Celebrado a cada dia 25 do mês de novembro, o Dia Laranja alerta para a urgente necessidade de prevenir e eliminar a violência contra as mulheres e meninas. Sendo uma cor vibrante e positiva, o laranja representa um futuro livre de violência contra mulheres e meninas, convocando ativistas, governos e agências das Nações Unidas a se mobilizarem pela prevenção e eliminação da violência contra elas, não só uma vez ao ano, no 25 de novembro (Dia Internacional de combate à violência contra a mulher), mas todos os meses.
Em Marechal Cândido Rondon, o domingo (25) será marcado por uma programação especial voltada às mulheres. O evento é alusivo à campanha da Organização das Nações Unidas (ONU) “Una-se Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres”. A campanha foi lançada em 2008, com o objetivo de dar visibilidade e aumentar a vontade política e os recursos designados para prevenir a violência contra as mulheres.
Organizada pelo Núcleo Maria da Penha (Numape/MCR), em parceria com a Prefeitura de Marechal Rondon, através das secretarias de Assistência Social, da Saúde e da Educação, além do Conselho Municipal da Mulher Rondonense (Commur), Sesc Comitê de Saúde Mental e Enfrentamento à Violência, Núcleo de Defesa dos Direitos da Infância e Juventude (Neddij), a programação terá início às 14 horas e deve se estender até as 17 horas. O local escolhido para a realização do evento, que é gratuito e não possui qualquer fim lucrativo, foi a Praça Willy Barth.
De acordo com a orientadora pedagógica do Numape, Carla Nacke Conradi, e a advogada Fabíola Scheffel do Amaral, a programação do Dia Laranja contará com uma série de atividades concomitantes e em tendas ou espaços separados, incluindo a distribuição de material informativo e a oferta de orientações jurídicas pela equipe do Numape e do Neddij. Além disso, também serão realizadas atividades lúdicas para as crianças, como pinturas faciais, jogos e outras atividades. No decorrer do evento ainda serão disponibilizados testes HGT e aferição de pressão arterial, assim como uma roda de conversa com as participantes do evento. “Tentamos fazer um dia em que tanto as mulheres quanto os filhos, ou até mesmo os homens, participem e assim consigamos trabalhar e debater sobre esse assunto”, declaram.
Visibilidade
Para as integrantes do Numape, o Dia Laranja surge como uma proposta de dar visibilidade ao tema da violência contra mulheres, buscando contato direto com a comunidade através da escolha simbólica e estratégica do Dia Internacional de Eliminação da Violência Contra as Mulheres, em 25 de novembro, bem como o início dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra Mulheres, que se iniciam no domingo e terminam em 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. “O Dia Laranja foi instituído pela ONU e ocorre todo dia 25 de cada mês, no entanto, nós, do Numape, demos mais ênfase para o 25 de novembro porque é o dia de enfrentamento da violência contra as mulheres. Desta forma, por se tratar de um dia emblemático, em que se iniciam os 16 dias de ativismo, optamos por fazer uma atividade direcionada à comunidade, para dar visibilidade à violência contra as mulheres e tentar disseminar informações sobre prevenção ou até mesmo sobre a saúde da mulher. Além, claro, de toda a assistência jurídica”, explica Fabíola.
Rodas de conversa
Segundo a advogada, dentre as atividades previstas está uma roda de conversa sobre a violência psicológica, que, conforme relata, é uma das violências que mais ocorrem com as mulheres e que elas sequer se reconhecem estando na situação. “O Gesta Rondon também estará fazendo oficina sobre violência obstétrica e aliado a isso serão ofertadas orientações jurídicas, em parceria do Neddij com o Numape”, comenta.
Uma roda de conversa sobre violência também será direcionada aos homens que estiverem no evento e quiserem participar. “Nós vamos convidá-los para fazer essa conversa sobre o que é violência, como ter um relacionamento saudável, o que é e o que não é abuso, como se comportar de forma diferente frente às questões que envolvem um relacionamento, entre outros assuntos”, adianta Fabíola.
Trabalho delicado
Carla ressalta que trabalhar com violência doméstica não é algo fácil. “Ela (violência) é pensada dentro dessa estrutura machista que tem a nossa sociedade e isso vai refletir nos locais onde vivemos”, diz, acrescentando: “É difícil também porque as mulheres têm dificuldade de se perceberem enquanto mulheres que estão sendo agredidas. E a violência se apresenta de diversas formas, não apenas física, mas desde o ciúme, que muitas vezes é um abuso, até o controle sobre roupas, condutas e até mesmo estudos”.
Além disso, a orientadora pedagógica do Numape, que também é professora doutora do curso de História da Unioeste, lembra que grande parte da dificuldade em se trabalhar com essas questões de violência se deve a uma resistência da própria sociedade, que vê a violência contra a mulher como algo invisível. “As mulheres têm dificuldade de se perceberem em uma relação e quando isso acontece elas ficam mal, até mesmo doentes, porque não conseguem romper o ciclo de violência, que é composto por brigas, desentendimentos, mudanças de humor e coisas externas que são trazidas para dentro do lar”, enaltece.
Por conta disso, Carla acredita que o dia 25 é importante para marcar esse ativismo. “Acho que vamos conseguir de uma forma um pouco mais lúdica, de uma forma que agregue melhor essas mulheres, para que elas possam vir até a praça, pensando na própria saúde delas”, enfatiza.
Realidade violenta
Pesquisas divulgadas pela ONU estimam que cerca de 70% das mulheres do planeta já sofreram ou sofrerão algum tipo de violência em pelo menos um momento de suas vidas – independentemente de nacionalidade, cultura, religião ou condição social. No Brasil, a cada dia cerca de 13 mulheres são assassinadas, sendo o quinto país que mais mata mulheres, de acordo com o Mapa da Violência de 2015. A cada dois segundos, uma mulher é vítima de violência física ou verbal em nosso país, conforme dados do Instituto Maria da Penha.
A Comarca de Marechal Cândido Rondon não foge desta realidade violenta, sendo que, segundo estimativa da Promotoria de Justiça, 1/3 dos processos em que atua é decorrente de violência doméstica, totalizando em média 11 mil atos por ano. “A mulher é diversa em sua composição, tanto física quanto sentimental, cultural e histórica. Então, independente do local em que estamos falando, a violência contra as mulheres será um fenômeno social”, afirma Carla.
Muito se discute hoje sobre o feminicídio, qualificação incluída ao crime de homicídio quando praticado contra a mulher por razões relacionadas à condição de sexo feminino, como violência doméstica e familiar, menosprezo e discriminação. “As mulheres estão morrendo pelo simples fato de serem mulheres, por isso falamos que se trata de uma questão de gênero. “A própria lei mostra que as mulheres não morrem simplesmente porque os homens as matam, mas porque há uma relação de poder, um senso de propriedade dos homens dentro da nossa cultura submissa”, relata a orientadora.
Carla também afirma que hoje a sociedade é tomada por assimetrias de poder, em que um manda e o outro obedece, o que acaba gerando a violência. “Sempre associamos a violência contra a mulher à pobreza, ignorância, falta de estudos, alcoolismo, entre outros, mas percebemos com base em dados que levantamos, mas que ainda não podemos divulgar para não prejudicar o andamento das pesquisas, que a violência está em todos os cantos de Marechal Rondon e presente em todas as classes sociais”, reitera.
Dedicado à mulher
Inaugurado em junho deste ano, o Núcleo Maria da Penha é um espaço dedicado ao atendimento sociojurídico e socioeducativo de mulheres em situação de violência e vulnerabilidade social.
Constituído a partir do apoio financeiro da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), por meio do subprograma Universidade Sem Fronteira (USF), o Numape/MCR está alocado ao Laboratório de Pesquisa de Estudos de Gênero e História (Lapeg) do campus rondonense.
O programa de extensão desenvolvido pelo Lapeg tem o propósito de somar junto às entidades municipais da rede de combate e enfrentamento à violência, constituindo-se num espaço de aconselhamento e representação jurídica gratuito às mulheres em situação de violência.
O Núcleo realiza ações na comunidade, como palestras e oficinas e a produção de materiais didáticos e informativos produzidos pela equipe pedagógica.
No Numape/MCR os atendimentos são realizados de segunda a sexta-feira, das 13h30 às 17 horas, em uma sala no térreo da Unioeste no Bloco IV. O atendimento é dedicado apenas às mulheres, abrangendo desde o esclarecimento de dúvidas até as ações judiciais necessárias.
O Presente