A gente cresce ouvindo um ditado popular que diz: “O mundo é dos mais espertos”. No entanto, desde criança minha mãe sempre contrapôs esse dizer. Até hoje ela fala que o mundo é dos mais dedicados. Foi com essa frase em mente que cheguei para entrevistar Iago Vinícios Souza Lima. Aos 19 anos de idade, ele passou em seis vestibulares.
Filho de Nelson Pereira Lima, um mecânico industrial, e Giseli de Souza Alves, que trabalha no ramo de vendas e também é diarista – com muito orgulho, como ela mesma diz, Iago nasceu em Volta Redonda, no Rio de Janeiro. A família, que ainda conta com o primogênito Ítalo e a caçula Paula, se mudou para Marechal Cândido Rondon em 2017. E foi aqui na cidade que celebrou uma conquista que com certeza foi assunto em todos os grupos de WhatsApp dos parentes.
Iago foi aprovado em Engenharia Química na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Universidade de Maringá (UEM), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e nos cursos de Farmácia e Medicina da FAG, em Cascavel.
O curioso é que ele estudou para o vestibular em geral, sem ter escolhido propriamente um curso. A única certeza que ele tinha é que queria algo relacionado à área da pesquisa. “Encontrei uma lista com possibilidades de curso e fiquei em dúvida entre Engenharia Agrícola ou Química. Como eu tenho maior afinidade com matérias biológicas e ciências, escolhi Engenharia Química no campus da UTFPR em Francisco Beltrão”, relatou, ao Jornal O Presente.
Aliás, ele já pensou em seguir carreira em várias áreas: Artes Cênicas, Ciências Biológicas, Biologia Marinha, Biomedicina, Medicina, Farmácia, Odontologia e Agronomia. “Quando acabei o Ensino Médio decidi ir para o cursinho, pois estava perdido em relação ao que cursar. Mas aí começou a pandemia e decidi não fazer cursinho, mas sim estudar por conta própria com apostilas que ganhei de uma amiga”, relembra Iago.
ROTINA
A primeira medida que ele tomou para imergir nos livros foi deixar de lado o celular e as mídias sociais. O estudante passou um ano sem contato com o aparelho móvel. “Entreguei meu celular para a minha mãe. Quando eu precisava falar com algum amigo, tirar alguma dúvida eu utilizada o aparelho da minha irmã”, conta.
Livre de todas as distrações possíveis, ele iniciou a rotina de estudos em abril de 2020. Iago assistia vídeo-aulas do YouTube para saber como começar, o que fazer e o que não fazer. “Foi essencial para aprender a estudar com quem já tinha experiência, tendo em vista que não tinha muito essa bagagem voltada para o vestibular no colégio em que fiz o Ensino Médio”, analisa.
Inicialmente, ele estudava apenas pela tarde e à noite, com uma pausa de uma hora e meia para comer e tomar banho. Depois seguia estudando até as 22 horas ou até a hora que os pais dele permitiam, já que não gostam que os filhos usem o computador de madrugada.
E não parava por aí. Após passar o dia em frente à tela, Iago lia algum livro, revisava as matérias ou até mesmo fazia exercícios da apostila, geralmente os de ciências humanas. “Essa foi a minha rotina por mais ou menos um mês. Acordava, passeava com os meus cachorros, comia algo, fazia um serviço de casa, assistia alguma série ou revisava algo”, destaca o estudante.
Os estudos eram divididos em blocos com uma hora de duração cada. “Eu selecionava algumas matérias e frisava as que eu tinha mais dificuldade. Escrevia um resumo e, se desse tempo, fazia exercícios”, ressalta Iago, acrescentando que o dia tinha cerca de dez blocos. “Eu não fazia nenhum intervalo. Após um mês passei a estudar pelas manhãs também, assim os horários de estudos eram divididos e mais espaçados”, pontua ele.
REDAÇÃO
Encarar a folha de papel em branco, as linhas contadas e o cronômetro girando é um desafio e tanto para os vestibulandos. Afinal, a redação implica bastante na nota de corte. Com Iago não foi diferente. Ele, que reconheceu que era um aluno mediano neste quesito, sabia que precisava melhorar esta questão. “De início eu assistia vídeos de youtubers sobre redação. A partir de então, comecei a fazer uma por semana e pedia para os meus pais e minha irmã lerem. Em seguida postava em uma plataforma gratuita, na qual outros alunos corrigem redações, eu também ‘corrigia’ as deles”, declara.
No entanto, isso ainda não era o suficiente e ele conversou com alguns amigos “bons de letra” para saber como ser mais prático na sua escrita. Até que descobriu uma corretora que o acompanhou por um ano. “A professora Natasha Hoffmann Marczinski foi essencial na minha trajetória, uma vez que estava sempre disposta a me ajudar, de maneira mais acessível”, enaltece.
E como só se aprende na prática, Iago começou a enviar duas redações por semana. E o resultado foi perceptível de imediato. As notas do vestibulando começaram a aumentar e ele não tirava menos de 800. “Quando o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) foi se aproximando, eu passei a escrever três por semana. É bastante, mas necessário”, menciona.
No final, é claro que todo esforço valeu a pena. Iago conseguiu tirar 920 na redação do Enem.
DIFERENCIAL
Conversa vai e conversa vem, Iago salienta algo que fez total diferença nos resultados: os exercícios e simulados. Sempre que ele terminava o resumo de determinado conteúdo, ia direto para as atividades e, em seguida, verificava as respostas no gabarito. “Neste caso o que fez falta foi o auxílio de um professor, tendo em vista que quando eu errava, não sabia como fazer o certo, principalmente nas questões de exatas”, rememora o estudante.
Além de fazer os simulados em plataformas gratuitas de estudo, Iago também imprimiu e encadernou oito provas do Enem. “Foi muito exaustivo. Fiquei 20 domingos só fazendo provas do Enem, simulando tudo o que eu faria ou não, o que deveria comer e qual matéria começar primeiro, além do uso de máscara e estratégias de prova. O principal desafio foi estar em casa para fazer isso”, destaca.
A TEMPESTADE E A CALMARIA
Na reta final do preparo e com o Exame Nacional cada vez mais próximo, a pressão aumenta e a ansiedade se torna parte de nós. “Me desesperei muito. Não conseguia dormir, acordava no meio da noite para estudar, ficava revisando matéria e fazendo exercício. O que me deixou mais tranquilo foi assinar uma plataforma de ensino on-line, que permitia ter contato com professores”, aponta.
Como depois de toda tempestade vem a calmaria, após a realização do Enem Iago tirou uma semana de férias. Em seguida, começou a focar nos outros vestibulares. “Foi bem mais tranquilo”, disse ele, já que tinha visto todo o conteúdo necessário.
Ao ser questionado aonde ele se vê em dez anos, a resposta é rápida: “Estudando, pesquisando e morando fora”, revela ele, que já fez amizade mesmo com as aulas on-line. “Tive bastante contato com o pessoal do curso. Quando começarem as aulas presenciais vai ser um universo totalmente diferente. Estou ansioso”, afirma.

LONGE DO NINHO
Com a volta das aulas presenciais em março, um desafio que o acadêmico terá que enfrentar é o de morar longe de casa. Vai ser a primeira vez que o estudante vai residir sozinho. Os pais ainda não estão preparados. “Só em olhar para ele eu já choro de emoção”, diz a mãe Giseli, ciente de que é a melhor escolha para o filho.
“O Iago é focado e isso vai trazer resultado. Estudar não traz gastos, apenas investimentos”, ressalta a mãe coruja, que está feliz porque a caçula está seguindo os mesmos passos do irmão. “A Paula está no segundo ano do Ensino Médio e ficou animada com a conquista do irmão. Ela agora pensa em ter uma formação e ele a auxilia com conselhos e dicas”, conta.
Paula afirma que o irmão sempre foi muito ambicioso, inteligente, organizado e dedicado. “Ele foi assim desses de pequeno, então quando eu o via automaticamente reproduzia aquilo. Cresci já tendo uma base do quanto eu tinha que me esforçar para alcançar meus objetivos”, declara a irmã caçula.

E em um caso específico Paula é “Maria vai com as outras”. Quando ela vê o irmão estudando, ela também vai. “Estudar junto foi uma das coisas que a gente mais fez na quarentena. Ele é a minha maior motivação. Ele me ensina que errar é normal e que a vida não é só estudo, não se resume apenas ao que vai cair no vestibular. Tudo foi um processo de aprendizagem para todos aqui em casa”, argumenta Paula.
Emocionada, mas também aos risos, a matriarca relembra o início da vida escolar de Iago, comentando que “ele nunca foi um aluno nota 100, mas também nunca foi de 60”, brinca.
“Conversava bastante em sala de aula, mas também era muito prestativo em tudo o que se propunha, tanto em casa quanto na escola. Temos que agradecer ao Colégio Estadual Paraíso do Norte, que foi de suma importância para a formação dele. Já aqui em Marechal encontramos a chave final para melhorar a nossa vida. Adoramos a cidade e as oportunidades que são providas”, concluiu.
TROTE
Todo calouro tem que passar por um trote. É “lei”. E a pandemia não impediu uma pequena algazarra saudável de celebração. Iago, a família e uma amiga, Luisa Thomé Souza, realizaram uma folia de comemoração. “Foi bem divertido. Fizeram um trote aqui em casa mesmo. Jogaram ovos, farinha e tinta em mim. Foi uma experiência incrível. Parece que era isso o que faltava para eu me sentir realizado”, diz.
Já no fim da entrevista, os pais de Iago repercutem uma frase que também era dita pelo meu avô. “O estudo é a única herança que podemos deixar”. E eu, que cheguei tímido para entrevistar a família, fui embora falante e aos risos.

O Presente