maior sensibilidade entre os cristãos por lembrar a Paixão de Cristo e intensificar a participação nas comunidades, abstinências e penitências da Quaresma têm sido cada vez mais abrandadas pelos fiéis

Desde o dia 1º de março, a rotina dos rondonenses Ari e Augusta Langaro mudou. Desde a Quarta-feira de Cinzas, assim como faz há mais de 20 anos, o casal de católicos reza a via sacra todos os dias, meditando a caminhada de Jesus ao carregar a cruz desde o Pretório de Pilatos até o monte Calvário, refletindo sobre a Paixão de Cristo. Nos limites que a saúde lhes permite, ambos praticam o jejum duas vezes por semana desde a data, de forma a domar seus corpos, seus apetites exagerados. Não é só se abster apenas da carne, é comer como um todo, é domar o seu corpo, seus apetites exagerados, diz Ari, que há cerca de dez anos é ministro e pregador da palavra de Deus.

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As ações descritas pelo casal, conservadas no princípio com bastante vigor entre os fiéis, fazem parte da Quaresma, tempo que encaminha os religiosos à Páscoa e que chama os católicos a praticarem a penitência, o jejum e a exercerem as boas obras a fim de que cresçam espiritualmente. Levamos muito a sério o que a Santa Igreja nos pede. A Páscoa é um novo nascimento, tanto que o seu símbolo é o ovo da Páscoa, que é uma vida nova, alguém que nasce, e tudo isso tem a ver com a espiritualidade da Páscoa. Para ter esse nascimento novo, esse encontro novo com Deus, eu preciso me dedicar e fazer a prática dessas penitências, enfatiza.

 

Entender as limitações

Encerrado no último domingo (08), celebrado como o Domingo de Ramos, o período quaresmal é focado para a conversão dos religiosos, a fim de que se sintam amados por Deus e que, apesar de suas infidelidades, Ele continua acreditando em sua fé e quer que participem da obra da criação e da salvação. A Quaresma nos ajuda a entender as nossas limitações. Esses exercícios espirituais nos ajudam a compreender que nós podemos mudar não só no tempo de Quaresma, mas o ano inteiro. Isso serve para nos lembrar que nós somos chamados para a salvação, que estamos caminhando para junto de Deus e o importante é que não nos apresentemos diante dele de mãos vazias, destaca o padre Solano Tambosi, da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, matriz da Igreja Católica em Marechal Cândido Rondon.

Para o sacerdote, durante a Quaresma, a própria comunidade mostra uma maior sensibilidade, participando mais ativamente da igreja, praticando a caridade, a oração e a penitência. Isso tudo é muito positivo, pois nos faz lembrar que somos irmãos e que ninguém é mais do que ninguém. Quando eu ajudo outra pessoa não só dando esmolas, mas também com a minha atenção e carinho, eu estou praticando o bem, lembra.

Para Ari e Augusta, que dedicam a vida dentro da igreja, no tempo quaresmal os fiéis devem se empenhar na busca do nascimento novo de Jesus, já que a Páscoa é uma oportunidade de nascer de novo para aquele que crê. O mistério da Páscoa é quando Jesus ressuscita para uma vida nova, mas eu também posso ressuscitar, ser um homem novo nessa ressurreição, ser uma pessoa totalmente nova. Porém, isso é para poucas pessoas porque é preciso que seja levado a sério, enfatiza Ari.

 

Abandono da tradição

Mesmo observando-se o espírito penitencial e de conversão da Quaresma, a prática tem sido cada vez mais abrandada e deixada de ser seguida da forma como Ari e Augusta cumprem. Muitos dizem, por exemplo, durante a Quaresma eu não vou fumar e passa a Quaresma toda sem fumar. Mas por que não continuam sem fumar depois? É uma boa ação que está fazendo bem ao bolso e à saúde. Outros dizem fazer penitência não tomando café ou não comendo carne. Ótimo, está mostrando que tem um domínio sobre si, mas no sentido bíblico, tudo aquilo que a gente se propõe a fazer gerando em nós essa abstinência deve ser sempre revertido aos mais necessitados, menciona Solano. Se você não vai tomar cerveja durante a Quaresma, esse dinheiro que você economizou não comprando cerveja o correto é que seja destinado a quem precisa. Porque esse é o verdadeiro jejum: o que a gente deixa de comer tem que ir para outro, complementa.

 

Domínio sobre si

O padre explica que a Quaresma leva os crentes à sobriedade, para que mostrem o domínio que têm sobre si. Exercícios de penitência, abstinência e solidariedade mostram que os cristãos vieram de Deus e que precisam praticar essas boas obras. Nós estamos caminhando para a festa maior dos cristãos, em que celebramos a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, que é o sentido da nossa vida e a garantia da nossa ressurreição. Afinal, não estamos aqui para o nada, nós viemos de Deus e para Deus estamos voltando. Se nós propormos que Jesus seja nosso caminho, nossa verdade e nossa vida, o nosso lugar no céu também está preparado, ensina o pároco.

Participação

Mesmo avaliando que a participação de católicos na igreja é bastante grande não apenas no tempo da Quaresma, Solano acredita que apenas cerca de 10% entre todos os católicos de Marechal Cândido Rondon frequentam regularmente as missas. Mas graças a Deus temos esses que vêm, comemora. Durante o ano esse envolvimento que vejo na Quaresma deveria continuar, porque é uma proposta de vida a todos e que deveria continuar também durante o ano. Mas vai da escolha de cada um, e quem somos nós para julgar a vida e as atitudes dos outros? Cabe a Deus o julgamento, declara.

 

Escolhas

Para Ari, que passou a dedicar-se à vida na igreja após uma enfermidade, para muitos o sentido da Quaresma chega a ser banalizado, pois há muitas famílias que dizem não ter tempo para Deus. Eu li uma frase dizendo que não ter tempo para Deus é viver perdendo tempo. Se Deus é tudo para nós, é autor da vida, comanda tudo, até o ar que respiramos, para que dizer que eu não tenho tempo para rezar, para religião, para Deus? Vejo que as pessoas não têm uma consciência clara sobre a importância de Deus, opina.

O padre da Igreja Católica cita que acredita naquilo que Jesus disse a Pedro e também hoje ao papa Francisco de que tudo aquilo que ligares na terra será ligado no céu, e tudo aquilo que desligares na terra será desligado nos céus, fazendo referência à proposta do Santo Padre aos cristãos católicos e de outras denominações que também seguem sua palavra de que a vida é feita de escolhas e que o nosso agir determina que tipo de cristãos nós somos. Se eu não respeito a Quaresma, me permito fazer tudo que eu faço, as coisas erradas são acentuadas, me privo de não dançar, não faço jejum, não pratico a solidariedade, eu estou mostrando que tipo de cristão eu sou, um cristão que não é comprometido. Não adianta eu ser um cristão de tradição só porque meus pais foram católicos, porque fiz a crisma e me casei na igreja, mas, sim, ser um cristão que faz a escolha de Jesus Cristo na fé e me comprometo com aquilo que Ele ensinou, destaca Solano.

 

Vida na igreja

Assim como nos últimos 40 dias, o casal de rondonenses também viverá intensamente a Semana Santa, que precede o Domingo de Páscoa – considerado pelos cristãos o dia em que Jesus ressuscitou. Tudo começa dentro da igreja. Nós vamos viver toda a dramaticidade que Jesus viveu. Na Quinta-feira Santa ele vai lavar os pés dos discípulos, celebrar a Santa Ceia e falar que será traído, explica Ari. Na Sexta-feira Santa, vivemos toda a dramaticidade da sua prisão, da coroa de espinhos, da sua flagelação e do carregar a cruz, quando acontece a morte de Jesus. Participamos de todos esses momentos de celebração e estamos vivendo com Jesus a sua dor, a sua agonia, sua morte, comenta.

Já no domingo, ele diz que o casal quer também ressuscitar com Jesus. Será uma grande festa, afirma, emendando: uma celebração que começa na Santa Missa logo pela manhã, enfatizando que a nossa vida vai ser uma celebração de festa, de vitória, pois a nossa vitória é celebrada com Jesus. A ressurreição dele é a nossa ressurreição para viver um ano totalmente diferente, conclui Ari.

 

A Páscoa do nosso tempo

Apesar de não praticarem atos de jejum e penitência durante a Quaresma da mesma forma que os católicos, os cristãos evangélicos também têm no período dos 40 dias a reflexão sobre as 40 semanas que Jesus passou no deserto e foi tentado, remetendo também aos 40 anos que o povo de Deus peregrinou no deserto até chegar à terra de Israel, lembrando todos os sofrimentos e privações. A Páscoa tem a sua raiz na palavra liberdade, ou libertação, pois Deus é aquele que tira o povo de Israel do Egito, então sempre que essa data se repete no calendário judeu havia a festa da Páscoa celebrando a saída do povo de Israel do Egito, o que é uma ponte importante para o nosso tempo, expõe o pastor Vernei Hengen, da Comunidade Evangélica Martin Luther.

Mesmo que no tempo atual os fiéis não sejam escravos, o pastor destaca que nós mesmos nos escravizamos, por isso as pessoas também precisam se libertar de algo, seja das drogas, do álcool e até mesmo das redes sociais. Vemos como é difícil hoje se desconectar por uma ou duas horas e estar na igreja, em um ambiente comunitário, social ou familiar, pontua.

Da mesma forma que na comunidade católica, a Semana da Paixão iniciou no último domingo com a celebração do Domingo de Ramos, momento intenso que lembra a entrada de Jesus em Jerusalém de forma humilde, montado em um jumento, e recebido pelo povo como um líder, um salvador. Este período é intenso para nós e nos traz na Quinta-feira da Paixão o lava-pés, que lembra a humildade, o servir – já que Jesus lavou os pés dos discípulos – e também a ceia, que é o momento da comunhão que Jesus chama os discípulos e reúne-os em volta da mesa e diz: isso é o eu corpo e o meu sangue, o que Ele nunca havia dito antes, enfatiza.

Na Sexta-feira da Paixão, a comunidade relembra o caminho da cruz feito por Jesus e sua crucificação, seguidos pelo Domingo da Páscoa, que é o anúncio da ressurreição, da vida, da liberdade das amarras e de tudo que impede a lutar pela vida. Na comunidade celebramos o Trido, um culto que inicia na Quinta-feira, quando é lembrado o servir, sacerdócio que Deus nos faz e também temos a ceia. Ao fim culto nós tiramos tudo que representa vida do altar, os elementos da ceia, as imagens, bíblia, os paramentos, ou seja, acontece o desnudamento do altar. Ele fica vazio porque a celebração continua na Sexta-feira da Paixão, quando celebramos o vazio, a morte, o sofrimento de Jesus, explica. É um momento de reflexão porque muitas vezes hoje também não queremos parar para pensar na vida, e neste dia os jovens fazem a encenação, a representação da Paixão de Cristo, acrescenta o pastor.

O Tríduo Pascal encerra-se às 06 horas do Domingo de Páscoa, com a celebração que inicia do lado externo da comunidade. A Páscoa nos remete a Deus que doou o seu filho, com sofrimento e morte – porque ele não compactua no nosso tempo com essas injustiças – e nos deu um salvador para isso. A Páscoa nos remete à visita das mulheres ao túmulo, à dimensão da vida nova que começa logo de manhã, conclui Hengen.

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