As recorrentes altas nos preços do milho e da soja encarecem o custo de produção na suinocultura, uma vez que a alimentação dos animais representa mais de 80% do total gasto para a criação de suínos.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em um ano, o milho dobrou de preço e a soja aumentou 75%, e a situação pode se agravar diante da eminente queda na produção do milho safrinha devido à longa estiagem que atingiu o Paraná desde o plantio.
Segundo o relatório mensal divulgado na última quinta-feira (24) pelo Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), o Paraná deve produzir 38 milhões de toneladas de grãos na safra 2020/2021, em uma área de 10,4 milhões de hectares. Esse volume de produção representa 8% menos do que o produzido na safra 2019/2020, em uma área 3% maior. A estimativa é de que somente na região Oeste a queda chegue a 1,8 milhão de toneladas, 37% da perda total do Estado.
No entanto, junho foi um mês para os suinocultores retomarem o fôlego com o recuo do preço do milho e do farelo de soja, além da recuperação do preço pago pelo suíno, ainda que pequenas. Isto permitiu margens positivas nas projeções. O valor pago pelo quilo de suíno vivo foi cotado este mês a R$ 6,70 no Estado.
A volatilidade do setor requer dos produtores suinícolas muito jogo de cintura para se adequar às circunstâncias impostas pelo mercado, que sofrem influência direta de diversos fatores que contribuem para as frequentes oscilações.
O Jornal O Presente conversou com especialistas da área e com suinocultores rondonenses para saber se a queda na produção do milho safrinha deve de fato afetar a produtividade nas granjas de suínos e quais são as saídas para mitigar os transtornos.
ESTABILIZAÇÃO
A Granja Becker produz leitão descrechado e atualmente possui cinco mil matrizes. Segundo o proprietário Milton Becker, apesar do preço da ração estar num patamar elevado em relação ao valor de comercialização da soja e do milho, a queda na produção do safrinha não deve representar prejuízo em sua granja. “A expectativa é de que não haja mais aumento, mas, sim, estabilização ou redução no preço da ração”, opina.
Para Becker, quem mais deve sentir a alta no preço da ração são os terminadores independentes, em virtude da instabilidade no valor de comercialização da produção. “As indústrias e as cooperativas entendem que o produtor de leitão é a ‘galinha dos ovos de ouro’, então, se existe variação de preços, isso não acontece de forma muito acentuada na produção no nosso segmento”, afirma o suinocultor.
O empresário rural credita que a quebra na produção do milho safrinha não representará perda para seu negócio devido ao volume produtivo da granja. “É tudo questão de planejamento e produtividade. Quem tem menos produção pode incorrer em prejuízo, mas isso não tem acontecido conosco”, expõe.
De acordo com ele, as oscilações sempre aconteceram na suinocultura e é um processo natural, no entanto, é preciso sempre buscar alternativas para se adaptar às situações. “E em último caso, sempre temos a alternativa de importação ou diminuir a exportação, o que já está acontecendo”, menciona.

Suinocultor Milton Becker: “Para superar as dificuldades de custo e benefício, sempre é indispensável priorizar a produtividade” (Foto: Sandro Mesquita/OP)
ALTERNATIVAS PARA REDUZIR CUSTOS
Segundo o suinocultor Cesar Scherer, a atividade é um setor extremamente competitivo e é preciso estar com os custos bem alinhados à realidade.
Para ele, a utilização de ingredientes alternativos podem auxiliar na redução dos custos, no entanto, a substituição dos ingredientes na dieta dos suínos tem limitações e pode resultar em rações inadequadas e prejudicar o desempenho produtivo das granjas e, consequentemente, aumentar o prejuízo. “Nunca é recomendável fazê-lo deliberadamente. Sempre deve-se consultar um profissional para avaliar eventuais substituições dos ingredientes da ração”, pontua.

Suinocultor Cesar Scherer: “O cenário proposto com a redução das cotações do milho e do farelo de soja, somada à melhora do preço de venda do suíno, é o que todo suinocultor espera e por certo criaria um incremento na produção” (Foto: Arquivo/OP)
VALOR NUTRICIONAL
Para o diretor de premix da Trouw Nutrition, Mauricio Andrino, os produtores precisam se preocupar com a qualidade e o valor nutricional. “Ao pensar no uso de insumos alternativos, os produtores devem levar em conta a disponibilidade em sua região e avaliar os custos para introdução nas dietas”, afirma.
Aleixo Pinheiro, diretor técnico da empresa, complementa que “a utilização de materiais alternativos com certeza terá impacto no preço da ração, mas o importante é a produtividade: o quanto os animais vão produzir consumindo uma dieta alternativa. Com baixa qualidade e menor valor nutricional, aves e suínos passam a ter desempenho menor, elevando o custo final da produção”, ressalta.
De acordo com Pinheiro, entre as alternativas viáveis está o sorgo, que pode substituir o milho em alta em associação com enzimas e aminoácidos. “Há soluções nutricionais disponíveis que podem ser usadas em maior quantidade, reduzindo o volume de grãos e com valor energético equivalente”, explica.
Outra ferramenta, ao alcance de avicultores e suinocultores, é a análise instantânea de matérias-primas e rações, que podem ser realizadas através do Espectrômetro de Infravermelho Próximo (NIR) ou pelo equipamento portátil NutriOpt on-Site Adviser (NOA). “Esses aparelhos determinam a composição e a qualidade das matérias-primas e rações com precisão e rapidez, permitindo ajustes nas formulações e otimização dos resultados econômicos e produtivos”, menciona Pinheiro.

Diretor técnico da Trouw Nutrition, Aleixo Pinheiro: “Há disponíveis soluções nutricionais que podem ser usadas em maior quantidade, reduzindo o volume de grãos e com valor energético equivalente” (Foto: Divulgação)
CUSTO DA PRODUÇÃO DOBRARAM
Conforme Andrino, o custo de produção do quilo de suíno quase dobrou em comparação ao ano passado. “O preço que estava entre R$ 3,80 e R$ 4 agora chega em torno de R$ 7/kg. Em algumas regiões os suinocultores conseguiram ligeira recuperação, enquanto em outras as granjas estão trabalhando no vermelho”, salienta.
Ele diz que a explosiva alta dos insumos é motivo de preocupação não só para os produtores, mas também para a indústria de nutrição animal. “O cenário mudou radicalmente no último ano e o mercado está tentando reagir de forma eficiente para lidar com essa adversidade, que compromete o resultado econômico da avicultura, suinocultura e pecuária de leite e de corte”, destaca o diretor de premix da Trouw Nutrition.

Diretor de premix da Trouw Nutrition, Mauricio Andrino: “Na cadeia de proteínas animais, as margens para erros estão cada vez mais estreitas. Ao adotar a nutrição de precisão, os produtores sabem a composição das matérias-primas em detalhes, o que possibilita ajustes assertivos na formulação das rações, maior controle de qualidade, otimização das estratégias nutricionais e, consequentemente, melhor retorno econômico” (Foto: Divulgação)
EXPORTAÇÕES
As exportações brasileiras de carne suína in natura no acumulado de janeiro a maio de 2021, comparado com o mesmo período do ano passado, cresceram 20,51% (+68,5 mil ton) no total e de 26,82% (+48,7 mil ton) para a China.
Entretanto, especialmente o mês de maio de 2021, mostrou estabilidade nos volumes em relação a maio de 2020, com aumento de apenas 0,7%, indicando que, daqui para frente, a tendência é de que o crescimento em relação ao ano passado seja menor, fechando o ano em torno de 10% de incremento total dos embarques.

Quebra na safrinha de milho vai refletir na produtividade das granjas de suínos (Foto: Sandro Mesquita/OP)
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