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Marechal O perigo dos aparelhos

Sem celular e longe da internet, psiquiatra rondonense admite: “Sou considerado anormal”

(Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

Quantas horas você passa diariamente no celular? Já se imaginou vivendo sem ele? O que para muitos pode até ser difícil de imaginar é a realidade do rondonense Roberto Machado. Na vida do médico psiquiátrico, celular, rede social e até e-mail não fazem parte da rotina, que é preenchida por atividades mais interessantes.

“Hoje, por exemplo, a grande maioria das pessoas tem um celular e de manhã até a noite ninguém fica menos de duas horas no aparelho. Esse tempo eu utilizo para coisas que acho mais úteis, como ler e estudar”, conta o profissional que atua Marechal Cândido Rondon. Ele conta que dos seus 72 anos de idade 48 deles já foram dedicados à psiquiatria e pelos conhecimentos da profissão optou por manter-se “longe” dessas tecnologias emergentes. “Minha percepção das pessoas e do que é saudável me levou automaticamente para isso. Ao mesmo tempo, não digo que um dia não vá ter um celular, mas por enquanto não sinto necessidade”, emenda.

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Internet e notícias

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No que diz respeito ao acesso à internet, Machado utiliza apenas nos locais de trabalho por uma exigência funcional, visto que o sistema on-line é padrão para os atendimentos.

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Outras tecnologias, como a televisão, também ficam a par da rotina do rondonense. Questionado sobre como faz para se informar e saber das notícias mundo afora, ele é incisivo. “O conteúdo dos jornais gera tensão e geralmente é ligado a notícias ruins que repercutem na pessoa. Então, eu não vejo. São poucos os jornais com conteúdo válido e que acrescentem alguma coisa”, menciona.

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Psiquiatra rondonense Roberto Machado: “As pessoas questionam o que fariam caso o carro estragasse na rodovia ou algo assim. Elas esquecem que já vivemos sem celulares e dava certo. Os carros estragavam e as pessoas davam um jeito” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

O perigo dos aparelhos

Machado viu surgirem os aparelhos e mesmo no começo, quando os celulares serviam basicamente só para ligação, ele sentia a gradação do que viria pela frente. “É um processo gradativo. O celular trabalha em cima de um núcleo obsessivo que toda pessoa tem e, assim como outras coisas, trabalha hipertrofiando essas defesas obsessivas. Quanto mais insegurança as pessoas vivem, até pelo modelo de mundo hostil, mais mecanismos obsessivos elas desenvolvem como tentativa de amenizar esse sentimento”, explica.

Antes de sequer levantar-se da cama o celular é procurado pela maioria das pessoas. Qualquer atividade precisa ser acompanhada pelo celular, mesmo que não seja usado, e as checagens às notificações são constantes. Esses e outros hábitos são, segundo o psiquiatra, “rituais que a pessoa faz para sentir-se mais segura. Sem segui-los, a ansiedade aumenta e a pessoa fica insegura”, pontua.

 

Tecnologia com critério

O apelo dos celulares aos mecanismos obsessivos humanos é frequentemente desconhecido aos usuários, o que torna, na visão do médico, a moderação no uso quase impossível. “São raras as pessoas que têm equilíbrio e conduzem a tecnologia com critério. Hoje tanto a tecnologia quanto as pessoas não têm critério ou limite. Os indivíduos são impulsivos, agem para depois pensar e na vida tem que ser ao contrário. Sem esses cuidados, as pessoas vão enveredando cada vez mais nas tecnologias, se tornam dependentes até isso se transformar em um transtorno obsessivo compulsivo. Foge do racional”, expõe.

 

Paradoxo da solidão

Os rituais obsessivos, menciona o psiquiatra, são realizados por um indivíduo geralmente solitário que anseia a companhia de outros. Contudo, ao simular a proximidade através do celular, cai-se em um paradoxo.

“As pessoas utilizam o aparelho como uma forma de combater a solidão, fenômeno que cresce na nossa sociedade. Por meio do celular é como se estivesse com alguém, mas essa não é a forma mais saudável de combater a solidão”, assegura ele, expondo que a convivência real, interação e o “olho a olho”, tão necessários, têm se tornado raridade. “Se entrar em uma casa qualquer, você vai encontrar três ou quatro pessoas cada uma no seu ‘aparelhinho’. Ninguém se comunica com ninguém”.

Na área da saúde, menciona Machado, são comuns os atendimentos em que a tecnologia se torna um obstáculo físico para a proximidade. “Em muitos locais o monitor do computador está no meio da mesa e o paciente não enxerga o médico, assim como o médico não enxerga o paciente. Inconscientemente, isso é utilizado para impor uma barreira e evitar vínculos, porque o vínculo desperta sentimentos e conflitos. As pessoas fogem disso e aí a tecnologia surge para fugir do convívio”, argumenta.

 

Cada vez mais cedo

Cada vez mais cedo as crianças são expostas às tecnologias e, mais do que isso, pais e responsáveis passam a acreditar que o digital é essencial para o desenvolvimento. Contudo, o psiquiatra destaca que a realidade não é bem assim. “O sistema todo está trabalhando para diminuir a importância do lúdico. Criança não precisa de tecnologia, ela precisa brincar e interagir. Se transportar isso para cidades maiores, é um absurdo. Crianças que não brincam vão ser adultos doentes e sintomáticos”, considera.

Segundo o profissional rondonense, o sistema educacional vem incorporando a tecnologia com a “desculpa” de um mundo competitivo, no qual as crianças precisariam aprender cada vez mais cedo. “Isto é fator para gerar doenças, pois uma etapa da infância foi pulada. A criança vai competir no mundo no momento certo, quando tiver organizado conflitos através do brinquedo e tiver formado um alicerce bom. Não é por acaso que se delimitou seis ou sete anos para uma criança entrar na escola. Sabe-se que até essa idade o cérebro dela está dominado por conflitos e fantasias, ou seja, não está pronto para render na parte intelectual”, explica.

 

Contrário à estrutura biológica

As constantes atualizações e o status on-line 24 horas, unidos ao estímulo para que as pessoas adentrem sempre mais a fundo nesse mundo “rápido”, são prejudiciais à saúde humana, pondera Machado. “Hoje o mundo está sendo acelerado pela tecnologia e as pessoas são empurradas para isso. É tudo rápido, mesmo aquilo que não precisa ser rápido; e a maioria das coisas não precisa ser. Essa velocidade de estímulos vai contra nossa estrutura biológica, que é lenta. Temos a capacidade, mas para acompanhar a velocidade do digital teríamos que sofrer mutações e isso leva séculos no ser humano”, comenta.

O psiquiatra alega que esse aceleramento forçado adoece as pessoas, que ficam cada vez mais doentes e frágeis. “A gravidez humana é uma das mais longas entre todos os animais, assim como a nossa infância. Isso significa que somos biologicamente lentos. Quando se mantém uma aceleração acima e constante, abala nossas estruturas e começam a aparecer os sintomas: o número cada vez maior de usuários de drogas, tentativas de suicídio mais precoces e outros indícios”, exemplifica.

 

Fora do automático

Por não fazer parte desse esquema de aceleração tecnológica, Machado diz que, por vezes, é visto como o desadaptado. “É preciso pensar, não agir automaticamente só porque as coisas acontecem desse jeito e são ‘normais’. A aparência de normalidade é dada pelo comportamento da maioria e à medida que eu não tenho celular sou considerado anormal”, expõe.

Diante dos empecilhos postos ao viver sem celular, o psiquiatra frisa que já houve um momento em que tudo se resolvia sem essas tecnologias. “As pessoas questionam o que fariam caso o carro estragasse na rodovia ou algo assim. Elas esquecem que já vivemos sem celulares e dava certo. Os carros estragavam e as pessoas davam um jeito. Não é justificativa para me abalar, encontro caminhos e alternativas”, enaltece.

Para o profissional, o primeiro passo para não ser refém do celular é ter a percepção daquele comportamento. “Não é porque o mundo me empurra para tecnologia que eu tenho que seguir aquilo. Preciso trabalhar comigo se não quero me tornar dependente de aparelhos. Precisa haver bom senso e trabalho individual. Se não tiver jeito e a pessoa já estiver em um estágio de transtorno obsessivo compulsivo, precisa buscar tratamento”, indica.

 

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