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Marechal "Boom" de atendimentos

Rondonenses com síndromes respiratórias provocam lotação na UPA

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(Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

O frio chegou, até já deu espaço para dias de calor, mas segue influenciando a saúde pública devido ao aumento de casos de doenças respiratórias. Hospitais na região Oeste chegaram inclusive a registrar superlotação devido à grande incidência de pacientes com complicações e o mesmo acontece Estado afora.

Em Marechal Cândido Rondon, as coisas também estão movimentadas na saúde pública. Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Edgar Netzel, em especial, a lotação está acima da média em relação aos anos que antecedem a pandemia.

“Nas últimas três semanas, alcançamos um pico de lotação de 20 pacientes em observação longa, com predominância de sintomas respiratórios, o que indica em sua maioria o protocolo de suspeita de Covid-19, com sugestão de internamento. Todo paciente com esta indicação clínica acaba sendo direcionado para síndrome respiratória aguda grave (SRAG), o que exige a coleta de RT-PCR e painel viral”, declarou ao O Presente a secretária de Saúde de Marechal Rondon, Marciane Specht.

Ela ressalta que o pós-pandemia é acompanhado pelo ressurgimento de doenças clínicas que antes não foram monitoradas. “Esses quadros intensificam e lotam as unidades de urgências e retaguardas hospitalares. Além de ser a realidade local, tal panorama se repete quando são observadas as referências regionais”, relata.

Secretária de Saúde, Marciane Specht: “Quando avaliamos os números de pacientes sintomáticos respiratórios de abril até junho, observamos um aumento. No entanto, a quantidade de casos positivos de Covid-19 é baixa, demostrando a predominância das síndromes gripais em detrimento à Covid-19” (Foto: Arquivo/OP)

 

Contaminação no cotidiano

Apesar do alerta, o diretor da UPA, Tiago Krielow, diz que é normal haver aumento na ocorrência de sintomáticos respiratórios nos períodos frios. “Isso acontece por motivos cotidianos, seja pela retirada de cobertores e roupas que estavam guardados há mais tempo, exacerbando as rinites, como também porque os ambientes fechados e não arejados são propícios para propagação de vírus respiratórios. E o vírus da Covid é um deles”, pontua.

Ele orienta os pacientes para primeiramente procurar a unidade de saúde do próprio bairro. “Em caso de necessidade, o paciente será direcionado à UPA para que sejam realizados exames complementares”, expõe.

Diretor da UPA, Tiago Krielow: “Felizmente, a maioria dos quadros são de gripe, na maioria das vezes autolimitadas. Do mesmo modo, a maioria das pneumonias são simples e podem ser tratadas em casa, pois são comunitárias, com germes menos agressivos” (Foto: Divulgação)

 

Baixa confirmação de Covid-19

A última semana, de 12 a 18 de junho, a UPA registrou 401 pacientes com síndromes respiratórias e apenas 3,7% destes confirmaram para Covid-19. O período é o que acumula maior entrada de casos sintomáticos respiratórios no local, segundo aponta gráfico cedido ao O Presente referente ao período de abril a junho.

“Quando avaliamos os números de pacientes sintomáticos respiratórios de abril até junho, observamos um aumento. No entanto, a quantidade de casos positivos de Covid-19 é baixa, demostrando a predominância das síndromes gripais em detrimento à Covid-19”, ressalta a secretária de Saúde.

(Fonte: Sistema IPM Saúde; Notifica Covid-19 Sesa/PR)

 

Crianças são principais infectadas

De acordo com Krielow, o volume de atendimentos de sintomáticos respiratórios supera o registrado no período pré-pandêmico, o que pode ser explicado pelo fechamento das escolas e das creches, quando diminuíram as infecções comuns. “Com a reabertura desses estabelecimentos, os quadros sazonais voltam a ser observados de forma habitual. A imensa maioria dos pacientes são as crianças, que na quase totalidade buscam atendimento por questões respiratórias e, por conseguinte, os familiares. Idosos também, mas em menor número, pois geralmente têm as vacinas realizadas, tanto de Covid quanto de influenza, o que minimiza os sintomas”, pontua.

Os rondonenses de zero a cinco anos representaram de 8,2% até 14,4% dos atendimentos na UPA desde abril até junho deste ano.

(Fonte: Sistema IPM Saúde; Notifica Covid-19 Sesa/PR)

 

Rotatividade de doenças

Questionado sobre a doença respiratória mais identificada entre os pacientes da UPA, Krielow afirma que não há um predomínio, mas, sim, uma rotatividade. “Felizmente, a maioria dos quadros são de gripe, na maioria das vezes autolimitadas. Do mesmo modo, a maioria das pneumonias são simples e podem ser tratadas em casa, pois são comunitárias, com germes menos agressivos”, salienta.

A secretária de Saúde comenta que há grande quantidade de pessoas notificadas para Covid-19, mas a taxa de positivadas é baixa. Na última semana – 12 a 18 de junho – houve 713 notificações e apenas 9,7% de confirmação para coronavírus.

(Fonte: Sistema IPM Saúde; Notifica Covid-19 Sesa/PR)

 

E se for Covid-19?

Muitas pessoas acabam resolvendo seus quadros alérgicos e gripais por conta, em casa, destaca o diretor da UPA. No entanto, ele alerta que muitos desses quadros podem ser Covid-19. “Na pessoa vacinada a tendência é ter menos quadro pulmonar e mais quadro gripal simples, com infecção de vias aéreas superiores”, pontua.

Dessa maneira, as pessoas apresentam os sintomas da doença, mas mantêm seus hábitos normais. “Só quando piora costuma procurar atendimento, ou então quando outro familiar apresenta quadro agravado. Neste último caso, o familiar faz o teste e acaba ‘descobrindo’ ser Covid-19. Por isso, é fundamental procurar a unidade de saúde do bairro. Esta é a porta de entrada do SUS. É lá que o cidadão deve ter seu primeiro atendimento e só então, mediante necessidade, ser encaminhado à UPA”, reforça Krielow, ressaltando: “A população precisa entender que a UPA é o local para pacientes com quadros mais graves, que necessitam de atenção e cuidados maiores do que na unidade de saúde”.

 

Crianças são as mais vulneráveis, diz pediatra

Pediatra conhecido em Marechal Rondon, José Lademir Friedrich também tem enfrentado alta no número de atendimentos de casos de doenças respiratórias. “São 25 anos de profissão e quadros assim nunca tiveram uma frequência tão alta quanto agora. Não dá para comparar com os dois últimos anos, que foram atípicos devido à Covid-19, mas se comparar com 2019, que era um ano normal, houve um aumento de 50%”, mensurou ao O Presente

Ele diz que o período de isolamento influenciou no atual “boom” de doenças respiratórias, uma vez que os vírus ficaram restritos, não se disseminaram e agora estão “compensando”. “As crianças ficaram dois anos isoladas, não se misturaram umas com as outras. Ou seja, não criaram a imunidade e pararam de criar anticorpos. Então, há uma quantidade maior de vírus e estes se deparam com pessoas com imunidade menor. Esse conjunto de elementos faz com que você não melhore de um quadro respiratório e já desenvolva outro”, explica.

 

Idade escolar

Friedrich afirma que as crianças são mais vulneráveis por ficarem em ambientes fechados e não realizarem os procedimentos de prevenção sozinhas, como a higiene. “Hoje em dia não tem uma faixa etária mais acometida. É a idade escolar”, menciona.

 

Inverno

A combinação de vírus “em ebulição” e a imunidade baixa complicam a situação especialmente no inverno, que tradicionalmente apresenta aumento no número de sintomáticos respiratórios. “O clima frio e seco é propício para a multiplicação do vírus. Além disso, as pessoas ficam mais em ambientes fechados e sem sol, que são importantes para evitar a disseminação viral. Também sofremos com as trocas de climas, que dá mais margem para esses quadros”, relata o pediatra.

Segundo ele, os casos só devem diminuir com a imunidade natural e a vacina, mas os números devem seguir em alta até o fim deste inverno.

 

Tratamento de sintomas

Friedrich salienta que os principais sintomas são febre, espirro, obstrução nasal, prurido nasal, dores (de garganta, de ouvido, pelo corpo) e tosse, além de mal-estar, inapetência, desânimo, vômitos e diarreias – que são sintomas mais vagos.

A preocupação inicial é identificar ou descartar a Covid-19, enquanto que os outros vírus são tratados pelos sintomas. “Geralmente de sete a dez dias já há melhora completa. Antes disso, os sintomas iniciais melhoram com três a cinco dias. Em épocas normais, você medica e a maioria das crianças melhora. Depois, há casos, cerca de 20%, com consequências dessa gripe, que é uma infecção de garganta, de ouvido, brônquio espasmo ou pneumonia. O que acontece agora é uma nova contaminação com um novo vírus e a criança começa com os sintomas novamente”, pontua.

 

Síndromes x doenças respiratórias

O pediatra não considera que a alta de quadros respiratórios seja uma subnotificação de Covid-19. “Inclusive, os vírus que acometem as crianças agora dão sintomas piores do que quando era Covid-19, porque elas não tinham sintomas tão severos como agora”, enaltece.

Friedrich explica que frequentemente o termo síndrome respiratório é utilizado de forma incorreta. “As síndromes respiratórias mais comuns são os SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave), da Covid-19, e a MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio). Nas síndromes há quadros mais complexos, com doenças sistêmicas associadas e não só de vias aéreas superiores ou inferiores. Então, todo organismo é afetado quando o caso é sindrômico. Por outro lado, nas gripes e nos resfriados só afeta vias aéreas superiores ou, em alguns casos, inferiores”, ressalta.

Pediatra José Lademir Friedrich: “São 25 anos de profissão e quadros assim nunca tiveram uma frequência tão alta quanto agora” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

O Presente

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